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Estado de Minas

Indicado para o Banco Central tem Paulo Guedes como mentor

A escolha de Campos Neto foi divulgada nesta quinta-feira pela equipe de transição de governo e, depois, confirmado pelo BC


postado em 16/11/2018 11:12 / atualizado em 16/11/2018 11:38

(foto: Breno Fortes/EM/D.A Press )
(foto: Breno Fortes/EM/D.A Press )

Com sólida formação e experiência profissional no mercado financeiro, o próximo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, tem carreira proeminente no setor, ainda que não notória. Por isso, houve surpresa entre economistas com a indicação dele para o cargo hoje ocupado por Ilan Goldfajn. Próximo ao superministro da Economia, Paulo Guedes, Campos Neto é tratado por alguns como “um ilustre desconhecido”. A escolha dele foi divulgada ontem pela equipe de transição de governo e, depois, confirmado pelo BC. Atualmente, ele é diretor de Tesouraria do Banco Santander. O próximo na lista de nomeações, segundo Paulo Guedes, será Mansueto Almeida, que continuará à frente da Secretaria do Tesouro Nacional, também sob o guarda-chuva do superministro da Economia.
Campos Neto aceitou o cargo depois de Ilan declinar; Paulo Guedes foi o mentor (foto: Assessoria de Imprensa da Transição/Sérgio Lima/AFP )
Campos Neto aceitou o cargo depois de Ilan declinar; Paulo Guedes foi o mentor (foto: Assessoria de Imprensa da Transição/Sérgio Lima/AFP )

Aos 49 anos, Roberto Campos Neto é visto por muitos analistas como “muito jovem” para assumir um cargo de tamanha responsabilidade. O ex-diretor do BC Carlos Eduardo de Freitas o considera um tanto quanto “sem bagagem”, ainda que tenha uma carreira de destaque no mercado financeiro. “Ele não é propriamente um acadêmico, nem economista de governo ou do BC. É um operador de tesouraria. Não é alguém com nome forte no mercado financeiro e, talvez, não fosse o esperado para o cargo. Ele é próximo ao Paulo Guedes, por isso a escolha. O Roberto Neto não tem a tradição de Ilan Goldfajn, mas espero que seja uma aposta acertada”, afirma. A bolsa brasileira estava fechada ontem por conta do feriado, mas em Nova York o nome foi bem recebido: o índice que reúne todos os papéis de empresas brasileiras subiu 2,33%.

Especialistas acreditam que, embora inusitadas, as indicações de Bolsonaro têm sido condizentes com o discurso da campanha. O cientista político Ivan Ervolino, criador da start-up de monitoramento legislativo SigaLei, explica que a equipe do presidente eleito é, majoritariamente, composta por pessoas novas e talentosas. O mais conhecido é o juiz Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça. “Se pensar friamente, era um juiz de primeira instância”, diz.

Para Ervolino, o movimento mostra que Bolsonaro quer nomes que não estejam atrelados à velha política. “Ele quer fugir do óbvio. Por isso, trouxe figuras que não são tarimbadas, mas podem surpreender. Dá para avaliar de duas formas: ou Bolsonaro quer renovar o jogo, ou escolheu nomes menos proeminentes para que as instituições sucumbam ao controle do governo”, analisa.

Professor de Ciência Política da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Guilherme Silva Prado lembra que nenhum dos escalados até agora pertencia ao “primeiro escalão”, exceto os vindos do Exército. Ainda assim, acredita que “refrigerar o ambiente poderá fazer com que as decisões do presidente eleito tenham mais impacto, principalmente quando divergirem da opinião do petit comité governamental”.

Dessa maneira, acredita, o mercado pode até responder negativamente às movimentações. “Mas ninguém se elege presidente da República sendo pouco estratégico. Ele (Jair Bolsonaro) é um estrategista. Só precisa lembrar que é interessante ter uma equipe de ponta, por exemplo, para facilitar as negociações com o Legislativo. Especialmente diante da aparente dificuldade que se aproxima.”

Linhagem

O próximo presidente do BC descende de uma linhagem de economistas. É neto do ex-ministro e ex-embaixador Roberto Campos, responsável pelo Planejamento no governo Castelo Branco e mais tarde senador. O avô do futuro presidente do BC é considerado um dos maiores influenciadores do pensamento liberal no país. Campos Neto será sabatinado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado e, para ocupar o cargo, também precisará ser aprovado pelo plenário. Na Casa, Neto é visto como alguém com pouca intimidade com o serviço público, pois fez toda a carreira em instituições privadas. Com especialização em Finanças pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles, ele está no Santander há 16 anos. Falta-lhe um doutorado em economia, normalmente ostentado por presidentes do BC. Em nota, o atual presidente do BC, Ilan Goldfajn, que chegou a ser convidado pelo novo governo para permanecer à frente da instituição, informou que deixará o cargo por motivo pessoais e teceu elogios ao substituto. “Profissional experiente e reconhecido, com ampla visão sobre o sistema financeiro e a economia nacional e internacional, Roberto Campos Neto conta com seu apoio e sua confiança no futuro trabalho à frente do BC”, informou a assessoria de Ilan.

