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Estado de Minas

Com a melhoria da economia, Brasil começa a recuperar a credibilidade no exterior

Reforma da Previdência é vista como mais um passo para retomar a confiança externa


postado em 25/12/2017 07:00 / atualizado em 25/12/2017 07:59

Brasília – Um ano atrás, a Queen’s University Belfast, uma das mais respeitadas instituições do Reino Unido, realizava o seminário Brazil in the spotlight (Brasil nos holofotes). A análise falava mais sobre as crises do que as vitórias do país. Era o fim do “Brasil que deu certo”, diziam especialistas. Doze meses depois dessa discussão, o cenário é outro: a diplomacia avança, nossa economia está se recuperando, os juros baixaram e os investimentos cresceram; a possibilidade de aprovar a reforma da Previdência – vitória máxima para o atual governo – serviria para evitar um caos financeiro a médio prazo. Dessa forma, seria um bom lugar para depositar Até muito recentemente, o Brasil era visto no mundo como um país emergente, como parte dos Brics – grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – e um dos criadores do G20 – de ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia. Estava pronto para deslanchar. Era a fase áurea do governo Lula (2003 a 2010), já qualificada por economistas como “uma grande maré de sorte”. Hoje, há um certo choque internacional com a crise vivida pelo país, mas estamos em processo de recuperação do protagonismo de outrora com atitudes de impacto internacional, como explica o ministro Benoni Belli, secretário de Planejamento Diplomático do Ministério das Relações Exteriores (MRE).

“O Brasil é um ator global. É imprescindível na busca por soluções de grandes problemas internacionais que a humanidade enfrenta. Podemos falar da mudança do clima, da paz e da segurança, do desenvolvimento sustentável... Todos os temas que hoje ocupam a cena internacional. Temos voz, nossa opinião é sempre muito construtiva e muito respeitada”, afirmou. O ministro lembra, por exemplo, da força-tarefa para a estabilização do Haiti criada em 2004, com a participação de diversos países e comandada pelo Brasil até o fim, em 2017, e do reconhecimento desse tipo de atitude no exterior.

“Lideramos essa missão e propusemos mudanças na área que envolve o clima sugerindo uma plataforma de biofuturo. Temos grande conjunto de atividades de cooperação técnica premiadas internacionalmente e que ajudam a fazer a diferença no desenvolvimento e no bem-estar da população”, comentou. Os próximos passos são, segundo ele, “reativar o Mercosul, removendo barreiras entre seus membros e dinamizando a aproximação com outros blocos e outras regiões”.

Mas, “em todos esses âmbitos, o Brasil é uma força, uma voz, a favor do multilateralismo, das soluções pacíficas das controvérsias, uma ordem internacional baseada, sobretudo, no direito, e não na força. O Brasil é um país que fornece uma contribuição concreta para a superação do déficit de diplomacia no mundo, uma realidade apontada pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU)”, concluiu o ministro Benoni Belli.

Um dos motivos que contribuem para o bom trabalho da diplomacia brasileira foi a mudança de governo, o que “tranquilizou” a sociedade dentro e fora das nossas fronteiras, conforme analisa o cientista político Antônio Carlos Mendes Rafain, especialista em economia política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). “No fim do governo Dilma (2011-2016), com a sociedade em polvorosa, fazendo manifestações diárias e vaiando tanto a presidente quanto a figura presidencial, ficamos muito perto da Venezuela. Falava-se que teríamos um retrocesso de 20 anos.”

O medo era que se criasse uma situação caótica capaz de reviver os tempos de inflação desenfreada, do congelamento das poupanças e dos racionamentos. Com a mudança de governo após o impeachment de Dilma Rousseff (PT), explica o professor, “não dá para dizer que tudo se transformou num passe de mágica, mas conseguimos esse voo de galinha na economia e a política brasileira conseguiu assentar. E isso, claro, tem reflexo no exterior. As pessoas estão percebendo que o Brasil voltou para o caminho certo”, analisa, referindo-se à gestão de Michel Temer.

O exemplo da Lava-Jato

Com três anos e meio de duração, a Operação Lava-Jato foi a “má notícia” mais espalhada sobre o Brasil mundo afora. Mas acredite: o saldo disso no exterior é positivo. As investigações que revelaram um roubo de R$ 6,4 bilhões com fraudes, lavagem de dinheiro, pagamento de propina e centenas de outros crimes despertaram a admiração dos demais países, que veem com bons olhos o enfrentamento à corrupção. “Ao redor do mundo, as pessoas concordam que a corrupção é algo mundial e muito difícil de combater. A Lava-Jato acabou saindo como um sinal positivo”, opinou a coordenadora do curso de relações internacionais do UniCeub, Renata de Melo Rosa.

