Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Estado de Minas

Bola no estilo cigano

Sem estrutura para oferecer alojamentos em categorias de base, vários clubes optam por mudar de sede ou terceirizar atividades. Tragédia no Rio pode acentuar fenômeno


postado em 17/02/2019 05:09

Izaías, de 19 anos, lamenta incêndio no Ninho do Urubu:
Izaías, de 19 anos, lamenta incêndio no Ninho do Urubu: "Fiquei pensando muito sobre as mortes, pois já morei várias vezes em alojamentos"


O incêndio que matou 10 garotos no Ninho do Urubu há nove dias comoveu o mundo e também jogou holofote sobre as condições dos alojamentos dos clubes de futebol. Se ocorreu uma tragédia em um gigante como o Flamengo, fica a preocupação quanto a agremiações menores, tanto das capitais quanto do interior.

As equipes menos tradicionais convivem com orçamentos apertados, estrutura e pessoal limitados, além de dificilmente cumprirem as exigências dos órgãos fiscalizadores. A solução, que deve se acentuar com o incidente no Rio, tem sido “terceirizar” as categorias de base, abrindo mão de oferecer alojamentos ou mesmo transferindo os treinos e sedes de lugar para que mais atletas possam participar sem ter de dormir fora de casa.

“Os alojamentos ajudam muito. Você busca destaques de fora e forma times mais competitivos. Mas isso é compatível apenas com as grandes equipes. Teríamos de alugar casa, montar estrutura, contratar profissionais para cuidar da alimentação. É muito complicado. Por isso optamos por atletas das redondezas, que tenham parentes em BH ou região. Por motivos financeiros, não aceitamos jogadores de fora”, argumenta Leandro Costa, supervisor do Minas Boca, equipe de Sete Lagoas, a 70 quilômetros de Belo Horizonte, mas cujo grupo sub-20 treinará neste ano em Contagem.

Essa é também a realidade do Serranense, que já teve sede em Betim e agora é de Nova Serrana. Manda os jogos na Arena do Calçado, mas treina na Arena Pitangui, no Bairro São Cristóvão, Região Noroeste de BH. “Viemos justamente para facilitar a vida de nossos atletas, pois a maioria é da região metropolitana, e aqui é central”, justifica o técnico Cássio Medeiros. Ele admite que o ideal seria ter alojamento e jogadores de fora, mas não lamenta. “Temos de fazer o melhor dentro da nossa realidade.”

O presidente, Júnior André dos Santos, ressalta, porém, que a categoria sub-17 continua em Nova Serrana. Atletas de outras cidades são hospedados num hotel, onde tomam o café da manhã. Duas refeições são oferecidas numa churrascaria. “Devemos ser o único clube do Brasil em que os jogadores comem churrasco no almoço e no jantar”, diz.

Outra agremiação que preferiu transferir os treinos para a região metropolitana é o América de Teófilo Otoni. Treina em Ibirité, onde manda suas partidas, normalmente no Estádio Municipal. Já o Villa Nova tem dado prioridade a jovens de Nova Lima, Raposos, Rio Acima e BH. Em 2016, extinguiu o alojamento sob a arquibancada do Alçapão do Bonfim. Quando necessário, imóveis são alugados para atletas de outras localidades.

A tragédia no Ninho do Urubu mexeu com atletas, famílias e despertou as autoridades: América e Cruzeiro foram notificados na semana passada por não ter alvarás ou licenças exigidos.

MADRUGADA A ausência de alojamentos restringe a área de captação de talentos para os clubes. Já para os jogadores, pode significar ter de acordar ainda escuro e viajar de ônibus por mais de uma hora para estar em campo às 8h.

É o caso do volante Izaías, do Serranense. Aos 19 anos, ele não mede esforços para seguir buscando o sonho de se profissionalizar, mesmo sabendo que o funil é estreito. “Cheguei a pensar em parar no ano passado, mas vim para o Serranense e me animei de novo. É difícil. Muitos dos amigos já estão trabalhando, tirando carteira, comprando moto, e eu estou aqui. Mas temos de correr atrás de nossos objetivos”, diz ele, que mora no Barreiro e recebe ajuda do time para pagar as passagens rumo aos treinos.

