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Estado de Minas ROMANCE

A vida dos outros: 'Mérito' é último romance da trilogia de Rachel Cusk

Com a obra, escritora resolve o impasse da literatura de autoficção numa narrativa arrebatadora


30/04/2021 04:00 - atualizado 30/04/2021 08:33

A escritora Rachel Cusk, de 54 anos, autora da trilogia
A escritora Rachel Cusk, de 54 anos, autora da trilogia "Esboço", "Trânsito" e "Mérito" (foto: EDITORA TODAVIA/DIVULGAÇÃO)
Feminismo, maternidade, casamento, separações e a literatura estão novamente no centro da última parte do tríptico da escritora anglo-canadense Rachel Cusk, “Mérito”, com o mesmo poder narrativo desconcertante das obras anteriores. Mas talvez seja sobretudo o amor o que poreja nos compactos blocos que fazem as vezes de capítulos nas vozes que falam através da escritora britânica Faye, seu alter ego.

Numa das cenas do livro, a editora de Faye não se conforma com ela ter se casado de novo. Há uma reprodução do quadro “Salomé com a cabeça de São João Batista”, de Artemisia Gentileschi, na parede no bar do hotel onde estão sentadas. Artemisia foi a única mulher reconhecida da escola barroca italiana do século 17. A editora não se conforma com o fato de Faye ter se casado de novo e estar sujeita à tirania dos homens, como ela própria depois de se separar do marido e de ele a esmagar na primeira oportunidade, arrancando sua cabeça como à do decapitado no quadro, porque essas são as leis, segundo ela, que regem as separações.

Faye responde: “Eu tinha esperança de derrotar essas leis, falei, atendo-me a elas. Meu filho mais velho certa vez fizera uma cópia daquele quadro na parede, falei, com a diferença de que tinha deixado de fora todos os detalhes e apenas indicado em blocos as formas e as relações espaciais entre elas. O interessante, falei, era que sem esses detalhes e a história à qual eles estavam associados, o quadro se tornava um estudo não sobre o assassinato, mas sobre a complexidade do amor.”

É difícil comentar “Mérito” sem mencionar os outros livros. Sua arquitetura lembra “Esboço”. Aqui temos Faye novamente a bordo de um avião recebendo confissões íntimas de um desconhecido na poltrona ao lado. Ela viaja a trabalho, desta vez para um festival literário no Sul da Europa, e não para dar aula de escrita na Grécia.

Como nas duas obras anteriores (a segunda é “Trânsito”), o leitor pouca coisa sabe a respeito de Faye. Seu nome só é dito uma única vez em cada livro. Sua história é tecida com farrapos e se desvanece o tempo todo, assim como os fragmentos das outras personagens que cruzam por ela, como o do vizinho do avião, num desfile de transitoriedades humanas que compõem o mosaico da sua ficção. A sustentá-lo estão as cidades e sua arquitetura habilmente descritas. O resto é pura elipse.

Ela se encontra com colegas, agentes, tradutores, jornalistas, leitores, organizadores de festivais e até um guia. Como se fosse dotada de dutos, todos lhe contam partes dolorosas de suas vidas e o que pensam a respeito da literatura. “O que todos os publishers estavam buscando, continuou ele – o santo graal do mundo literário moderno, por assim dizer –, eram autores com um bom desempenho no mercado que ao mesmo tempo mantivessem uma conexão com os valores da literatura; em outras palavras, autores de livros que as pessoas pudessem de fato apreciar sem se sentir diminuídas ao ser vistas lendo-os”, diz seu agente.

Mais adiante, ele diz que as pessoas querem desfrutar do prazer de ler sem ter de passar por dificuldades e cita Robert Musil e T. S. Eliot como amostras do tipo de literatura desconfortável. Não à toa, festivais literários sinonimizam o lugar onde escritores e público conseguem alcançar sua sintonia, desde, claro, que os primeiros caprichem nas apresentações, como a personagem que faz sua entrada em seguida, Linda.

O papel do escritor não é mais o que ele escreve, é sua performance, como as de Linda, que passa a vida de evento em evento como animadora de auditório, ao contar por exemplo a cena de uma poeta lendo no palco enquanto seu namorado amarra o tornozelo das pessoas na plateia.

