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Estado de Minas COVID-19

Material, escassez de profissionais e infraestrutura desafiam vacinação

Especialistas ouvidos pelo EM apontam obstáculos que o país terá de vencer para realizar a maior campanha de imunização da história


20/12/2020 04:00 - atualizado 20/12/2020 09:34

Produção da CoronaVac, feita no Brasil pelo Instituto Butantan, foi incluída para distribuição no plano nacional do Ministério da Saúde(foto: Governo de São Paulo/Divulgação )
Produção da CoronaVac, feita no Brasil pelo Instituto Butantan, foi incluída para distribuição no plano nacional do Ministério da Saúde (foto: Governo de São Paulo/Divulgação )
O esforço coletivo de cientistas e grupos de pesquisa no mundo contribuiu para o surgimento de diversas vacinas contra o novo coronavírus em tempo recorde, alimentando a esperança de que a doença possa ser finalmente controlada. Rússia, Estados Unidos, Canadá, Arábia Saudita e Reino Unido foram os primeiros países a iniciar o processo de vacinação em suas populações ou em parte delas. O Brasil, no entanto, sem calendário de imunização, convive com dúvidas e incertezas que atrasam o acesso da nação a uma vacina e deixam desprotegidos grupos prioritários no enfrentamento à doença respiratória com grande chance de contaminação.

A extensão territorial e a grande população brasileira, por si, impõem aquela que deve ser a maior campanha de vacinação, mas há problemas e desafios ligados à infraestrutura para a imunização. Lançado na semana passada sob críticas, o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a COVID-19 não deixou claro como será a logística de distribuição de imunizantes e compra de insumos necessários à aplicação da vacina num Brasil de dimensões continentais.

Essa infraestrutura requer a aquisição de equipamentos e seringas e a contratação de mais profissionais para distribuir as doses, como observa o professor Benício Ferreira, coordenador do curso de biomedicina do Centro Universitário Internacional (Uninter). “Um fator preocupante que estamos vivenciando hoje é a escassez da mão de obra de profissionais de saúde, e uma vacinação dessa magnitude necessitará de inúmeros profissionais, que em muitas situações poderão ser afastados da assistência atual onde estão trabalhando, nos leitos de unidades de internação e UTIs (unidades de terapia intensiva)”, afirma.

Enquanto nos EUA e em outros quatro países a imunização já começou, o Brasil acumula dúvidas sobre a infraestrutura para aplicar o imunizante(foto: Mark Lennihan/AFP)
Enquanto nos EUA e em outros quatro países a imunização já começou, o Brasil acumula dúvidas sobre a infraestrutura para aplicar o imunizante (foto: Mark Lennihan/AFP)


O especialista destaca ainda que os profissionais estão assoberbados com extensivas jornadas de trabalho, para que a assistência possa ser prestada. Benício Ferreira aponta que o plano de imunização do governo precisa de muitos ajustes para ser mais eficiente.

“Infelizmente, nesse quesito, o planejamento não foi o adequado. Em julho, o poder público foi avisado da necessidade de insumos para a aplicação de vacinas, porém apenas agora, em dezembro, é que o Ministério da Saúde começou a procurar fornecedores deste tipo de insumo. Existe receio das autoridades de saúde de um real desabastecimento dos insumos utilizados para a aplicação de vacinas em grande escala para a população.”

O plano de imunização anunciado pelo ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, não tem cronograma definido e inclui 13 substâncias candidatas a vacina, entre elas as da AstraZeneca/Oxford, a Pfizer e a CoronaVac, alvo de polêmica entre o Palácio do Planalto e o governo de São Paulo, que tem parceria com a fabricante chinesa Sinovac Biotech por meio do Instituto Butantan. A expectativa é de que sejam necessárias pelo menos 108 milhões de doses para imunizar os trabalhadores de saúde, idosos, quilombolas, funcionários de transporte coletivo, comunidades tradicionais ribeirinhas e pessoas em situação de rua, grupos definidos pelo governo como prioritários.

Para facilitar a logística da distribuição das doses, empresas aéreas firmaram acordo com o Ministério da Saúde para transportar gratuitamente as vacinas a cidades distantes. De acordo com o governo federal, o ponto central de distribuição das vacinas será no aeroporto internacional de Guarulhos, onde elas ficarão armazenadas em freezers ou refrigeradores. O Ministério da Saúde também prevê que haja bases de apoio em Brasília, Rio de Janeiro e Recife. Haverá remessas enviadas por terra, através de rodovias, para os estados de Minas Gerais, Santa Catarina, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal e Rio Grande do Sul. Aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) também serão usados no transporte entre as unidades federativas.

Imunidade de rebanho Em relação à vacina da Pfizer, o Ministério da Saúde sabe que será necessários refrigeradores para manter o imunizante armazenado à temperatura de 70 graus negativos. Na visão do epidemiologista Geraldo Cunha Cury, que coordena a aplicação de vacinas na UFMG, em Belo Horizonte, um dos entraves é conciliar o clima do Brasil com a temperatura exigida.

