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Estado de Minas PENSAR

O que leva um país a um genocídio?

Escritor senegalês reconstitui, em 'Murambi: o livro das ossadas', o massacre de quase um milhão de pessoas em Ruanda


11/06/2021 04:00 - atualizado 11/06/2021 09:44

Sobreviventes do genocídio de Ruanda: massacre de 1994 foi revisitado pelo escritor senegalês Boubacar Boris Diop(foto: AFP)
Sobreviventes do genocídio de Ruanda: massacre de 1994 foi revisitado pelo escritor senegalês Boubacar Boris Diop (foto: AFP)
“Vi com meus olhos um homem de meia-idade suplicar aos Interahamwe que acabassem com ele. Nada muito complicado: queria reunir-se ao filho na morte. Nossos homens, sentados sobre pilhas de cadáveres ainda quentes, tomavam sua cerveja e passavam cigarros uns para os outros, rindo na cara dele. Estavam completamente bêbados. Não pude deixar de sorrir quando um deles lhe disse em tom de troça: ‘Ei! Não enche, ruço, você fala demais, os escritórios da morte estão fechados, volta no começo da tarde’. O homem continuava a insistir.

Teimoso, o cavalheiro. Eles o expulsavam e ele voltava à carga no minuto seguinte. Vencidos pelo cansaço, resolveram acabar com o importuno. O que me parecia ser o chefe dos Interahamwe fez sinal a um de seus homens para que se ocupasse dele. Seu subordinado então teve um acesso de raiva violento e súbito. Berrou com todas as forças: ‘Eu de novo! Sempre eu! Por quê? Os outros estão aí bebendo cerveja e você não lhes diz nada! Matei o dia todo, estou cansado!’. Foi nesse momento que um cachorro surgiu de um monte de cadáveres, com um pé de criança agarrado entre as mandíbulas. O homem, que sem dúvida tinha perdido a cabeça fazia muito tempo, murmurou então andando de mansinho na direção do animal: ‘Ah! Ah! o que é que estou vendo? É o meu Damien, estou reconhecendo o sapato dele!’.”

A narrativa está em “Murambi, o livro das ossadas”, do senegalês Boubacar Boris Diop, e dá a dimensão do palco de horrores em que se desenrola o genocídio dos tútsis de Ruanda. Traduzido pela primeira vez do original em francês para o português por Monica Stahel para edição da Carambaia, o livro começou a ser escrito em 1998, quatro anos após as atrocidades que exterminaram entre 800 mil e 1 milhão de pessoas entre 7 de abril e 15 de julho de 1994.

As personagens ficcionais dão forma às vidas e fatos reais, de inconcebível brutalidade, marcados na história da humanidade. Ao referir-se ao processo de pesquisa para escrever o romance, a imersão no campo dos horrores para a escuta dos sobreviventes e dos matadores, Diop assinala: “O que dizer então quando de repente um ser de carne e sangue senta-se à nossa frente e, mordendo com muito apetite seu espetinho de cabrito, nos intima por muitos gestos, silêncios e insinuações a fazer dele um ser irreal? Percebe-se então, aliás muito depressa, a ambiguidade desse ‘comando de escrita’ de um tipo muito particular, pois, embora deseje tornar-se irreal, nosso interlocutor também não tem muita vontade de que o façamos outro que não ele mesmo…”. 

O genocídio dos tútsis de Ruanda se deu sob o olhar condescendente da França, da Bélgica, dos Estados Unidos e das demais potências ocidentais – e a impotência da própria Organização das Nações Unidas (ONU), que mantinha missão naquele país. No decorrer dos 100 dias de terror, pessoas majoritariamente da etnia tútsi, em suas casas, nas ruas, refugiadas em igrejas e escolas, não importa onde estivessem, foram esmagadas aleatoriamente como “baratas” – assim chamadas na ação de milicianos extremistas hutus. Facões foram a principal arma empregada no suplício: deceparam bebês, crianças, anciãos, jovens, mulheres e homens de todas as idades.

Corpos mutilados, violentados antes que lhes fossem arrancados o último suspiro de horror, se empilharam em igrejas, escolas, ruas, rios. Alimentaram cães. Alguns milhares foram jogados em valas comuns e enterrados na Escola Politécnica de Murambi, embaixo de quadras de esporte e churrasqueiras utilizadas pelas tropas francesas, que nada fizeram para impedir a chacina. Em recente visita ao memorial em Kigali, capital de Ruanda, o presidente da França, Emmanuel Macron, reconheceu, 27 anos depois, a responsabilidade política do país no genocídio, que o mundo escolheu ignorar, entretido com a realização da Copa do Mundo nos Estados Unidos.

