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Estado de Minas Entrevista/FÁBIO FARIA

''Centro não terá força para derrotar Bolsonaro'', diz ministro

Ministro visto como articulador afirma que o presidente não saiu derrotado das eleições municipais


02/12/2020 04:00 - atualizado 02/12/2020 07:51

''Bolsonaro não foi feito de um dia para o outro. Ele ficou quatro anos fazendo o nome dele. E para fazer um líder, no Brasil, não é rápido. Acho difícil, entrando em 2021, até 2022 surgir um nome para contrapor'' (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
''Bolsonaro não foi feito de um dia para o outro. Ele ficou quatro anos fazendo o nome dele. E para fazer um líder, no Brasil, não é rápido. Acho difícil, entrando em 2021, até 2022 surgir um nome para contrapor'' (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Considerado um articulador do Executivo com os outros Poderes, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, rejeita o título e diz que a imagem surgiu porque chegou ao governo no momento de maior estresse entre as instituições, o que foi resolvido por vontade de todos.

Ele diz não ter dúvidas de que, apesar de muitos afirmarem que o presidente Jair Bolsonaro saiu derrotado das eleições municipais, o chefe do Executivo continua forte e sua reeleição é muito provável em 2022.

No entender do ministro, não haverá tempo suficiente para que o grupo de centro-direita que saiu fortalecido das urnas construa uma candidatura com musculatura suficiente para fazer frente a Bolsonaro e a um representante da esquerda.

“Acho muito difícil o centro fabricar um nome. Não vai surgir outro líder de direita. Mas a esquerda vem”, destaca. Dos nomes citados como possíveis cabeças de chapa da direita mais moderada, Faria ressalta que o ex-juiz Sergio Moro saiu do jogo político ao migrar para a iniciativa privada e se envolver em conflitos de interesse.

Afirma que o governador de São Paulo, João Doria, desgastou-se por causa de uma sucessão de “traições”. Frisa que Rodrigo Maia é um grande articular político, mas não tem votos, e acredita que Luciano Huck deve continuar como apresentador de tevê, pois os eleitores não querem se arriscar em uma aventura parecida com a de Wilson Witzel, eleito para o governo do Rio de Janeiro com um discurso contra a corrupção, mas que deve perder o mandato porque cometeu os mesmos erros de governos anteriores.

Sobre o fortalecimento do Centrão nas urnas, Faria ressalta que isso não significará a volta do toma-lá-dá-cá, por meio de mais vagas no ministério.

“O Bolsonaro não está virando Centrão. O que precisa é o centro se entender com o governo”, diz. Para Faria, a única crise que existe no governo é a “crise de palavras”, que cria uma cortina de fumaça e faz com que as entregas não cheguem na ponta.

“Não tem nenhum ponto que desabone o governo. Não há uma denúncia de corrupção. Na pandemia de COVID, não faltou dinheiro para estados e municípios, não faltou dinheiro para as empresas, não faltou para os desempregados. Não faltou para nada”, defende.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista concedida ontem no Ministério das Comunicações:

Ministro, estamos vindo de eleições municipais. Como o senhor viu o resultado das eleições e que recado as urnas deram ao governo?
O governo não recebeu nenhum recado das urnas. O próprio presidente Jair Bolsonaro pediu para que nenhum ministro, nenhum secretário participasse (do pleito). Alguns deputados participaram, mas ele próprio não foi para nenhuma cidade. Ele fez algumas lives, eu acho que quatro, e sinalizou para o eleitor conservador. Nas próprias lives, ele falava que, no máximo, alteraria de 5% a 6%. A narrativa que foi colocada de que houve uma participação e, possivelmente, derrota do presidente Bolsonaro é totalmente incorreta. Porque, se ele quisesse ter participado plenamente das eleições, teria pedido que todo o seu grupo de linha participasse. Isso não houve. Outro ponto, se olhar 2016, Bolsonaro não fez nenhum prefeito. Este ano não tem nem partido. O eleitor de direita, do Bolsonaro, votou em vários candidatos e em vários partidos que estão participando em algumas votações, votando junto com o governo. Muito difícil você ter um recado claro eleição de 2020.

