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Estado de Minas ARTIGO

Campos de terra e a teologia do futebol

É preciso lutar pela preservação dos nossos campos de bairro, local onde os ídolos do futebol são criados


postado em 07/10/2019 04:00

(foto: Ilustração: Marcelo Lelis)
(foto: Ilustração: Marcelo Lelis)


Em várias mitologias ocidentais o ser humano é criado a partir do barro, da terra. Todo humano é húmus, é humildade... Lembra-te que és pó! Homem e terra se unem em um casamento perfeito. Quando a terra sofre, o homem sofre. Leonardo Boff, um dos maiores teólogos de língua portuguesa, nos mostra que o homem é “terra que anda, terra que pensa”. O barro, do qual somos feitos, é matéria aberta à livre criação. E assim somos nós, seres em eterna construção, projeto de nós mesmos. Ao construir a nós mesmos, vamos construindo bairros, cidades, estados e nações.


Assim também fazem os deuses do futebol. Toda criação de um novo ídolo da bola começa da terra, do barro, da poeira. Sem a terra não há legítimo futebol. Quantas vezes nós, amantes do futebol, não nos misturamos a esse elemento sagrado de que somos feitos e, por algumas horas, éramos um só? Ao chegar em casa, escutávamos a terna voz de um torturador medieval gritando: “Menino! Pra entrar em casa tem que deixar a terra do lado de fora!”. Pedido impossível, como só as mães sabem fazer. Mal sabíamos que esse era nosso éden, nosso jardim dos prazeres.


Em meio a esse paraíso, chamado popularmente de campo-de-terra, a humanidade era toda infância. Vivíamos o que hoje se chama de vida saudável, mas sem a gourmetização da existência que hoje assistimos inertes. Estávamos sempre com corpo sujo, mas a alma limpa. Nenhum ralado era capaz de nos parar. A laranja descascada, durante os intervalos, era o néctar do Olimpo. Ao compartilhar a mesma garrafa de água fortalecíamos, coletivamente, nossa imunidade e, assim, nos tornávamos quase imortais! O fruto do conhecimento era a bola e o único pecado era tratá-la mal, a única ofensa era desrespeitá-la.


Mas eis que alguém desafia nossa sacralidade, fazendo surgir a ganância, os empreendimentos imobiliários, e somos expulsos do paraíso. Tal como São Paulo, ficamos cegos ou enxergamos apenas o cinza urbano, o que dá na mesma. Trocamos a terra pelo concreto, o húmus pelo cimento e a livre criação pelo prédio em construção... O campo, da terra, dá lugar ao arranha, do céu. Sem barro não há mais criação, sem criação não há mais o sagrado futebol.


Diante desse sacrilégio que alguns chamam de progresso, só nos resta um ato de resistência, uma missão divina para salvar os campos de terra, quadras e congêneres das mãos desses infiéis que se rebelam contra nossa história. Vamos lutar para que estes lugares, como símbolo da mais alta expressão religiosa, sejam considerados patrimônio histórico de cada bairro, de cada vilarejo, de cada cidade. Só assim encontramos nosso campo de terra prometida e nossas almas, que também são feitas dessa poeira volátil que se mistura ao sol de domingo, descansarão na felicidade.

* Filósofo


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