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Estado de Minas

Livro reúne a produção poética de Roberto Bolaño

'A Universidade Desconhecida' compila os versos livres do autor chileno, aclamado por livros como os romances "Os detetives selvagens" e "2666"


27/08/2021 04:00 - atualizado 27/08/2021 09:33

Gustavo Silveira Ribeiro *
Especial para o EM
Roberto Bolaño (1953-2003): poesia, mesmo imersa em dor e melancolia, se opõe ao horror por meio do combate político, da vitalidade da juventude e do sexo
Roberto Bolaño (1953-2003): poesia, mesmo imersa em dor e melancolia, se opõe ao horror por meio do combate político, da vitalidade da juventude e do sexo

Recém-publicado pela Companhia das Letras, “A universidade desconhecida” reúne a vasta produção poética do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003), um dos nomes de referência da literatura ocidental neste novo século. Autor de clássicos contemporâneos como “A literatura nazista na América” e “Os detetives selvagens”, além do romance enciclopédico “2666”, Bolaño é admirado pela estrutura engenhosa de suas narrativas, que desdobram histórias dentro de histórias, além da capacidade de inventar campos literários inteiros, nos quais a presença do Mal não se separa da criação poética. Quase todos os seus principais títulos já foram publicados no Brasil. Faltava a poesia, lacuna que o atual lançamento, em edição bilíngue, vem preencher.

A tradução, inventiva e atenta à intensa variação de registros do original, é da poeta Josely Vianna Baptista. “A universidade desconhecida” é um livro multifacetado e contraditório, cuja complexidade não se deixa apreender de modo rápido. Para adentrá-lo, será preciso abandonar o que sabe, ou julga saber, sobre o restante da obra de Bolaño. Os poemas vêm e colocam novas perguntas. O próprio entendimento sobre o que quer que seja a poesia precisa ser relativizado, assim como se faz necessário descrer, pelo menos temporariamente, de termos como “latino-americano” ou “chileno”. Categorias amplas e estanques mais atrapalham do que esclarecem. 

O conjunto dos poemas se impõe como “uma longa e lenta universidade”, espaço de busca e de frustração. “La universidad desconocida”, como o título original indica, é aquela que não tem endereço ou currículo. A que se apresenta incerta e inesperada: onde se percebe que é “melhor aprender a ler que aprender a morrer”, decifrando a cada passo o chão acidentado. É a educação múltipla e ininterrupta dos pobres e dos poetas, que se apresenta onde e quando é possível. O tempo todo, em todo lugar. 

Uma descrição rápida do conjunto reunido em “A Universidade desconhecida”: são poemas de diferentes métricas e acentos, poemas em prosa, textos que vão da concisão lírica à amplitude da poesia especulativa. Além disso, trechos francamente inclassificáveis, fragmentos de prosa experimental e de narrativas que ora lembram um diário, ora as anotações para um relato futuro. As três partes do livro são muito diferentes entre si, arranjadas a partir de coleções heterogêneas de textos do manuscrito datado pelo autor em 1993, 10 anos antes de sua morte, por insuficiência hepática. “O manuscrito definitivo para a edição atual se encontrava em seus arquivos, classificado em diferentes pastas, datilografado em máquina de escrever mecânica, com correções a mão de Roberto, um índice e uma nota para a sua edição”, explica a organizadora Carolina López, lembrando uma característica do escritor: “Roberto escrevia toda a sua poesia a mão, geralmente em cadernos e cadernetas.”   

“Laboratório de escrita”

A poeta e editora Marília Garcia, em depoimento na quarta capa, fala em “laboratório de escrita”. É uma boa ideia se se considerar que não há um elemento depurado no fim do caminho. A formação do romancista Bolaño, como parte da crítica apontou, não pode ser o horizonte de compreensão desses poemas. O seu laboratório não quer refinar, mas experimentar, colocar à prova todas as possibilidades expressivas, torcer a linguagem e os gêneros, moldá-los com as mãos, enfim. É um dos sentidos da aprendizagem que se apresentam no livro: a poesia como experiência contínua, busca que não se esgota senão em novo verso, em novas imagens e vozes. Ou que não se confina na beleza duradoura, admitindo também o informe e o inacabado. Muito da irregularidade que marca o livro vem daí. Trata-se de uma poesia em busca de mundo – o que compreende também a busca por si, pela forma errática de cada acontecimento, por mais duro ou doce que seja: “A violência é como a poesia, não se corrige/Você não pode mudar a viagem de uma navalha/nem a imagem do entardecer imperfeito para sempre”.

A ideia da poesia como experiência e como experimentação permanente guarda um sentido político e ético. Ética e política são questões decisivas para Bolaño, autor que pensou em sua poesia (também nos romances e contos) sobre a coragem e a violência. É preciso lançar-se ao que não se conhece, é o que tantas vezes esses poemas vão dizer: à aventura, às viagens – de sonho ou pesadelo – rumo ao norte, ao exílio. Daí porque os povoam tantos trotamundos: trabalhadores temporários, andarilhos, jovens sem destino, apátridas, mas também trovadores provençais, figuras com as quais o poeta se identifica. Como muitos dos contemporâneos de Bolaño, os trovadores medievais vagavam de castelo em castelo, de burgo em burgo, cantando ou guerreando. Iam em busca de seu sustento, havendo ainda “nos seus bandos ânimo para/renovar a lírica” da Europa. 

