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Estado de Minas ENTREVISTA/FUAD NOMAN - PREFEITO DE BELO HORIZONTE

Prefeito diz que espera que Bolsonaro olhe para BH com cheque na mão

Fuad Noman afirma que pretende atender demandas históricas da capital mineira, com a ampliação do metrô


13/04/2022 04:00 - atualizado 13/04/2022 16:40

Fuad Noman, novo prefeito de BH
"Precisamos recuperar a alegria de Belo Horizonte, trazer o público para a rua. A pessoa acorda domingo e não tem nada para fazer na cidade" (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A. PRESS)
 
Há três semanas na cadeira de prefeito de Belo Horizonte, o economista Fuad Noman (PSD) sabe que uma de suas missões é aumentar o nível de conhecimento por parte dos habitantes da cidade. Essa, aliás, foi uma das primeiras afirmações dele — ainda com os microfones desligados — à equipe dos Diários Associados que esteve ontem na sede do Poder Executivo municipal, numa entrevista exclusiva. “Preciso que o povo me conheça”,.

Fuad faz questão de dizer que seu jeito de ser não é o mesmo do antecessor, Alexandre Kalil (PSD), conhecido pelas falas explosivas. E, em busca de começar a imprimir um estilo próprio, mira ações prioritárias. Uma delas é estruturar um programa de incentivo a atividades de cultura e lazer ao ar livre. “Precisamos recuperar a alegria de Belo Horizonte e trazer o público para a rua. A pessoa acorda domingo e não tem nada para fazer na cidade”, avalia.
 
Nesta entrevista ao Estado de Minas e à TV Alterosa, Fuad garante manter “relação cortês” com a presidente da Câmara Municipal, Nely Aquino (Podemos). O Legislativo, aliás, é a esperança do prefeito para pôr fim ao impasse que pode levar ao aumento nas tarifas de ônibus. Isso porque, enquanto uma liminar judicial ordena a cobrança de R$ 5,85, ele tenta emplacar projeto de lei que pode resultar na diminuição em R$ 0,20 dos atuais R$ 4,50. Na semana passada, o pessedista foi à Cidade Administrativa se encontrar com o governador Romeu Zema (Novo) para um “café”, como descreveu. “Feliz da vida” pela agenda, o prefeito levou ao Palácio Tiradentes reivindicações de Belo Horizonte — e revela que algumas delas já começam a surtir efeito.
 
Fuad evita analisar o comportamento do presidente Jair Bolsonaro (PL) ante a pandemia de COVID-19 — argumenta que esse assunto não é de sua “competência”. Apesar disso, cobra o repasse de verbas federais para Belo Horizonte e sonha com um aceno do chefe do Executivo federal. O desejo é que os sinais venham com “um cheque na mão” a reboque para ajudar a destravar demandas históricas da cidade, como a ampliação do metrô.


 
Pai de dois filhos e quatro vezes avô, o chefe do Executivo da capital foi secretário de Fazenda do governo mineiro, pasta que também ocupou durante o primeiro mandato de Kalil, em BH. Atuou, também, na pasta estadual de Obras e na Casa Civil durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. Funcionário de carreira do Banco Central e com atuação, inclusive, no Fundo Monetário Internacional (FMI), o prefeito se descreve como “técnico”.
 
“Quem é esse moço?”, pergunta ele de forma retórica, antes de fazer um resumo do currículo profissional e emendar um complemento. “As pessoas precisam saber que a prefeitura não está entregue a uma pessoa sem experiência. A prefeitura está entregue a uma pessoa com experiência e dedicação.”

Fuad garante manter no radar, ainda, a construção de casas populares para a população em situação de vulnerabilidade e o apoio aos cidadãos que vivem nas ruas. Para isso, uma das ideias é ter o auxílio da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para mapear os públicos que dormem sob as marquises. “Para respeitar todo mundo, temos que oferecer soluções a essas pessoas.” 
 
Entrevista com o Fuad Noman
"O que estamos tentando fazer é construir, com a Câmara, uma solução que assegure que os vereadores vão aprovar o subsídio das gratuidades o mais rapidamente possível" (foto: ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A. PRESS)
Esta é a terceira semana desde a posse do senhor como prefeito. Quais têm sido os principais desafios neste período?
Os desafios são muitos, em todas as áreas. Nesses primeiros dias, o principal desafio foi a greve dos professores municipais na qual tivemos a cooperação do sindicato, dos vereadores de Belo Horizonte e de alguns deputados estaduais. Com isso, conseguimos apresentar uma proposta que atendeu os interesses da casa, encerramos a greve e desde segunda os alunos já estão na escola. Outro desafio grande foi a questão do transporte coletivo, que nós estamos ainda em um impasse para encontrar a solução. Esses dois são os maiores problemas que enfrentei até agora. 

