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Estado de Minas LITERATURA

Virginia Woolf: leia entrevista com editora brasileira de ensaios e diários

Em entrevista ao Pensar, a editora Simone Paulino explica o que a levou a lançar no brasil os ensaios e os diários de Virginia Woolf


13/08/2021 06:00 - atualizado 13/08/2021 07:38

Obra de Virginia Woolf é plural e diversa, há muita coisa que não está traduzida, afirma editora(foto: Harvard Theater Collection)
Obra de Virginia Woolf é plural e diversa, há muita coisa que não está traduzida, afirma editora (foto: Harvard Theater Collection)
Como foi a decisão de retomar Virginia Woolf neste momento, com a publicação em 2020 de “Um esboço do passado” e agora, em 2021, “Diários (1915-1918)”, o primeiro de cinco volumes?

Virginia Woolf é uma referência incontornável. Por volta dos anos 2000, li pela primeira vez um livro dela. Comecei a ter encantamento. Quando fiz mestrado em literatura na USP, conheci a Ana Carolina Mesquita, que estudava Virginia Woolf. No doutorado dela, Carolina foi para Nova York, onde estavam os diários originais. Toda essa pesquisa dela é resultado de um trabalho de nove anos. Há dois anos montamos um grupo e surgiu a ideia de fazer uma nova edição dos diários completos.

Mas neste meio tempo veio a pandemia. E eu comecei a chamar esse de “Projeto Dalloway”. A Carolina tinha grande apreço por esse texto que eu não conhecia que é “A sketch of the past”, escrito entre 15 de maio de 1939 e 15 de novembro de 1940, que nunca havia sido publicado no Brasil. Foi basicamente o último texto que ela escreveu em vida. Então decidimos começar do fim, inaugurando o projeto Dalloway com a publicação de “Um esboço do passado”, o que aconteceu em início de 2020, quando anunciamos o projeto todo.

A Editora Nós passou a comemorar, em junho de 2020, o Dalloway Day, data em que em algumas cidades do mundo se debate a obra de Virginia Woolf. Como está sendo a experiência no Brasil?

Em princípio tínhamos a ideia de que Virginia Woolf seria uma autora de nicho ainda, ou seja, não é todo mundo que lê. Fizemos pela primeira vez no Brasil, o Dalloway Day em 2020, quando lançamos “Um esboço do passado”e foi um sucesso. Já esgotamos a primeira edição de dois mil exemplares, o que é muito bom para um ensaio. É um livro belíssimo, todo mundo adora. A ficção de Virginia Woolf é muito bem traduzida no Brasil, pela Autêntica, pelo Tomaz Tadeu. Mas a obra dela é plural e diversa, há muita coisa que não está traduzida.

Como está a programação da Nós para o lançamento dos outros quatro volumes de Diários?

São cinco volumes, que vão de 1915 até 1941. A Carolina está trabalhando firme agora no último volume, que vai de 1936 a 1941, ano da morte de Virginia Woolf. Lançamos o primeiro volume, de 1915 a 1918: vendemos 400 exemplares na pré-venda, o dobro do que esperávamos, e a primeira edição de 2000 exemplares, feita em abril, já está se esgotando em menos de seis meses. A procura por Virginia Woolf está mostrando que há uma demanda reprimida principalmente pelos “Diários”completos, tradução inédita em português, tanto é que estamos lançando também em Portugal.

Ninguém havia enfrentado o tamanho dessa empreitada. Para nós isso foi possível porque havia por trás um trabalho de nove anos da Carolina e a coragem dela de assumir isso. Para o doutorado, a Carolina já havia traduzido o período dos diários em que Virginia Woolf produz os livros mais importantes, a partir de 1919. Ela tinha o miolo, mas não tinha o começo nem o fim.

As pessoas estão muito ansiosas, e decidimos publicar o segundo volume dos “Diários”, que vai de 1919 a 1925, agora em setembro. É um projeto de muito fôlego, tempo, trabalho e investimento. Nós ainda vamos publicar todos os volumes até 2025, centenário do lançamento de Mrs Dalloway. Então o sucesso se deve ao ineditismo.

Como os ensaios “A morte da mariposa”, “Pensamentos de paz durante um ataque aéreo”e “Sobre estar doente”, lançados este ano, conversam com o momento do Brasil?

Parecem ter sido escritos hoje, tamanha a atualidade. Um fala sobre a doença; outro sobre violência, armamentos e a guerra; e o terceiro sobre a luta contra a morte. Quer dizer, tudo o que estamos vivendo agora. Acho que não só no Brasil, mas no mundo, este novo momento do feminismo, uma marca muito forte é a recuperação de figuras femininas que foram de um modo ou de outro apagadas, silenciadas, camufladas ou só parcialmente conhecidas por uma série de razões. Percebo hoje como o melhor momento para a obra de Virginia Woolf no Brasil.

Gosto muito de uma expressão do (filósofo) Vladimir Safatle: tudo o que estamos vivendo é uma reação ao futuro, não reação ao passado. Acho que é o último suspiro do patriarcado selvagem. E no mercado editorial brasileiro, sempre dominado por homens, é evidente uma transformação radical: há, atualmente, uma série de mulheres no comando de pequenas e médias editoras. E há também um outro movimento que é o de mulheres livreiras, mercado que é dominado por homens. Em São Paulo, abriu a primeira livraria feminista da cidade, que é a Gato sem Rabo, referência a Virgínia Woolf. Quando você entra lá, ela é a estrela principal.


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