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Estado de Minas CONTOS

A sinfonia aos esquecidos em uma reunião de contos sobre personagens que amam, matam e morrem

Crítico literário Ney Anderson estreia como autor de ficção com enredo em uma grande cidade brasileira


16/10/2020 04:00 - atualizado 16/10/2020 08:55

(foto: Arquivo Pessoal )
(foto: Arquivo Pessoal )
 

"Entendi nas oficinas literárias que uma história não nasce de inspiração e que tudo o que está escrito tem um propósito e uma função"

Jornalista e crítico pernambucano, Ney Anderson mantém o blog Angústia Criadora, dedicado a análises pormenorizadas da literatura contemporânea. “Pude perceber como a produção literária nacional é vasta e em constante movimento: não tenho dúvida de que a literatura brasileira é uma das melhores do mundo”, acredita.

Ele costuma esmiuçar, com argúcia e profundidade, livros de diversos gêneros e origens. “O que não me estimula como leitor e crítico é a cópia, os assuntos repetidos que não acrescentam nada, que apenas repetem fórmulas de sucesso”, ressalva.

Nove anos depois da criação do blog, chegou a vez de o crítico ceder espaço ao autor. O espetáculo da ausência (Patuá), primeiro livro de Ney Anderson, apresenta uma reunião consistente de contos povoados por personagens marcantes e assombrados pelas lembranças de visões nas ruas e casas de uma metrópole brasileira: Recife, descortinada pela observação do autor. “Não acredito em literatura que não tenha uma base no real. Preciso sempre que algo de verdade tome conta de mim e me faça querer escrever. Que seja mais forte e violento do que qualquer coisa”, explica Anderson, nascido na capital pernambucana em 1984.

São 33 contos curtos que oscilam entre a tensão e o lirismo. Com a destreza adquirida nas leituras e nas participações em oficinas literárias, o autor experimenta a alternância de vozes e temas e aposta em imagens fortes, como a de cinemas desativados e paredes descascadas. Em outros momentos, como em Contrato exclusivo, o que se destaca é a fluência de diálogos afiados, aceno aos grandes momentos do mineiro Luiz Vilela.

Mesmo nas narrativas que exploram caminhos já percorridos nas últimas décadas por autores brasileiros, como o mimetismo da linguagem das ruas (Estação final) e a metalinguagem sobre o fazer literário (Jovem leitora e O conto possível) na linha de Rubem Fonseca e Sérgio Sant’Anna, há graça e engenho.

E, nos pontos mais altos, como em Grande mundo entre quatro paredes, salta aos olhos a capacidade do autor em enxergar as pessoas invisíveis, dar voz aos que são silenciados pelo anonimato e compor uma “sinfonia aos esquecidos”, para citar uma das passagens do conto.  A seguir, uma entrevista com Ney Anderson:

O escritor pernambucano Raimundo Carrero destaca, na apresentação, a “fauna incrível de personagens”. De onde vêm os personagens de suas histórias?
Os meus personagens estão no cotidiano, no dia a dia. Mas não são personagens que trafegam por avenidas e já sabem para onde estão indo. Eles estão principalmente nas esquinas, nas encruzilhadas, desiludidos com alguma questão ou tentando se encontrar no mundo de alguma forma, no seu próprio mundo.

 “A gente vai caminhando para algo que nunca ninguém saberá”, diz o narrador de uma das histórias. Seus contos nascem com início, meio e fim ou também são caminhadas em direção ao desconhecido?
A minha intenção é nunca buscar a solução cartesiana das histórias. Embora algumas tenham esse caráter de começo, meio e fim, o que me atrai na literatura, enquanto leitor e ficcionista, é o mistério da não solução do enigma. O ser humano é o maior enigma do mundo.  Temos conflitos, desesperos, dores, angústias. Sonhamos, pensamos, cometemos atos inexplicáveis, alcançamos o sucesso ou o fracasso. Ou seja, o desconhecido é algo natural para todos nós.  Não ficção, eu tento sempre esticar a corda do mistério das ações humanas.

Há nos contos citações de lugares emblemáticos do Recife. O que mais o fascina na cidade? Quais outros escritores conseguiram retratar, em seus livros, a atmosfera da capital pernambucana? 
Recife é o lugar onde estão os meus personagens. Principalmente no Centro da capital. Há muito tempo, mesmo quando eu nem sonhava em ser escritor, muito menos jornalista, eu já percebia que sentia uma sensação diferente caminhando por suas ruas estreitas, ao lado da minha mãe, ouvindo os gritos dos ambulantes, a agitação, os taxistas.