O que pode ser feito de imediato para evitar o aumento das tarifas dos ônibus?
Em primeiro lugar, nós temos que entender que não damos aumento aos ônibus desde 2018. Ou seja, a tarifa é R$ 4,50 há três anos e vocês viram o que aconteceu com os custos de combustível, pessoal, pneu etc.. Criou-se uma questão de que o serviço está ruim porque não pagamos direito, aí continuamos sem pagar e o serviço piora. É um círculo vicioso que coloca a forma de pagamento versus a prestação de serviço ruim. O que nós precisamos é inverter esse quadro.

O que acontece se a prefeitura for notificada pela Justiça antes de o projeto ser aprovado na Câmara?
Não posso garantir que a passagem não vai aumentar sem ter o projeto de lei aprovado. O que estamos tentando fazer é construir, com a Câmara, uma solução que assegure que os vereadores vão aprovar o subsídio das gratuidades o mais rapidamente possível. Se a gente conseguir essa negociação, vamos ao juiz, pedir um tempo para que a gente não precise cumprir [a liminar], porque teremos uma solução melhor para a sociedade. 

 

De que maneira o senhor pretende solucionar o contrato do transporte público?
Temos que rever e modernizar o contrato, que foi feito em 2008 utilizando modelos e procedimentos da época, que já se mostram inadequados para os dias de hoje. Ele é válido até 2028, mas para fazer qualquer alteração nós precisamos sentar com a Câmara, com as empresas, com a sociedade civil, para ver quais os melhores projetos para resolver isso. Também temos que contratar uma boa consultoria para analisar a parte técnica e os desequilíbrios do contrato. Só a partir disso que teremos uma noção da complexidade.

Como tem sido a relação com a Câmara e com os vereadores? Houve uma trégua?
O relacionamento tem sido muito bom e a presidente Nely tem sido muito cortês. Criamos um grupo de trabalho com quatro vereadores e estamos nos encontrando às terças-feiras. Logicamente, há divergências sobre alguns detalhes, o que é normal, mas a relação está muito boa. 

O que foi conversado no encontro com o governador Romeu Zema, na semana passada?
Zema me convidou e eu fiquei feliz da vida. Levei uma lista de pedidos de Belo Horizonte que eu acredito que merecem a atenção do estado. Então, foi uma conversa entre um prefeito e um governador. Os pedidos foram feitos, principalmente em relação à questão do Córrego do Ferrugem e às inundações. De modo geral, são algumas coisas rotineiras da nossa administração, tais como terrenos em comum que queremos unificar para permitir que sejam feitas obras e ajustes com a Copasa sobre as dez mil residências que jogam o esgoto na Lagoa da Pampulha.

Quais são os principais problemas de Belo Horizonte?
Nós temos problemas das enchentes, das encostas que caem. A situação melhorou na Vilarinho, por exemplo, mas ainda temos problemas que demandam obras que só podem ser feitas em períodos secos. Outro ponto é a educação. Se eu der um turno agora, não consigo recuperar os dois anos de pandemia. Então, precisamos encontrar formas de aumentar a carga horária. Também tem a questão da saúde, que ainda é um problema grave. Ainda temos pessoas morrendo todos os dias por causa da COVID-19. Já reformamos 33 postos de saúde e vamos concluir outros 17. 

O senhor tem algum projeto para atrair o público para ruas, praças e parques?
Nós precisamos recuperar a alegria de Belo Horizonte. Nós precisamos trazer o público para a rua. A pessoa acorda domingo e não tem nada para fazer na cidade. Estamos trabalhando na montagem de um modelo, de um programa. Ainda não tem um nome, mas pensei em algo como “Belo Horizonte mais feliz”, porque de fato precisamos disso. Temos que colocar as crianças na rua, fazer atividade física, passeio de bicicleta. Criar shows dentro da cidade, da periferia. Com isso, além de lazer, também abre oportunidade ao vendedor de pipoca, de picolé, ou seja, gerar demanda para pequenos negócios. Também quero enfeitar a cidade, colocar mais árvores, deixar mais limpa, mais bonita. 



O que a sua gestão na prefeitura pretende fazer para diminuir o número de pessoas em situação de rua? 
Esse não é um problema simples. Primeiro, porque quem está na rua, normalmente, não está porque quer. A maioria está na rua porque não tem alternativa. São pessoas que precisam ter sua dignidade respeitada. Para lidar com esta questão, estamos contratando uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para que eles possam mapear e separar em grupos semelhantes. Para cada um deles, queremos uma política específica. Para respeitar todo mundo, temos que oferecer soluções para essas pessoas. 

O que pode ser feito para suprir o déficit habitacional de Belo Horizonte?
O governo federal sempre foi o patrocinador das moradias populares. Teve o “Minha casa, minha vida” e terminou. Neste governo se criou o programa “Casa Verde e Amarela”, mas não avançou. As prefeituras, de modo geral, não têm esse recurso para investir. Com Belo Horizonte, é um pouco diferente. Temos algumas possibilidades e estamos trabalhando para encontrar áreas e recursos para construir. Este ano, com certeza, vamos iniciar a construção de algumas casas populares. Eu queria pelo menos umas 500 unidades. Vamos colocar um conjunto de imóveis para vender, que geraria um recurso, a prefeitura daria o terreno e podíamos construir alguma coisa. 