“Nos Estados Unidos, as vacinas saíram de Minessota com temperatura ambiente de 16 graus negativos e foi mais fácil transportá-las. Aqui, talvez tenhamos de fazer um esquema misto. Nas capitais, há locais para armazenar a vacina em temperaturas baixas. Logo, é possível vacinar um grupo com elas. Em outros, com temperatura normal, outras vacinas poderiam ser abrangidas e atender a novos grupos. Enfim, o processo tem que ser bem definido.” A campanha de imunização começou, na segunda-feira, nos Estados Unidos. A enfermeira Sandra Lindsay, de Nova York, foi a primeira americana a ser vacinada contra a COVID-19.

Para o pesquisador e coordenador do Centro de Tecnologia de Vacinas (CTvacinas), Flávio Guimarães da Fonseca, é preocupante o fato de o presidente Jair Bolsonaro anunciar que não tomará a vacina, incentivando, assim, indiretamente, milhares de brasileiros a deixar de lado o imunizante. “O presidente fala que não vai tomar a vacina. O Brasil atinge um dos maiores patamares globais de população que se recusa a ser vacinada. E é um problema gigantesco. Para cortar a circulação do vírus, a única opção é a vacinação em massa. Enquanto houver pessoas que não se vacinam, não conseguimos moldar o que chamamos de imunidade de rebanho. O vírus continuará circulando nessa população que está desprotegida.”

Plano feito a 'toque de caixa'


A imunização contra a COVID-19 é classificada como a maior campanha de vacinação da história do Brasil e sem ter precedentes pelo pesquisador e coordenador do Centro de Tecnologia de Vacinas (CT vacinas), Flávio Guimarães da Fonseca. Outra dificuldade destacada pelo especialista é o fato de o plano nacional de imunização ter sido feito às pressas, quando demandaria pelo menos quatro meses para ser elaborado.

“O quantitativo de pessoas a serem vacinadas é muito maior que de outras campanhas. Será um desafio enorme para o programa, até porque ele foi gerido a toque de caixa por ótimos técnicos. Mas precisaria de pelo menos quatro meses para ser elaborado", afirma Flávio Fonseca

Ele entende que o país pode se basear na experiência de outras campanhas em anos anteriores. “O nosso programa de vacinação já foi premiado internacionalmente e construído ao longo de déca- das. Ele é independente de governo, seja os bons ou ruins, e até hoje ninguém prejudicou essa boa regularidade. A campanha para a vacina do coronavírus será a maior da história e sem precedentes.

O governo federal anunciou que o Brasil tem garantidos 300 milhões de doses de vacinas, sendo 130 milhões do imunizante da AstraZeneca; 42,5 milhões da parceria Covax Facility com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outros 70 milhões da substância produzida pela Pfizer. Porém, nenhum dos imunizantes até agora teve o registro concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que prejudica a logística e a entrega.

O Ministério da Saúde confirmou ontem o 2º caso de reinfecção pelo novo coronavírus no país. O caso é de uma mulher de 41 anos moradora de Fernandópolis (SP).

A pasta notificou ontem 7.213.155 registros de infecção e 186.356 óbitos provocados pela doença respiratória. Em Minas Gerais, são 494.187 pessoas contaminadas e o número de mortes alcançar 11.093 desde o início da pandemia. Outros 36.532 casos da doença estão em acompanhamento pelas autoridades de Saúde.

Na Suíça O órgão regulador da área da saúde da Suíça, Swissmedic, informou ontem, por meio de comunicado, que liberou a vacina da Pfizer e da BioNTech contra a COVID-19 para uso no país. A nota lembra que é a primeira vez no mundo em que a autorização para o imunizante é dada em procedimento ordinário, não por um aval de uso emergencial.

Que pressa?

“A pressa da vacina não se justifica”. A frase foi dita na tarde deste sábado, em entrevista concedida pelo presidente Jair Bolsonaro ao próprio filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). O presidente disse, ainda, que a pandemia da COVID-19 está acabando. “A pandemia, realmente, está chegando ao fim. Temos uma pequena ascensão agora, que chama de pequeno repique que pode acontecer, mas a pressa da vacina não se justifica”, afirmou Bolsonaro, ao afirmar que há uma apreensão injustificada sobre a doença, que já matou mais de 180 mil brasileiros. “Você mexe com a vida das pessoas. Vão inocular algo em você. O seu sistema imunológico pode reagir ainda de forma imprevista”, comentou. Enquanto isso, no Reino Unido, O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, anunciou ontem novas restrições à circulação de pessoas em Londres e no sudeste do país , regiões onde a pandemia de COVID-19 tem se agravado. Johnson confirmou que nova variante do coronavírus identificada pelas autoridades de saúde britânicas se espalha mais rapidamente do que as anteriores. “Pode ser até 70% mais transmissível do que a variante antiga”, disse o premiê britânico. As novas medidas são equivalentes ao lockdown imposto em novembro e durarão duas semanas. 


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