Tudo isso envolto no calor, mas também na forte brisa do mar, emoldurado pelas pontes que cortam o rio Capibaribe. Depois eu entendi que a satisfação era porque eu já via a cidade com a lente da arte. Quando comecei a rascunhar as primeiras histórias, naturalmente essa atmosfera entrou com os dois pés na minha ficção. Escritores como Raimundo Carrero, Gilvan Lemos, Carlos Pena Filho, Osman Lins, Ronaldo Correia de Brito, Miró, Cida Pedrosa, Hermilo Borba, Carneiro Vilela, Ascenso Ferreira, Manoel Bandeira, João Cabral, Mauro Mota, Clarice Lispector, Luzilá Gonçalves, Adrienne Myrtes, Luna Vitrolira, Jomar Muniz, Micheliny Verunschy, Marcelino Freire, Cícero Belmar e tantos outros desenharam o Recife com as suas próprias tintas, comprovando justamente os mistérios e as enormes possibilidades que rondam a Cidade Maurícia.

“Colocava em prática os ensinamentos que aprendera na oficina.” O que aprendeu de mais relevante nas oficinas literárias de que participou e como esse aprendizado se refletiu na elaboração dos contos?
Eu aprendi a ler. Esse foi o principal ganho na oficina literária. Entendi que uma história não nasce de inspiração e que tudo o que está escrito tem um propósito e uma função. Então, compreendi que existem ferramentas e várias formas de contar uma história para atingir efeito e causa.

O aprendizado, no entanto, não pode ser utilizado como regra. As técnicas existem para ser recriadas de acordo com as ideias que forem surgindo, no jeito pessoal de escrever um conto, do impulso que se apresenta na hora que o texto está sendo elaborado etc. A forma que cada escritor faz a sua literatura é muito pessoal. Comigo não é diferente.

Como vê o regionalismo na literatura? Acha que existe uma “literatura nordestina” ou uma “literatura pernambucana”?
Existem vários tipos de regionalismo. O político, o social, o estético, o folclórico e por aí vai. Então, existe sim literatura nordestina e pernambucana, sobretudo de denúncia social, com questões muito próprias. A literatura de cordel representa bastante o espírito do Nordeste. Mas não apenas ela. Quando se fala do patriarcado, e da decadência dele, por exemplo, a invenção a partir dessa realidade é algo muito identificado como literatura nordestina.

Embora hoje a prosa e a poesia sejam mais sobre temas urbanos, ainda existe o Nordeste mitológico, ancorado nas fortes tradições culturais, da religião, nos hábitos, nos costumes etc. Impossível não lembrar de Ariano Suassuna, Raquel de Queiroz, Graciliano, José Américo de Almeida, Jorge Amado, Osman Lins e tantos outros que se tornaram universais mostrando justamente o emaranhado de contradições e riquezas da região.

O que leva em conta ao escrever uma resenha para o blog?
No aspecto da leitura crítica, eu analiso o livro que estou lendo a partir da sua materialidade. Do que está na minha frente. Ou seja, não fico tentando buscar comparações, influências que o autor possa ter tido ao escrever o livro. Resumindo, eu tento fazer com o que o meu trabalho de crítico seja uma extensão da experiência da leitura de determinado livro.

O que motivaria Ney Anderson a escrever uma resenha de O espetáculo da ausência para o blog Angústia Criadora? Quais pontos chamariam a atenção do crítico?
Eu diria que O espetáculo da ausência tem o mérito de construir um universo próprio, particular, pintado com cores diferentes, onde o Recife serve de palco para tantos personagens desaguarem a sua desesperança, mesmo percorrendo por um caminho da busca de uma tentativa de redenção consigo mesmo. Com o lado mais profundo, enigmático e sombrio do ser.

A salvação redentora através da própria ideia de existir em um mundo cada vez mais corroído, que não abre espaço para nada mais, a não ser deixar fluir o estranho destino de cada um deles. Como um grande mosaico, os contos falam de vidas extraviadas, que se perderam no percurso, mas tentam buscar algum conforto no fim túnel. Mesmo que esse conforto represente justamente o final do caminho. Tudo isso, para mim, seria motivo suficiente para escrever uma resenha.

O espetáculo da ausência
De Ney Anderson
Editora Patuá
170 páginas
 R$ 40
À venda no site editorapatua.com.br


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