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Tabla: Milton Hatoum apresenta os destaques da editora

Catálogo conta com obras de autores do Oriente Médio, do Norte da África e da Turquia; em entrevista, editora detalha processos de curadoria e tradução


01/07/2022 04:00 - atualizado 30/06/2022 23:19

O escritor Milton Hatoum
(foto: Renato Parada/Divulgacao)

Jorge Luis Borges, leitor fervoroso do “Livro das Mil e uma Noites” e de outras narrativas de línguas árabe, persa e hebraica, soube valorizar em seus ensaios e ficções o que Goethe, em 1827, chamou “Literatura do mundo”. O grande escritor alemão considerava a poesia um bem comum à humanidade e sempre mostrou interesse pelas culturas da Índia, do Extremo-Oriente e do Oriente-Médio. Leu e divulgou o “Corão” e a poesia clássica árabe e persa. Esses textos foram decisivos para a escrita do livro “O divã Ocidental-Oriental”, um dos momentos mais luminosos da trajetória poética de Goethe.    

Por várias razões – analisadas no ensaio “Cultura e imperialismo”, de Edward Said – as literaturas do Oriente Médio, da África e da Ásia permaneceram muito tempo à margem do Ocidente. No entanto, desde a segunda metade do século 20, o interesse pela literatura daquelas regiões tem aumentado nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Nesse sentido, livros clássicos e contemporâneos têm sido traduzidos ou ganharam novas traduções em dezenas de línguas, atraindo um novo público leitor e uma boa recepção crítica. 

Leia: Palestinos e libaneses em defesa do direito à existência

A novidade da Tabla é o fato de ser uma editora focada basicamente na literatura do Oriente Médio e do Norte da África. Trata-se de um projeto editorial bem elaborado e amadurecido, que lança um olhar para a diversidade de uma literatura até então pouco conhecida no Brasil. As traduções, a apresentação, o projeto gráfico e a qualidade literária e editorial dos livros selecionados pela Tabla são notáveis. Um dos pontos altos da editora carioca é a obra do palestino Mahmud Darwich, um dos maiores poetas contemporâneos. Entre outros livros de ficção e poesia, destaco dois romances turcos: “Uma mulher estranha”, de Leylâ Erbil, e “Istambul, Istambul”, de Burhan Sönmez, e ainda os romances da libanesa Hoda Barakat: “O arador das águas” e “Correio noturno”. 

Talvez alguns leitores busquem traços de exotismo nesses livros, como ocorreu (e ainda ocorre) com o realismo mágico de certas ficções latino-americanas. Mas o essencial nessas obras é a complexidade das relações humanas: os dramas e tragédias de personagens num determinado contexto histórico. Há, por certo, a magia da escrita, a sedução da linguagem de cada escritor(a). Essa magia vem também dos tradutores, que nos permitem ler com prazer e vivo interesse os livros da Tabla. 

* Milton Hatoum é autor de livros como “Relato de um certo oriente” e “Dois irmãos”  

Entrevista

Mapa incluído na edição de 'Samarcanda'
Mapa incluído na edição de "Samarcanda", do libanês Amin Maalouf
Laura di Pietro (editora da Tabla)

“Nosso propósito é ressoar as culturas do Oriente Médio, Turquia e Norte da África, de forma autêntica, sem estereótipos”

Como surgiu a Tabla?
O selo foi fundado em 2016, mas, a partir daí, foi se transformando num projeto. As primeiras publicações do árabe aconteceram em 2020. Tabla, em árabe, significa “Tambor”. Nosso propósito é ressoar as culturas do Oriente Médio, Turquia e Norte da África, de forma autêntica, sem estereótipos, por meio da literatura. É um projeto coletivo, em permanente construção. Queríamos traduzir das línguas originárias.

Temos um grupo de tradutores muito qualificado e estamos também com autores brasileiros que trabalham com as culturas do Oriente Médio, pois acho que há uma defasagem enorme na tradução dessa literatura para o português. O tradutor é parte desse projeto, que foi amadurecido por mais de dez anos. Além do árabe e do turco, também vamos lançar o persa Hafez de Shiraz (nascido entre 1310 e1337), pois agora estamos com um tradutor de poesia do persa, Nicolas Thiele Voss, a começar pela poesia. 

O Brasil tem a maior comunidade libanesa e síria do mundo, que chegou sobretudo ao final do século 19 e, mais recentemente, também em decorrência da Guerra da Síria. Como essa comunidade está recebendo a proposta da Tabla?
Geralmente quando fazem as estimativas no Brasil, mencionam haver 14 milhões de árabes, no conjunto entre cristãos, muçulmanos e drusos. As primeiras ondas migratórias tiveram o apagamento da língua. As primeiras migrações, a questão da ascendência, talvez pelo apagamento da língua, essa identidade talvez tenha ficado como algo muito remoto. Já a gastronomia, a comida libanesa, esta sim, segue ao longo do tempo como uma expressão cultural e de identidade fortes.

Mas já as últimas ondas de migração, talvez por ser mais predominantemente muçulmana, talvez por causa do “Alcorão”, conservam mais a língua. Mas o que estamos vendo é uma resposta muito bacana, as gerações de famílias migrantes estão despertando para essas raízes, saindo muito dessa narrativa mainstream das questões que afetam o Oriente Médio. A literatura abre uma porta, ela pode ampliar o interesse por esta região, por seus problemas, sua história e pela cultura. 

Como está a procura pelos livros da Tabla?
Temos a resposta dos descendentes muito positiva, do mundo acadêmico – departamentos de História, de Relações Internacionais, em que há um debate bastante intenso sobre as questões atuais – interessados em se aprofundar e conhecer a literatura desses países. Achei muito instigante esse desejo de articular esse debate com a literatura. E temos um canal no Youtube em que promovemos esse diálogo, pois o livro, a literatura, são um veículo para abordarmos várias questões.

Temos parcerias com professores de história do mundo árabe e queremos abrir mais, também geograficamente, publicamos, por exemplo, Yassin Adnan, de Safi, Marrocos, que cresceu em Marraquexe, onde vive até hoje. Pensando em números, as nossas tiragens são pequenas, para o mercado mil, dois mil exemplares. Mas estamos tendo uma resposta grande de clubes de leitura, as vendas são muito importantes em feiras. Fazemos muito malabarismos, disputamos editais governamentais, vendemos, mas é uma luta constante.



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