Nas décadas subsequentes, a cumplicidade da espiral do silêncio envolvendo o massacre, inclusive na própria África, encontrou outros álibis. A tragédia de “dimensão cósmica” não alcançou a devida empatia e esperada repercussão civilizatória.

O magistral romance de Diop promove a imersão no clímax do genocídio metodicamente anunciado pelo desencadeamento dos acontecimentos. É também o relato de como se rasga uma nação, alimentando e construindo o ódio entre etnias ou grupos, extraindo-lhes, aos poucos, a humanidade – transformando-os em “objetos” ou “insetos”, responsáveis por todos os males, o inimigo interno a ser extirpado, esmagado. Nenhum país do planeta está a salvo de armar o seu próprio teatro do horror.

“Murambi, o livro das ossadas” foi concebido em 1998 no âmbito de um projeto do Fest’Africa, encontro literário anual em Lille, na França, no qual uma dezena de escritores africanos, entre os quais Diop, foram enviados a Ruanda. Lá permaneceram por dois meses para pesquisar e trazer ao primeiro plano, sob a forma de romances, diários, ensaios e poemas, o último genocídio do século 20.

Assentado, portanto, em fatos desencadeados pela ação de pessoas que assumem na obra formas ficcionais, “Murambi, o livro das ossadas” está dividido em quatro partes. A primeira e a terceira, respectivamente, “O medo e a raiva” e “O genocídio”, contrapõem três vertentes de narrativas em primeira pessoa de diversas personagens em posições antagônicas do conflito.

A primeira é a perspectiva das vítimas do genocídio, a visão tútsi; a segunda traz o enquadramento hutu e de personagens cúmplices do genocídio, mandantes e matadores; e, a terceira, a perspectiva histórica, encarnada principalmente pela personagem Jessica, militante da Frente Patriótica do Ruanda (RPF), que na trama representa a informante da resistência tutsi, sob disfarce hutu: sem quebrar a intimidade das narrativas em primeira pessoa, ela oferece a leitura privilegiada de quem costura a linha do tempo, entrelaçando os elementos que irão desaguar no genocídio tútsi, o que inclusive confronta as contemporâneas perspectivas negacionistas sobre o genocídio.

Michel Serumundo, pequeno empresário tútsi, é quem introduz o conflito ao leitor. Descreve o retorno do trabalho naquele 6 de abril, quando o avião que levava Juvénal Habyarimana, o presidente ruandês da etnia hutu, foi derrubado por mísseis. Num trajeto interrompido por bloqueios de barreira, em que o seu grupo étnico é examinado pelas Forças Armadas e observa a movimentação nas ruas das forças policiais paramilitares Interahamwe, Serumundo, dono de uma locadora de vídeos de guerra, não entende a evidente tensão. Quando tomara o caminho de casa, ainda ignorava o vácuo que se abrira no poder com a morte do presidente, diligentemente atribuída aos tútsis.

O senegalês Boubacar Boris Diop conversou com sobreviventes e matadores, além de ter visitado os locais do genocídio dos tútsis em 1994 (foto: DIVULGAÇÃO)
O senegalês Boubacar Boris Diop conversou com sobreviventes e matadores, além de ter visitado os locais do genocídio dos tútsis em 1994 (foto: DIVULGAÇÃO)


FRENESI DE TERROR

A ignorância de Serumundo em relação ao fato que conflagra o genocídio é simbólica: a maior parte das vítimas que viria a ser abatida nos 100 dias de terror não entendeu o filme da chacina do qual se tornou protagonista. O frenesi de terror, que chegou a arrancar cabeças e ventres de 10 mil pessoas por dia, não poupou esposas tútsis dos golpes de facão de maridos; nem vizinhos e amigos do ato final de concidadãos.

Em posfácio da edição, o autor relata a incredulidade dos ruandeses, mesmo quatro anos após o genocídio, quando lhe confiaram as suas histórias e dramas pessoais: intelectuais, artistas e cidadãos comuns confessavam, com grande frequência, “não ter compreendido nada do que lhes acontecera, que às vezes era de suspeitar que contassem conosco para desvendar o mistério de um ódio tão radical e devastador…”

Na segunda vertente discursiva, a ideologia supremacista Hutu Power, surgida em Ruanda no início dos anos 1990, agrupando extremistas hutus em milícias antitútsis, a principal das quais a Interahamwe, ganha voz por meio de diversos matadores e mandantes. Faustin Gusana é o primeiro a introduzir a narrativa: dois dias depois do início da matança vai visitar a família. Na casa, a normalidade de um afetuoso convívio com as irmãs e a mãe – que naturaliza o cenário da chacina iniciada – é quebrada pela tensa relação com o pai, um ancião que, acamado e doente, exala mau hálito e tem um ferimento do qual o pus goteja. 