A mistura entre o autor e o produtor, o poeta e o trabalhador, será uma das marcas da poesia de “A universidade desconhecida”. Crítica, frequentemente negativa, essa poesia se funda na penúria material e faz dela, a pobreza, um elemento constitutivo mais que um tema. A atitude vanguardista que assume o poeta diante da linguagem se materializa em muitos momentos como experiência antipoética, desconfiada da grandiloquência e da unidade compositiva. Em aceno a Nicanor Parra, Bolaño trabalha a partir da ironia e da aspereza – ainda que se abra também, em outros poemas, ao lirismo erótico e à memória.

A violência, por sua vez, está em todos os lados. A relação com a escrita é marcada desde o início por ela: “Escrevendo poesia no país dos imbecis. /Escrevendo com meu filho nos joelhos./ Escrevendo até que a noite caia/com um estrondo de mil demônios./ Os demônios que hão de levar-me ao inferno,/mas escrevendo.” O sistema literário, com suas recusas e barreiras, reproduz a competição incessante e a lógica excludente do capital. A exploração do trabalho migrante, a disparidade entre as economias centrais e as periferias do mundo, em tudo isso está a violência que inunda a poesia de “A universidade desconhecida”. 

O crime e os detetives são imagens frequentes, bem como a morte, pressentida e repelida de inúmeras formas. Bolaño recusa a lição estoica do “aprender a morrer”. Mesmo imersa em dor e melancolia, sua poesia negocia com o horror ao opor a ele o combate político, a vitalidade da juventude e do sexo. O aprendizado fundamental desse livro, o sentido da formação que dele emana, parece ser, de fato, outro. “Minha vida nos tubos de sobrevivência” é o título de uma das suas últimas seções. Resistir, apesar da doença e da miséria, do exílio e do fracasso, é a saída que se coloca: “Do perdido, do irremediavelmente perdido só quero recuperar a disponibilidade cotidiana de minha escrita”. 

O sentido da abertura e da continuidade que essa imagem sugere vai se confirmar, de modo comovente, nos poemas finais do livro, dedicados ao filho Lautaro, um deles com “um dos poucos conselhos que seu pai pode lhe dar”. Nesse poema, o autor recomenda a Lautaro a leitura dos “velhos poetas, nômades abertos de cima a baixo e oferecidos/ao Nada (mas eles não vivem no Nada e sim nos Sonhos”, vozes que pouco podem fazer senão ensinar, num relance, a sorte da sobrevivência). E, no último poema, ele pede aos livros que deixará para a biblioteca de Lautaro: “Resistam, queridos livrinhos/ Atravessem os dias como cavaleiros medievais/ E cuidem de meu filho/ Nos anos vindouros.” 

* Professor da Faculdade de Letras da UFMG, Gustavo Silveira Ribeiro é o organizador (com Antonio Marcos Pereira) do livro ‘‘Toda a orfandade do mundo - escritos sobre Roberto Bolaño’’ (Relicário, 2016)

[os poemas selecionados]
“A luz”

Luz que vi nos amanheceres da Cidade do México,
Na Avenida Revolución ou na rua do Niño Perdido,
Maldita luz que machucava as pálpebras e fazia você
Chorar e se esconder num daqueles ônibus
Enlouquecidos, aqueles micro-ônibus que faziam você rodar
Em círculos pelos subúrbios da cidade escura.
Luz que vi como uma só adaga levitando
No altar dos sacrifícios da Cidade do México, o ar
Cantado pelo dr. Alt, o ar imundo que
Tentou capturar Mario Santiago. Ah, a maldita
Luz. Como se transasse consigo mesma. Como se
Chupasse sua própria vulva. E eu, espectador
Insólito, não sabia fazer nada além de rir
Como um detetive adolescente perdido nas ruas
Do México. Luz que avançava da noite para o dia
Como uma girafa. Luz da orfandade encontrada
Na vazia e improvável imensidão das coisas.

-

Idade Média das cabeleiras que o vento esquiva

Enquanto houver vento você escreverá    O vento
como matemática exata    Como o olho com a 
propriedade da unha    Enquanto houver vento você escreverá
suas histórias para ela    Medindo espessura comprimento
velocidade    Dizendo ou ouvido de qualquer desconhecido
que hoje à noite o vento sopra do Leste
Um fulgor de montarias e trovadores às margens
da autoestrada    Que seguram e bordam
as outras palavras do vento


“A Universidade Desconhecida”
Roberto Bolaño
Tradução de Josely Vianna Baptista
Companhia das Letras
829 páginas
R$ 99,90 e-book: R$ 42,90


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