Melhora nas finanças públicas

Levantamento do Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, mostra que as projeções para a economia do Brasil neste e no próximo ano melhoraram. Para 2017, a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) passou de 0,3% para 0,7% a 1% e, para 2018, de 1,3% para 1,5%. “Isso é extremamente importante, ainda mais porque a gente tem cerca de 70% do nosso PIB comprometido. Acredito que o crescimento mostra uma eficaz mudança nas políticas públicas, o que possibilitou muita coisa. Hoje, temos o controle da inflação e a melhora da eficiência nas finanças públicas. O resultado será uma aproximação dos demais países emergentes e também daqueles grandões”, disse Lívio Ribeiro, pesquisador de economia aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV).

“No triênio de 2014 a 2016, a redução da riqueza no país aumentou a inflação. Tivemos uma piora geral do quadro econômico, piora da dívida, déficit fiscal nas alturas, um panorama desorganizado. Isso começou a ser revertido com o governo atual, mas é importante que a gente lembre o que passou para tentar não repetir mais os erros já cometidos. O Brasil era visto como um país que estava numa direção boa e foi para uma direção ruim, agora, precisamos mostrar que estamos em uma direção boa novamente ou, pelo menos, buscando esse caminho”, explica o pesquisador.

Lívio garante que, 15 anos atrás, quando o Brasil atingiu o auge de atratividade para a economia internacional e, de repente, entrou em uma crise severa, as coisas se resolveram rapidamente. “Levamos um tombo, mas voltamos rápido. Com um crescimento muito forte, faltou alguma coisa, talvez atenção, e entramos no processo gradual de desaceleração econômica. Já passamos por isso, mas parece que agora vai.”

Impulso Ainda na seara internacional, o pesquisador diz que “existem coisas que o Brasil não apita, mas consegue participar”. “É uma forma de aproveitar certas mudanças que acontecem no mundo. Houve todo um movimento novo no MRE, por exemplo, para avançar em um bom relacionamento entre o Brasil e a União Europeia. É uma discussão muito importante para colocar o país nos trilhos. Estamos associados a um novo impulso de agenda internacional, o setor automotivo está deslanchando, fizemos acordos bilaterais, facilitamos exportações. Estamos ajustando e resolvendo”, completou Lívio.

Outra política pública necessária que é impopular, a privatização é elogiada pelo professor de Ciências Econômicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Ubiratan Jorge Iorio. “Se é preciso cortar despesas do governo, eu vejo na privatização das empresas uma saída razoável. E o mercado reagiu bem. Isso explica a recuperação da política e a diminuição dos juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Eu acho que a gente precisa entender se essa aparente recuperação que está acontecendo vai continuar.” (BB)


A importância de mudar as aposentadorias

Consenso entre os especialistas, a reforma da Previdência – que ficou para 2018 – pode ser o empurrão que falta para que a nova propaganda do governo federal (“Agora é avançar”) faça realmente sentido. “Mesmo remendada, a reforma precisa ir adiante. É uma coisa que todos os países desenvolvidos já fizeram desde os anos de 1990. A população vive mais, envelhece mais, o que é muito bom, e é justamente por isso que precisamos pagar mais por esse privilégio. Ou você contribui proporcionalmente ou acabará se tornando um peso morto para o Estado, que não pode mais sustentar esse tipo de atitude”, afirmou a socióloga Hellen Castro, doutora em análise de dados financeiros pela Western New England University de Massachusetts, nos Estados Unidos.

“Essa lenga-lenga para aprovar uma coisa importante como a Previdência,  causada por uma queda de braço entre parlamentares e o governo, desprestigia qualquer administração. Se Michel Temer bater o pé e conseguir aprovar essa iniciativa, que foi ideia dele, consegue facilmente demonstrar para os demais países um apoio e uma unidade aqui no Brasil. Isso é algo, por exemplo, que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) percebeu. Viu que não dava para passar o projeto e desistiu, até que o assunto foi esquecido. Hoje é diferente. O tema está aí e, se o presidente não conseguir aprovar, isso respinga tanto na política quanto na economia”, emendou Hellen. (BB)

 

 

 


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