Cusk projeta nos personagens suas próprias fragilidades e angústias. Linda conta como foi passar 15 dias num castelo no interior da Itália, numa espécie de residência literária patrocinada por uma viúva aristocrata, cercada de escritores. Ela se sentia prostituída, pois sua função ali dentro, como a dos demais, era apenas massagear o ego da patronesse. Ela começou a sentir saudades do marido e da filha no seu apartamento pequeno, que cabia dentro do quarto ornamentado onde estava hospedada. Mas ao finalmente decidir telefonar em desespero para o marido, descobre que a vida familiar era tão enfadonha quanto desfrutar das solicitudes dos empregados e luxos do castelo.

Ao contrário da romancista Elizabeth Costello, da novela homônima do sul-africano J. M. Coetzee, as palestras sobre literatura não são narradas nos livros da trilogia de Cusk, embora a vacuidade de suas vidas de escritores itinerantes guarde muitas seme- lhanças.

Do bar onde se levantam para a apresentação naquela tarde, Mérito pula para a primeira das várias entrevistas agendadas para Faye em sua breve estada na cidade – em todas ela nada responde.

A jornalista que a espera no jardim do hotel é a mesma que a entrevistou há 10 anos e quando ela lhe informa sobre esse encontro se surpreende quando Faye diz se recordar de cada frase do seu relato, de como a invejara pela rotina tranquilizadora com o marido e filhos numa cidadezinha próxima dali. Ela a invejava porque a vida de Faye era o contrário disso, ao mesmo tempo em que tudo o que ela própria desejava era desfrutar daquela paz imersa num tempo que não a sacudisse. Essa revelação tão vívida daquele encontro é o disparador para a verdade que ocultava o relato de 10 anos atrás, pois a jornalista na realidade tivera apenas a intenção de causar-lhe inveja, quando sua própria vida era marcada pela inveja que sentia da sua irmã. E como acontece em Cusk, quem passa a falar é o outro.

“A verdade era que vinha me perguntando havia muito tempo o que poderia existir fora do mundo circunscrito do meu casamento e que liberdade e prazeres poderiam estar à minha espera ali; parecia-me que eu havia me comportado de modo bastante honrado com minha família e minha comunidade e que aquele era um momento no qual eu podia, por assim dizer, renunciar a isso sem causar raiva nem mágoa e fugir na calada da noite”, conta a jornalista.

Todos os personagens de Cusk – incluindo Faye – são vítimas do que julgam ser vidas melhores e mais livres que as suas e acabam presas em ilusões. Todas se consideram merecedoras por seu sacrifício autoimposto – a palavra mérito aparece em vários trechos do romance.

Rachel Cusk não é Sheila Heti conquanto ambas tenham humor e sintam-se ambíguas com relação à maternidade. Cusk é mais sábia porque ouve mais e tempera sua prosa com poções menores de ironia, enquanto Heti exagera nos ingredientes picantes e soa muitas vezes sentenciosa. Cusk tampouco se parece com Karl Knausgård, ela não está interessada em narrar cada minuto de sua vida em milhares de páginas como o cultuado escritor norueguês. Cusk tem algum parentesco com Chris Kraus, mas sem ruminações muito teóricas e toda aquela inflação intelectual. No entanto, muitos críticos, premidos para encaixá-la em algum gênero, a rotulam como autora de au- toficção. Se Cusk se aproxima de alguém em sua trilogia é da Prêmio Nobel Svetlana Aleksiévitch, a grande escritora da escuta e empatia.

*André Nigri é jornalista e autor das ficções “Com a corda no pescoço” e “Paralisia”  


MÉRITO
.Rachel Cusk
.Editora Todavia
.192 páginas
.R$ 59,90
.R$ 46,90

TRECHOS

“'Vez ou outra', continuou ela pouco depois, 'encontrei pessoas que tinham se libertado de seus relacionamentos fami- liares. Mas sempre parece haver nessa liberdade uma espécie de vazio, como se para abrir mão dos parentes essas pessoas tivessem sido obrigadas a abrir mão de uma parte de si. Como o homem na geleira que cortou fora o próprio braço'”, disse ela com um leve sorriso. 'Não pretendo fazer isso. Meu braço às vezes dói, mas considero meu dever ficar com ele.'”

***

“'Minha mãe é muito boa conosco', disse ela, 'apesar de eu ser a primeira pessoa da minha família a me divorciar e de isso ser um estigma para ela, que ela não consegue me permitir esquecer. Olha para o meu filho quando sabe que a estou observando e leva a mão à boca como se algum objeto de valor incalculável tivesse acabado de cair no chão e se espatifado em mil pedaços bem diante dos seus olhos. Ela o trata como se ele tivesse alguma doença terrível', disse ela, 'e talvez ele tenha mesmo, mas nesse caso cabe a ele sobreviver à doença, mesmo que os outros demonstrem empatia.'”


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