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Estado de Minas

O anjo de Marta

Quando ficou sem clube, aos 16 anos, a camisa 10 da Seleção foi recebida em BH pela técnica Vera Lúcia, do Santa Cruz, que até hoje, voluntariamente, treina meninas na Barragem Santa Lúcia


postado em 13/06/2019 04:10

Vera Lúcia guarda com carinho lembranças da adolescente Marta em Belo Horizonte: no apartamento do Bairro Madre Gertrudes, onde morou com outras colegas; posando para foto com o time do Santa Cruz; e brincando no Parque Guanabara, na Pampulha(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Vera Lúcia guarda com carinho lembranças da adolescente Marta em Belo Horizonte: no apartamento do Bairro Madre Gertrudes, onde morou com outras colegas; posando para foto com o time do Santa Cruz; e brincando no Parque Guanabara, na Pampulha (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
  

Em 2002, o Vasco encerrou as atividades do futebol feminino e Marta, uma menina de 16 anos, não via outra alternativa a não ser voltar para Dois Riachos. Foi da pequena cidade do interior de Alagoas, de 11 mil habitantes, que ela havia partido algum tempo antes para o Rio, em viagem de três dias de ônibus, com o sonho de se tornar jogadora profissional. Mas as portas fechadas em São Januário deixaram a alagoana de malas e chuteiras nas mãos. Foi quando a mineira Ludmila, que jogou com Marta em um torneio de base, teve uma ideia: ligar para sua treinadora em Belo Horizonte pedindo uma oportunidade e duas passagens de ônibus, pois não tinham um centavo no bolso.

O pedido foi atendido. A responsável por acolher e treinar aquela que viria a ser eleita seis vezes a melhor do mundo é Vera Lúcia Pereira, uma atacante atrevida na década de 1980 com a camisa do Racing, do Bairro Universitário, e que, aos 65 anos, continua formando jogadoras nos campos de terra batida de BH. Sem patrocínio e de forma voluntária.

No início dos anos 2000, Vera montou um time campeão no Santa Cruz, na Região Nordeste, dando oportunidade de trabalho para jogadoras como a jovem Marta, além de Formiga, Marisa e Fanta, que já brilhavam com a camisa da Seleção Brasileira. O time venceu tudo que disputou e Marta fez gol à revelia. Logo, a técnica deu à atacante a camisa 10, que se tornaria a marca registrada da atleta.

“A Marta foi disputar o Mundial Sub-20 no Canadá e ficou conhecendo a Ludmila, que era minha atleta, pois eu sempre mandava jogadoras para a Seleção. Quando voltaram, o Vasco tinha fechado o time e ela disse: ‘Vou ter que voltar para minha terra e lá nem Seleção, nem ninguém vai se lembrar de mim’. Foi quando a Ludmila me ligou, mandei o dinheiro e elas vieram”, lembra Vera Lúcia. “Chegou aquela moça humilde, logo se adaptou ao time e vimos que era uma atleta diferente.”

Marta foi morar em um apartamento com outras jogadoras no Bairro Madre Gertrudes. Recebia um salário que era basicamente uma ajuda de custo. Os poucos patrocinadores forneciam material esportivo e até legumes e verduras – que a própria comissão técnica de Vera Lúcia buscava em uma kombi na Ceasa, em Contagem. Durante a semana, jogava na quadra, graças a uma parceria com o Poliesportivo de Contagem. Sábado e domingo brilhava com a camisa do Santa Cruz em gramados desgastados e campos de terra batida.

DE BH PARA O MUNDO A passagem de Marta pela capital mineira terminou em 2004, quando chamou a atenção do futebol sueco e se transferiu para o Umea. “O pessoal de lá me ligava 20 vezes por dia para ela ir para a Suécia. Acabou que ela foi. Aqui não fez contrato, nem nada, por isso não recebemos nada”, conta.

Desde sua partida, Marta veio a Belo Horizonte e esteve com Vera Lúcia algumas vezes e prometeu à treinadora voltar em breve. Recentemente, em entrevista ao site do Mineirão, Marta relembrou o período em BH. “Fiz amizade com muita gente, tenho amigos até hoje, como a Vera, que era a dona do time”, disse a atacante. Vera se orgulha: “Ela continua a mesma menina humilde até hoje. Outra Marta nunca vai aparecer, para mim ela é um gênio”.

Aos 65 anos, Vera continua se dedicando à formação de atletas, dando treino duas vezes por semana na Barragem Santa Lúcia. De lá saíram algumas das atletas que formaram a equipe do Atlético. O maior objetivo da treinadora é reativar seu projeto pessoal, o time do Juventus, de camisa grená, que tem o escudo acompanhado de seis estrelas – uma homenagem aos seis títulos de melhor do mundo da jogadora mais ilustre que passou por suas mãos.


Santa Cruz, uma história de perseverança e sucesso

Fundado em maio de 1951, o Santa Cruz é um dos times mais tradicionais e vitoriosos do futebol amador de Belo Horizonte. A história do futebol feminino no clube começou na década de 1980, com uma moradora do bairro conhecida como Dona Pequena, que reunia meninas da região para jogos de casa cheia no estádio.

No início dos anos 2000, os troféus conquistados pelos homens passaram a dividir espaço com as taças das mulheres, graças ao time comandado pela técnica Vera Lúcia. “A Vera me procurou e falou do desejo de formar uma equipe feminina para disputar a Taça Minas, Copa Centenário”, conta Cláudio Henrique Soares, presidente do clube. “Quando eu vi a Marta jogando, com 16 anos, fiquei assustado com a habilidade. Tinha jogo em que ela fazia 17 gols. Era uma joia rara”, lembra.

Como todo clube amador, o Santa Cruz hoje tem dificuldade em se manter. A sede está em obras e os garotos das categorias de base treinam em um segundo campo, de terra. O clube revelou jogadores como Evanílson, ex-Cruzeiro, e Dedê, ex-Atlético, ambos com carreira de sucesso na Europa.

BASE DO AMÉRICA Em 2014, o Santa Cruz representou Minas Gerais na Copa do Brasil de futebol feminino. Em meados do ano seguinte, o departamento foi extinto, quando as jogadoras e comissão técnica migraram para formar a base do time feminino do América. A coordenadora era Bárbara Fonseca, que desde fevereiro é a gestora do futebol feminino do Cruzeiro. Bárbara treinava no Santa Cruz e se lembra da época da passagem de Marta. “Ela tinha um desenvolvimento, uma qualidade que chamava muito a atenção das outras meninas”, recorda.


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