Como o senhor avalia o resultado? O eleitor não quis os extremos. Optou pelo centro.
Quem foi o candidato de extremo, do Bolsonaro, que perdeu? Russomanno (Celso Russomanno, candidato à prefeitura de São Paulo pelo Republicanos) é moderado. Crivella (Marcello Crivella, candidato à reeleição do Rio de Janeiro) é moderado. É uma leitura que não ainda consegui fazer, essa que a imprensa tentou colocar. Óbvio que, se você lê muitas vezes a mesma coisa, acaba seguindo o caminho. Mas a maioria dos partidos que compõem hoje a base do governo na Câmara e no Senado, muitos migraram e votaram. Pessoalmente, sem ser como ministro, acho que Bolsonaro mostrou que é muito forte, descolado de muita coisa. Bolsonarismo é muito mais o Bolsonaro do que um núcleo maior. Tanto que o presidente não participou. Logo depois das eleições, sai uma pesquisa na qual o presidente tem 40% de ótimo e bom. Ele disse, nas lives, que não tem hoje este poder de transferência. A pessoa volta no candidato. O fator local é muito mais forte do que o nacional. O principal recado que ele deu, foi a sinalização para o eleitor conservador, que foi aquele que votou nele.

Mas as forças de centro saíram mais fortalecidas. Como o senhor avalia?
Acho que nada disso influencia. Se for voltar dois anos, em 2018, o Geraldo Alckmin (candidato à Presidência pelo PSDB) fez uma ampla aliança, conseguiu sete minutos de televisão e o Bolsonaro, com sete segundos, venceu. O Alckmin tinha apoio de governadores nos estados e não conseguia ir, porque não eles queriam recebê-lo. Do mesmo jeito que a eleição municipal é descolada da nacional, a presidencial também descola, é paixão. Os candidatos atraem essas paixões. No Nordeste, por exemplo, se o candidato não tiver penetração para poder se comunicar, muitas vezes a base não quer nem receber, porque atrapalha. Por isso, foi muito forte por muito tempo, porque os candidatos não queriam levar outros. O Bolsonaro quebrou isso. Hoje, temos a direita no Nordeste.

A avaliação que o senhor faz então é que o resultado foi bom para o governo?
O resultado não altera o governo. Esses partidos de centro estão compondo com o governo, eles precisam mostrar resultado. Eu sempre defendi e continuo defendendo. O Bolsonaro não está virando centrão. Os partidos de centro é que tem que abraçar as bandeiras do Bolsonaro, porque ele foi eleito, ele derrotou a esquerda com isso. Bolsonaro conseguiu, sozinho, com o grupo dele, sem apoio de ninguém, ganhar a eleição com a bandeira conservadores, de valores. Com o centro participando da base, o governo vai pedir que apoie essas bandeiras do presidente. Em 2022, a gente não sabe quem estará junto. A economia vai ditar muita coisa. Se crescer 3%, 4% no ano que vem, será que alguma frente vai ter tempo de criar outro candidato? Será que as pessoas não vão com Bolsonaro? Ou vão migrar para esquerda? Vejo um cenário muito incerto sobre isso.

O fato de o centrão sair mais forte das urnas vai fazer com que cobre um espaço maior do governo, em uma reforma ministerial, mais à frente, para se ver mais bem representado?
Primeiro, o centro se deu bem na eleição, mas o governo avalizou o centro. Começa por aí. Se o centro está compondo a base, foi avalizado pelo governo, que viu que tem 300 parlamentares. Para votar qualquer coisa, precisa do apoio do Congresso. O que precisa é o centro se entender com o governo. Porque, depois de 2018, não vai ter a volta do toma-lá-dá-cá. Isso, mesmo daqui muitos anos, a população não vai aceitar. Isso está precificado. Não acredito que vai ter pedido por ministério. A agenda é outra.

