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Estado de Minas PENSAR

Fotógrafa Rachel Williams detalha artimanhas da falsa herdeira Anna Sorokin

Em "Inventando Anna", a autora conta como foi enganada por uma jovem que abalou a alta sociedade de Nova York


11/11/2022 04:00 - atualizado 11/12/2022 14:50

Anna Sorokin
A editora de fotografia americana Rachel DeLoache Williams revela detalhes de sua amizade com a russa Anna Sorokin (foto: TIMOTHY A. CLARY AFP )

 

Passar-se por uma herdeira alemã com fortuna estimada em US$ 60 milhões para frequentar a alta sociedade de Nova York. Enganar hotéis de luxo, bancos e até mesmo amigos. Ostentar produtos de grife, saborear vinhos raros, viajar em jatos particulares. Por fim, ser rica, influente e famosa.

 

Esse foi o plano da russa Anna Sorokin, de 31 anos, condenada, em 2019, nos Estados Unidos, a uma pena entre quatro e 12 anos de prisão por aplicar golpes usando o falso sobrenome “Delvey” e causar prejuízo de aproximadamente US$ 275 mil (cerca de RS$ 1,4 milhão).

 

A história impressionante da “rainha dos caprichos e mistérios”, como é descrita por Rachel DeLoache Williams, uma de suas vítimas e autora do livro “Inventando Anna”, chega ao Brasil pela Editora Rua do Sabão.

 

A golpista também já ganhou destaque na Netflix com uma minissérie que leva o nome do livro. A descrição do serviço de streaming para os nove episódios, não recomendados para menores de 16 anos, é a seguinte:

 

“Herdeira alemã. Celebridade do Instagram. Aspirante a magnata. Trapaceira descarada. Quem é a verdadeira Anna Delvey? Uma repórter investiga uma trama de mentiras, oportunismo e ganância na elite de Nova York. Baseada em história real”.

 

Mas, mesmo sendo criada pela roteirista e cineasta Shonda Rhimes, produtora executiva do drama médico “Grey’s anatomy”, no ar desde 2005, além de ter trabalhado com o suspense político “Scandal” (2012-2018) e o drama jurídico “How to get away with murder” (2014-2020), a minissérie não escapa das polêmicas.

 

Nas telas, a história é contada a partir da perspectiva da jornalista Vivian Kent (interpretada por Anna Chlumsky), que, após um fracasso profissional, enxerga na história de Anna Delvey (vivida por Julia Garner) a possibilidade de se reerguer na carreira.

 

Para isso, ela mergulha em uma profunda investigação sobre a misteriosa jovem que começa a ganhar destaque em tabloides de fofoca por seus trambiques entre a high society nova-iorquina.

 

Rachel DeLoache Williams trabalhou como editora de fotografia na revista Vanity Fair, fez amizade com Anna e acabou sendo alvo da golpista.

 

Ela processou a Netflix por difamação e violação de privacidade, alegando que a empresa tomou liberdades criativas falsas ao retratar sua personagem na série (representada por Katie Lowes).

 

Já no livro, Rachel Williams narra o início, ápice e término de sua amizade com a vigarista e como foi enganada.

 

Ela lembra que o sonho de Anna era abrir, em um dos endereços mais famosos de Nova York, na esquina da Park Avenue com a East 22nd Street, a Fundação Anna Delvey, um centro de artes visuais que abrangeria espaços para galerias de artes e estúdios, restaurantes, lounges, bares, saguões VIP e clube para sócios.

 

Para isso, ela falsificava documentos e se encontrava frequentemente com advogados e banqueiros para tratar de empréstimos, apresentando como garantia um suposto fundo fiduciário de US$ 60 milhões, que é uma forma de organizar, em vida, a transição do patrimônio familiar.

 

Em depoimento franco e detalhado, Rachel relembra o dia em que conheceu Anna e como as duas foram se aproximando pouco a pouco. “Anna me desafiava a ser menos certinha, crítica, e mais leve e divertida.

 

Ao mesmo tempo, me convidava para o mundo dela de hotéis, restaurantes e atividades excêntricas. Eu era tanto a sua plateia quanto a sua companhia. E parte de mim queria ser um pouco mais como ela”, relata.

 

As duas estiveram frente a frente pela primeira vez em fevereiro de 2016, quando, após um jantar com amigas, Rachel participou de uma festa e foi apresentada a Anna, uma jovem de “rosto angelical, enormes olhos azuis e lábios grossos”.

 

Naquela época, destaca a autora, o Instagram de Anna tinha 40 mil seguidores e era recheado de fotos de arte, viagens e selfies, o que dava a entender que se tratava mesmo de uma socialite.

 

Tempos depois, após ser enganada, Rachel Williams revisitou o perfil de Anna Delvey e algo lhe chamou a atenção: a primeira foto, postada em 2013, era de um tabuleiro de xadrez preto e branco com peças douradas e prateadas. “O seu jogo tinha acabado de começar”, conclui.