Para diminuir o desgaste, o Serranense se concentra um dia antes dos jogos. Nessas ocasiões, se hospeda em hotéis, onde é possível controlar a alimentação e também a Cássio Medeiros fazer preleção com privacidade – a Arena Pitangui, que tem gramado sintético, é usada por outras equipes e também aluga horários para peladas. “Fiquei pensando muito sobre as mortes, pois já morei várias vezes em alojamentos, como no Verê-PR, São Bernardo e Santo André, além do PKS, da Polônia. Você vai para o clube e se despede da família pensando em voltar nas férias para rever todos. Os jogadores do Flamengo não puderam fazer isso, é triste”, afirma Izaías.

Muitos outros jovens de clubes menores se identificaram com a situação dos rubro-negros. Afinal, vários deles tentaram a sorte em América, Atlético e Cruzeiro, onde as instalações são semelhantes às do Flamengo. “A tragédia mexeu com eles. Mas estamos conversando bastante, dando apoio”, diz Cássio Medeiros, que, além de treinador, exerce papel de psicólogo e mesmo de referência para muitos garotos. (Colaborou Roger Dias)


Time empresa vira exceção

Se a maioria dos clubes, inclusive grandes, tem de se desdobrar para dar condições mínimas aos atletas, o Coimbra navega em águas bem mais tranquilas. Respaldado por grande instituição financeira, o banco BMG, o clube oriundo de Nova Lima e atualmente sediado em Belo Horizonte cresce temporada após temporada, respeitando o planejamento.

Atualmente, está ampliando o bom Centro de Treinamentos Flávio Pentagna Guimarães no Bairro Sapucaias II, em Contagem, que passará a ter dois campos oficiais (um com arquibancadas) e dois de dimensões menores. Os novos alojamentos, quando concluídos, dobrarão a capacidade atual de 24 atletas, tanto para profissionais quanto para a categoria sub-20. Há sala de musculação espaçosa e bem-equipada, vestiários, departamento médico e auditório. Também conta com piscina para trabalhos regenerativos.

Ao contrário de América e Cruzeiro, tem alvará de localização e funcionamento emitido pela Prefeitura de Contagem e laudo do Corpo de Bombeiros em dia. A estrutura faz o Coimbra colher frutos. No ano passado, os profissionais foram campeões da chamada Segunda Divisão mineira, que corresponde à Terceira Divisão. Também se classificou ao hexagonal final do Estadual Sub-20, terminando em quinto lugar, atrás do Uberlândia e dos três grandes da capital.

“Temos estrutura enxuta, mas funcional e confortável”, observa o gerente de futebol, Bernardo Lage, de 26 anos, ex-jogador, tendo parado cedo em função de problemas físicos e também pelo desânimo diante de estruturas deficientes na maioria dos clubes menores.

Mesmo com o BMG por trás, há limitações. Se serve café da manhã, lanche à tarde e jantar, não oferece almoço aos atletas. A refeição é feita num restaurante próximo. “É mais prático”, argumenta Murilo Henrique, administrador do CT. Manda seus jogos na Arena do Calçado. A expectativa é que neste ano inaugure seu estádio, com capacidade para 2 mil pessoas.


ENQUANTO ISSO...
Mais times em disputa

Apesar de todas as dificuldades, o Campeonato Mineiro Sub-20 de 2019 pode ter o maior número de participantes dos últimos cinco anos. Se em 2014 foram 21 inscritos, para este ano, 18 clubes – 50% a mais que em 2018 – enviaram documentação à Federação Mineira de Futebol (FMF): América, América de Teófilo Otoni, Atlético, Bétis (Ouro Branco), Boston City (Manhuaçu), Coimbra, Cruzeiro, Democrata de Sete Lagoas, Minas Boca (Sete Lagoas), Patrocinense, Ponte Nova, Pouso Alegre, Serranense, Tupi, Tupynambás, Uberlândia, União Luziense e Villa Nova. A fórmula de disputa será definida na quarta-feira, às 14h, em reunião do Conselho Arbitral na sede da FMF, em Belo Horizonte.


Publicidade