Como o senhor avalia este ano, que está quase acabando e foi muito difícil?
Este ano foi o ano em que o mundo enfrentou o mesmo problema. A gente vai conseguir ver, depois do resultado final, comparar todos os países para ver quem acertou mais, ou errou mais. No começo, ninguém sabia de nada. Era futurologia. No mês de março, o presidente Bolsonaro foi para um caminho diferente dos governadores e dos outros presidentes. Todo mundo achou que ele estava indo para um caminho sem volta. Ele perseverou naquele caminho, disse: ‘Economia e salvar vida. Não é só salvar vida e deixar economia para trás. Temos que tratar as duas da mesma forma’. Todo mundo bateu nele. Fica em casa, economia vê depois. O Brasil, dos maiores países, dos emergentes, vai ter a maior retomada econômica de todos eles. Foi o momento que o presidente tomou a decisão, importante para o país. Porque, se tivéssemos feito um lockdown, como fez a Argentina, poderíamos demorar quatro, cinco, seis anos para recuperar economia. O governo federal agiu em todas as pontas. A única crise que existe no governo é a crise de palavras. Não tem nenhum ponto que desabone o governo. Estamos em 700 dias, não há uma denúncia de corrupção. Na pandemia de covid, não faltou dinheiro para estados e municípios, não faltou dinheiro para as empresas, não faltou para os desempregados. Não faltou para nada. Aí as pessoas batem: ‘o presidente saiu sem máscara, apertou a mão, foi na padaria, disse isso, disse aquilo’. Isso é o que sobra.

O senhor acha que o presidente Bolsonaro é o candidato mais forte para 2022?
Acho que sim. Nem o mais forte, é o natural, colocado. Bolsonaro não foi feito de um dia para o outro. Ele ficou quatro anos fazendo o nome dele. E para fazer um líder, no Brasil, não é rápido. Acho difícil, entrando em 2021, até 2022 surgir um nome para contrapor. Existe briga de direita com esquerda, que vai continuar. O Brasil tem essa rivalidade. Não sei os nomes que virão da esquerda. Mas acho muito difícil o centro fabricar um nome. Veja o Sérgio Moro (ex-juiz da Lava-Jato e ex-ministro da Justiça), por exemplo, jogou fora todo o legado que poderia defender. Se ele combateu as empresas da Lava-Jato e a Odebrecht foi o grande exemplo, ele vai trabalhar para a empresa que tem a Lava-Jato como cliente. Abandonou a vida pública, na minha opinião, abandonou a chance de ser candidato. Tomou uma decisão que foi financeira. No meu ponto de vista, com gravíssimo conflito de interesses, moral e ético. Gravíssimo. O Sérgio Moro juiz teria ficado revoltado com o Sérgio Moro da Odebrecht.

E o João Doria e o Luciano Huck, neste contexto?
O Doria eu vejo com imenso desgaste em São Paulo. O problema do Doria é que as pessoas não aceitam traição. O Brasil admite a traição, mas não perdoa o traidor. O Doria teve traição muito forte contra o Alckmin. O paulista não aceitou. Depois, disse que não ia renunciar, e renunciou. Quase não se elegeu, porque o paulista se sentiu traído. Depois, ele usou o Bolsonaro. Elegeu-se com o BolsoDoria e, seis meses depois, traiu. O maior problema é que são três fatos públicos que ele não tem como ir contra. Veja como ele age na pandemia, vai ao sabor do vento. Primeiro, disse que não ia fechar nada na semana passada. Depois das eleições, decretou de novo o retrocesso para o período amarelo. O Huck eu acho que faz sucesso onde ele está. Está muito bem como apresentador, carreira longa. Não acho que pode migrar de um programa para a Presidência da República. Não quero entrar no mérito, porque acho que as pessoas tem que vir para a política para ajudar, mas é preciso experiência. O Huck está conversando sobre o país, mas não acredito, nem o DEM acredita, se for conversar pessoalmente com a turma.

E o Rodrigo Maia? O senhor falou no nome dele associado à esquerda...
O Rodrigo Maia é um nome forte para o mercado financeiro. Nome que tem uma agenda econômica. Por isso, não pode ser candidato com a esquerda. Vai jogar o legado dele fora. Ele é um candidato liberal na economia. Se for eleito com a agenda da esquerda, vai construir tudo fora. O nome de Rodrigo Maia não é um nome forte de votos. Ele é forte como político do Congresso, player do mercado financeiro, político de peso, que deve ser respeitado, cinco anos presidente da Câmara, mas não é de votos. Ele sabe disso. Não o vejo com perfil para disputar eleição presidencial.

Bolsonaro, então, vai disputar com ele mesmo?
Vai disputar com a esquerda. A esquerda no Brasil é forte. Tem vários candidatos. O Brasil é dividido. Tem Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (Psol), Fernando Haddad (PT), esses candidatos virão. O que eu disse é que não vai surgir um líder de direita. Mas a esquerda vem.



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