A decrepitude física do pai espelha as fanáticas ideias que circulam e se convertem em senso comum entre os extremistas hutus – e perpassam as relações afetuosas nos lares. Exortado pelo pai a não deixar escapar uma só “barata”, por mais jovem que seja, Faustin Gusana narra: “Pensar o impensável. O hálito fétido do pai. O pai que não acaba de morrer. Todo o tempo maldizendo e expulsando alguém de sua casa.

E todos aqueles tútsis para matar. Eu não achava que fossem tão numerosos. Tenho a impressão de que o planeta é povoado de tútsis. De que no mundo só nós não somos tútsis. Antes, era tão fácil gritar com a força do trovão: ‘Tubatsembatsembe!’. É preciso matar todos eles! No pátio, encontro minhas irmãs e vizinhos sentados em volta da minha mãe. Sento-me numa cadeira e Louise me estende um copo de chá”. Uma ideia persegue o genocídio: nem crianças podem ser poupadas, pois elas seriam os “vingadores” do futuro.

Narrado em terceira pessoa, Cornelius, é o nome da personagem central da trama. Ele é introduzido na segunda e quarta partes do romance, nessa ordem, “A volta de Cornelius” e “Murambi”, localidade que abriga o palco de uma das chacinas. Expressão da ambiguidade do mundo diante do genocídio, Cornelius é um expatriado ruandês, filho do médico Joseph Karekezi, hutu, e de mãe tútsi. Retorna em 1998 ao país, idealizando-se em posição de “estrangeiro” ao massacre. 

O magistral romance de Diop promove a imersão no clímax do genocídio metodicamente anunciado pelo desencadeamento dos acontecimentos. É também o relato de como se rasga uma nação, alimentando e construindo o ódio entre etnias ou grupos, extraindo-lhes, aos poucos a humanidade %u2013 transformando-os em "objetos" ou "insetos", responsáveis por todos os males, o inimigo interno a ser extirpado, esmagado



Pouco sabe do que se passou, inclusive, desconhece que o próprio pai foi o mandante do genocídio na Escola Técnica de Murambi, onde foram exterminadas entre 45 mil e 50 mil pessoas da etnia tútsi, entre as quais a própria mãe e as irmãs, presas na armadilha do pai, Joseph Karekesi, que se fazia passar por protetor daquela escola percebida como “fortaleza” imune ao furor hutu. A trajetória de Cornelius reflete a ambiguidade do mundo diante do genocídio: o fato de ter estado fora, ignorado os fatos e se omitido, não o inocenta. Ao contrário, ser filho de um pai monstro é herança que carregará pela vida. 

De toda a trama histórica exposta por “Murambi, o livro das ossadas”, o ingrediente mais assustador é que a barbárie seja executada por pessoas comuns, capazes de relações de afeto em seu convívio familiar; ensinadas, contudo, a transformar “o outro” em inseto, no mal, portanto, incapazes de qualquer empatia com o outro grupo étnico. Obviamente, há uma construção histórica até esse desfecho. Conhecê-la é a melhor forma de evitá-la.

Nas palavras de Diop: “’Murambi, o livro das ossadas’ dá muito mais importância aos fatos relatados por meus interlocutores do que ao ilusionismo muitas vezes associado a uma escrita experimental que era, permitam-me apontar, minha marca registrada. Mudei completamente de opinião depois de uma semana. As conversas com os sobreviventes e os matadores, assim como as visitas aos locais do genocídio dos tútsis, foram uma aula de história que eu quis a todo custo compartilhar com meus leitores. Para minha grande vergonha, eu acabava de ficar sabendo algo de que nunca deveria duvidar, ou seja, que em Ruanda também houvera, pura e simplesmente, vítimas e carrascos”.

A propósito da responsabilidade de cada um em relação aos carrascos que emergem das sombras no curso da história, Hannah Arendt registra: “Foi como se naqueles últimos minutos estivessem resumindo a lição que este longo curso de maldade humana nos ensinou — a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos”.

 
“Murambi, o livro das ossadas” 
.Boubacar Boris Diop
.Tradução de Monica Stahel
.Editora Carambaia
.224 páginas. 
.R$ 69,90 | R$ 48,90 (e-book)


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