Há previsão para a liberação de máscaras em locais fechados?
O problema todo é o seguinte. Primeiro, tem um estudo da Fiocruz que fala que ainda não é o fim da pandemia. E a segunda coisa que mais me preocupa é que menos de 30% das crianças de 5 a 11 anos estão com a segunda dose. Eu fico muito preocupado em colocar essas crianças na escola sem máscara e a contaminação aumentar novamente. A questão é: se mais de 70% tomaram a primeira dose, porque não tomam a segunda? Tem que falar com os pais e responsáveis para vacinar as crianças.



O senhor vai apoiar a candidatura de Kalil ao governo? Pretende participar da campanha?
Claramente vou votar em Kalil, porque acho que é uma pessoa preparada. Se ele confirmar a candidatura na convenção [do PSD], terá meu voto. Mas a prefeitura não participa de campanha. O prefeito nunca foi muito bom de campanha — até porque nunca fez — e não vai se envolver em campanha. Eventualmente, em um sábado ou domingo, se ele me convidar para ir ali ou acolá, até vou. Mas a Prefeitura de Belo Horizonte não tem compromisso com campanha de ninguém. Recebo todo mundo que quiser vir aqui. Fui até lá no governador e já recebi o senador Carlos Viana [pré-candidato ao governo]. Absolutamente republicanas as nossas conversas.

Como o senhor projeta a relação da prefeitura com o presidente Jair Bolsonaro? 
Como prefeito, não é da minha competência avaliar o presidente da República. A única coisa que eu tenho a reclamar é que Belo Horizonte não tem sido contemplada com recursos federais. Em 2020, de fato eles liberaram bastante recurso, mas em 2021 não teve nada e até agora em 2022 também não. Então, eu gostaria muito que o presidente abrisse os cofres para Belo Horizonte, que é uma cidade importante, que merece. Eu não tenho nenhum problema com ninguém, converso com todo mundo, respeito todo mundo e se o presidente quiser me chamar para conversar eu vou com muito prazer. Até porque temos problema no metrô, no Anel Rodoviário e sem o governo federal atuar é impossível resolver essas questões. Então, gostaria que o presidente olhasse pra cá, de preferência com um cheque na mão.
 
Qual a posição do senhor sobre as denúncias de truculência da Guarda Municipal nos protestos dos professores?
Eu pedi à Guarda Municipal que abrisse uma sindicância interna para avaliar o que ocorreu. Se o procedimento foi correto, se houve abuso, excesso, enfim, saber o que aconteceu. A gente afastou os dois guardas envolvidos durante o processo e estamos aguardando. Nós somos absolutamente contra qualquer tipo de violência e nossa posição para a Guarda é sempre proteger e não atacar, mas às vezes acontece e nós precisamos entender o porque antes de tomar qualquer medida. 

O que o senhor pensa em fazer para se tornar mais conhecido pelos belo-horizontinos?
Fui eleito vice-prefeito, mas as pessoas votaram no Kalil. Só se a pessoa olhasse com muito cuidado para ver que Fuad estava lá [na urna eletrônica]. A população precisa de me conhecer. Tenho 50 anos de serviço público. Tenho história no governo federal, no governo federal e no governo municipal. Tenho muita experiência, mas nunca fui uma pessoa de frente. Sempre fui uma pessoa técnica. As pessoas precisam saber que a prefeitura não está entregue a uma pessoa sem experiência. A prefeitura está entregue a uma pessoa com experiência e dedicação. Um belo-horizontino que ama esta cidade e a quer pulsando novamente, com as pessoas felizes. Vamos trabalhar para que esses dois anos e oito meses sejam de um governo de muitos avanços por Belo Horizonte.

O senhor pensa em estar ativo nas redes sociais?
Ainda vou pensar nisso. Vamos conversar. Quero começar a comunicar coisas pelo Twitter, mas, para mim, o mais importante são vocês [a imprensa].

Kalil tinha um jeito mais impositivo e expansivo nas respostas. O senhor, mais técnico, adota um tom mais manso nas falas. Pensa em resolver os problemas de BH à base do jeito mineiro de ser?
Entrei no governo com Kalil. Somos do mesmo partido e torcemos juntos para o Atlético. Ele tem ascendência libanesa; eu, síria. Isso nos aproxima muito. Ganhamos a eleição com um programa de governo meu e dele. Fizemos um planejamento para tocar os quatro anos junto com ele. Isso vai continuar. Queremos a mesma coisa para a cidade. Pessoas têm jeitos diferentes — e não há nenhum problema. Sou mais calmo, converso mais e gosto de contar mais casos. Kalil tem um coração grande; às vezes, fica um pouco nervoso. Não tenho um coração tão grande, mas também não fico tão nervoso. 
 


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