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Estado de Minas DITADURA

Memórias na pele e na alma, em O corpo interminável (2019)

Escritora e roteirista Claudia Lage se põe em marcha para narrar cicatrizes da nossa história coletiva, encarando a 'fera gigantesca'


18/12/2020 04:00 - atualizado 18/12/2020 12:20

Cláudia Lage: ''Minha geração sempre teve desconhecimento muito grande sobre a ditadura'(foto: Joao Cotta/TV Globo)
Cláudia Lage: ''Minha geração sempre teve desconhecimento muito grande sobre a ditadura' (foto: Joao Cotta/TV Globo)
No documentário Nostalgia da luz (2010), o chileno Patricio Guzmán recupera a história de pessoas que perderam seus familiares durante a ditadura de Pinochet, e cujos corpos nunca foram encontrados. Em um esforço sistemático, buscam qualquer tipo de vestígio no deserto do Atacama, insurgindo-se contra o apagamento da memória, escavando na aridez desértica atrás de um rastro de seus parentes. Muitas delas são mulheres, e procuram respostas, vestígios, sinais. 

Também na literatura brasileira da última década se pode notar a presença de ficcionistas que publicaram narrativas sobre o tema da ditadura militar, em uma espécie de filiação do exílio – nascidas em países próximos, escrevem e publicam em nosso idioma. Sem esgotar o levantamento, é possível se referir à chilena Carola Saavedra, à argentina Paloma Vidal e à uruguaia Gabriela Aguerre, todas vindas para o Brasil ainda crianças.

Em Inventário das coisas ausentes (2014), de Saavedra, Mar azul (2012), de Vidal, e O quarto branco (2019), de Aguerre, o cenário político surge como mola propulsora do itinerário de sujeitos compelidos a trocar de país e de idioma em função de regimes implantados à força. 

Nascida nos anos de chumbo, essa geração toma para si a urgência de narrar o horror de governos autoritários e ideologias perversas – é possível afirmar que, em seus relatos, as escritoras ecoam de distintas formas a formulação da crítica Jeanne Marie Gagnebin, ao assinalar que a testemunha não seria somente aquela que viu com seus próprios olhos, mas também quem “consegue ouvir a narração insuportável do outro e aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro”. 

A imagem da corrida de revezamento parece adequada para pensar essas escritas – uma prática que exige fôlego e explosão muscular, mas também contenção da velocidade, no movimento exato de depositar na mão da outra pessoa algo muito precioso, no momento certo. As ficcionistas referidas, e tantas outras e outros que não caberiam neste espaço, perseguem a tarefa de entregar uma história que ainda dói e lateja.

Memória da  violência 

São rastros de vidas, resquícios de narrativas, fragmentos de fotografias, como no potente O corpo interminável (2019), de Claudia Lage. A escritora e roteirista carioca, também autora do romance Mundos de Eufrásia (2009) e da premiada novela Lado a lado (com João Ximenes Braga), foi laureada com o Prêmio São Paulo de Literatura na semana passada. Lage pertence a essa geração que herda o trauma da ditadura, constituindo-se em testemunha indireta daquele momento.

“É um assunto que sempre me incomodou, esse silêncio sobre essa época da nossa história. Minha geração sempre teve um desconhecimento muito grande, embora fosse uma geração de filhos da ditadura,” disse a autora, à época do lançamento, à repórter Nahima Maciel, do Correio Braziliense. Ao receber como legado a memória da violência, se põe em marcha para narrar cicatrizes da nossa história coletiva, encarando a fera gigantesca, como nomeia um dos narradores do romance.

Também no plano da narrativa a imagem do revezamento se materializa: por vezes não identificadas, como tantas das vítimas dos regimes autoritários, várias vozes se intercalam. Duas se sobressaem: Daniel e Melina, casal enamorado e atravessado por dores profundas: ele, filho de desaparecida política, de quem foi separado ao nascer; ela, fruto de um casal aparentemente alheio ao que ocorria no Brasil de então. Mas nem tudo é simples, ou claro. À diferença dos pais, Melina quer abrir os olhos, entender, fotografar este mundo repleto de de sequências interrompidas. 

Trecho do livro

Não lembro de nenhuma sensação de conforto ao dormir na cama da minha mãe, não era nela nem em seu sorriso que pensava, mas na sua ausência e na sua morte nunca confirmada, no seu corpo que não estava, que não se podia ver nem tocar, isso me assombrava, como um monstro no armário, mas muito pior do que um monstro no armário, porque eu sentia em minha pele, era um horror real. (....) esse é o verdadeiro sofrimento desse filho, que não consegue imaginar a mãe como uma pessoa que se pode encontrar na esquina, uma pessoa que existiu (...).


Já Daniel escreve para compreender lacunas ao longo de sua existência – criado por um avô silencioso, busca por meio da escrita capturar pessoas e sentimentos que lhe foram subtraídos. Nesse caminho, outro elemento fundamental, a personagem Alice, do livro preferido de sua mãe.

Daniel possui várias edições do romance de Lewis Carroll, já que o volume pertencente à mãe lhe chega com páginas a menos. Nas demais, grifos, frases, a letra materna, uma materialidade da presença dessa mulher que não conheceu. “O que um livro pode dizer sobre o seu leitor?”, indaga-se. 

Esse leitor é uma leitora, e esse dado não é gratuito. Elas povoam as páginas do romance de Lage, que apresenta personagens femininas de muitas facetas: algumas questionam a maternidade compulsória, outras querem a luta e o combate, algumas silenciam, muitas são silenciadas. E os corpos são o território por excelência para contar essas histórias – eles adoecem, engravidam, são violados, desaparecidos, metabolizam com dificuldade o que é imposto a eles. A pele registra todos esses movimentos, reagindo à ferocidade dos fatos e à brutalidade dos homens.

Trecho do livro

(...) o sol frio, o portão florido, a família de férias, a casa branca, a menina com o cachorrinho, o pai no volante, a mãe no banco do carona, as férias passando pela casa branca e seguindo, isso é o mais importante, passávamos pelo pior toda hora, entre os passeios, a ida à padaria, ao mercado, à pracinha, ficávamos semanas tão perto dos porões escuros e não ouvíamos um grito, um choro, um tiro, nada.


O corpo interminável é um romance lido também com o corpo – não é possível permanecer indiferente diante do que se narra, de como se narra. Claudia Lage não se detém diante da dificuldade de nomear as atrocidades e a violência, mas ao mesmo tempo oferece um olhar que ampara esses personagens: mesmo um tanto aturdidos como Alice em sua trajetória, eles ainda amam, desejam, tocam as superfícies feridas por tanta dor.

Da força e beleza inegável do romance, gosto de reter a imagem do narrador decorando as páginas que faltam do livro materno, à semelhança dos personagens de Farenheit 451, romance de Ray Bradbury.

Se os livros desaparecerem, forem queimados, roubados, escondidos, sempre haverá quem os guarde não só na memória, mas na ponta da língua, resistindo teimosamente, mesmo quando tudo em volta insiste em aniquilar. 

*Stefania Chiarelli é pesquisadora e professora de literatura brasileira na Universidade Federal Fluminense (UFF)



O corpo interminável
• Claudia Lage
• Editora Record
• 194 páginas
• R$ 54,90


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