“O presidente Goldfajn adotará todas as providências para garantir a melhor transição no comando da autoridade monetária e, atendendo a pedido do novo governo, permanecerá no cargo até que o Senado aprecie o nome de Roberto Campos Neto, nos próximos meses”, completou o documento enviado à imprensa.

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A desconfiança que alguns agentes possam ter do indicado ao comando da autoridade monetária deve ser suprimida logo no início da gestão, avalia o economista Aod Cunha, ex-diretor do JP Morgan e ex-secretário de Fazenda do Rio Grande do Sul. “Substituir o Ilan não seria uma missão fácil para ninguém”, ponderou.

Para ele, Campos Neto tem as qualificações para trabalhar por uma política que garanta maior concorrência no sistema financeiro, bem como para garantir o poder de compra da moeda. “Para isso, contudo, será necessária a aprovação da reforma da Previdência”, alertou.

O presidente do Santander Brasil, Sérgio Rial, elogiou o subordinado. “Roberto Campos Neto é um profissional com sólida formação e profundo conhecimento da área econômica. Desejamos a ele muito êxito no desempenho de sua nova função, tão importante para o desenvolvimento do país”, afirmou, em nota.

Carreira

Na última terça-feira, Roberto Campos Neto esteve no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília, onde está montado o gabinete de transição de governo, e conversou com Paulo Guedes. Na ocasião, foi elogiado por integrantes da equipe de Bolsonaro. Pelo menos cinco nomes estavam cotados para a Presidência do BC, entre eles o do atual diretor de Política Econômica da instituição, Carlos Viana Carvalho. No entanto, Guedes se alinhou mais com a visão de Neto, e deve apresentá-lo ao presidente eleito nos próximos dias. Campos Neto começou a carreira na década de 1990. Trabalhou no Banco Bozano Simonsen de 1996 a 1999, como operador de derivativos de juros e câmbio, operador de dívida externa, operador da área de Bolsa de Valores e, por fim, como executivo. No ano seguinte migrou para o Santander, ocupando o cargo de chefe da área de renda fixa internacional. Ficou na instituição de 2000 a 2003 e, em seguida, foi para a gestora Claritas como gerente de carteiras. Ao voltar ao banco espanhol, em 2005, atuou como operador e chefe do setor de trading. Chegou à diretoria em 2010.

Ao contrário de Campos Neto, Mansueto Almeida tem larga experiência no setor público. Mestre em Economia pela USP, ele ocupou cargos no Ipea e no Ministério da Fazenda. Ocupa o cargo de secretário do Tesouro Nacional desde abril deste ano, por indicação do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles.
 

Análise da notícia

Guedes no comando

» PAULO SILVA PINTO

A escolha de Roberto Campos Neto como presidente do Banco Central (BC) significa que Paulo Guedes estará também no comando da Autoridade Monetária, além de assumir o futuro Ministério da Economia,  megaestrutura a juntar tudo o que hoje está nas pastas da Fazenda, do Planejamento e da Indústria e Comércio.

Pode parecer natural. E já foi no passado, quando a Autoridade Monetária era subordinada à Fazenda. Desde o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, porém, seu presidente tem status de ministro. Mais: há um projeto no Congresso, que o futuro governo diz apoiar, estabelecendo autonomia para os dirigintes do BC, com mandatos fixos e não coincidentes com o do presidente da República.

Se a autonomia vingar, Campos Neto seria o indicado para o cargo? Há dúvidas entre analistas. O currículo dele é excelente para um diretor do BC, mas incompleto para a posição máxima da instituição. Não basta — ou sequer é necessário — ser um bom operador de mercado. É preciso entender cada variável da macroeconomia, incluindo todas as suas complexidades, com ênfase para a política fiscal. Além, disso, deve-se usar a comunicação de modo preciso para coordenar as expectativas dos agentes econômicos. Certamente Campos Neto poderá mostrar plena capacidade para essas funções. Até lá, espera-se que prove.

Entre as certezas está a de que o todo poderoso Guedes vai imprimir sua marca no BC. Provavelmente buscará aumentar a competição entre bancos, talvez facilitando a entrada de novos competidores estrangeiros. Mas, de volta ao campo das dúvidas, ele terá de mostrar que a capacidade de atuar em tantas frentes está à altura de suas ambições.

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