 

À época, Anna, que é fã do rapper Eminem, tinha a música “Lose yourself’, do filme “Rua das Ilusões” (2002), como um hino. A letra começa assim: “Se você tivesse uma chance / Ou uma oportunidade / Para ter tudo o que você sempre quis / Você pegaria ou deixaria escapar?”.

 

Coincidência ou não, a jovem ambiciosa, que tinha “muito estilo e pouca ética”, não perdia oportunidades de manipular pessoas e situações para conquistar o que desejava.

 

As amigas passaram a se encontrar com frequência em bares, restaurantes, festas e salões de beleza. Normalmente, Anna fazia questão de assumir as despesas e, por isso, Rachel Williams chegou a receber críticas quando o caso veio à tona:

 

“Ela também não teria se beneficiado dos crimes cometidos pela jovem russa?”. Daí a necessidade de escrever o livro e contar sua versão do caso. Com os laços fortalecidos, a dupla fez uma viagem para o Marrocos. 

 

O país, banhado pelo Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo, foi onde Rachel afundou em mágoas e decepção. Isso porque ela assumiu uma dívida de US$ 62 mil  quando os cartões de Anna misteriosamente pararam de funcionar, mas acreditava que seria reembolsada pela colega rica assim que o problema com o banco fosse resolvido.

 

Tudo levava a crer que Anna era uma milionária: as hospedagens em lugares caríssimos, as peças de roupa que usava, os lugares que frequentava, as pessoas que conhecia. Mas, pouco a pouco, a angústia da editora da Vanity Fair foi crescendo, porque ela não recebia seu dinheiro de volta.

 

Ao longo de vários meses, Anna Delvey lhe dava respostas desencontradas, prazos que nunca foram cumpridos e afirmações vagas como: “Estou aguardando uma resposta do banco”, “Eu já liguei para eles milhões de vezes” ou “Eu vou resolver as coisas”.

 

Sem poder pagar o aluguel, com uma pilha de contas e vendo os juros se transformando em uma bola de neve, a vida de Rachel entrou em parafuso. Não entendia como tinha sido colocada em uma situação como aquela.

 

Rachel DeLoache Williams
A editora de fotografia americana Rachel DeLoache Williams revela detalhes de sua amizade com a russa Anna Sorokin (foto: Nick Rogers/DIVULGAÇÃO)

 

Levou muito tempo até que Rachel resolvesse investigar Anna. E isso só foi possível graças a um artigo publicado no New York Post que chamava a falsa herdeira de “aspirante a socialite”, e de outro, do Daily News, que contava como Anna havia roubado hotéis após semanas de hospedagem, além de tentativa de fuga de um restaurante sem quitar a conta do almoço. “Na minha cabeça, Anna havia se tornado uma força externa, não mais uma jovem, ela era mais um espectro do que uma pessoa.

 

E se estivéssemos em um filme de terror, ela seria o espírito do mal que aparecia no meu quarto”, afirma. Rachel procurou ajuda, mas deu de cara na porta em várias oportunidades. Chegou a ser ironizada por policiais, até que, finalmente, o caso chegou à Promotoria de Manhattan.

 

Psicologicamente abalada e vivendo um momento extremamente delicado financeiramente, a escritora encontrou forças para auxiliar os investigadores. Contou sua história, entregou mensagens, colheu informações e participou ativamente de todo o processo até a prisão da golpista.

 

Em fevereiro de 2021, Anna foi solta por bom comportamento, mas um mês depois foi detida novamente pela imigração norte-americana porque seu visto havia expirado.

 

Em outubro de 2022, um juiz ordenou a libertação condicional de Sorokin, que segue em prisão domiciliar, sendo monitorada eletronicamente. Ela está proibida de usar as redes sociais, uma realidade bem distante dos holofotes que sempre buscou. Segundo a imprensa local, a fiança custou US$ 10 mil.

 

Rachel Williams processou a Netflix por danos à sua reputação e alega que Anna se beneficiou do dinheiro que recebeu do serviço de streaming, cerca de US$ 320 mil, para sair da cadeia.

 

Mas a escritora também é alvo de questionamentos por ter assinado um contrato com a HBO para criar uma série baseada em seu livro, eleito pela revista Times um dos melhores do ano.

 

De toda forma, a história da impostora russa, filha de um caminhoneiro e de uma lojista, parece estar longe do fim.

 

Em seu último plano antes de ser desmascarada, ela estava prestes a conseguir um empréstimo de US$ 22 milhões. Qual será a próxima cartada de Anna Sorokin? 

 

capa
 

 

“Inventando Anna: A história real de uma falsa herdeira”

 

  • De Rachel DeLoache Williams
  • Editora Rua do Sabão
  • Tradução: Camila Javanauskas
  • 374 páginas
  • R$ 55 (livro)
  • R$ 13,41 (e-book) 

 


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