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Estado de Minas NA HISTÓRIA

Um crime na história: há 80 anos, Leon Trotski era assassinado no México

Líder mais combativo da revolução que acabou com 300 anos de monarquia na Rússia, foi morto a golpe de picareta por um agente de Stálin


21/08/2020 04:00 - atualizado 21/08/2020 07:55

Trotski, aos 50 anos, na Turquia, em 1929, seu primeiro exílio, depois de ser expulso da URSS por Josef Stálin(foto: JEAN WEINBERG/ARQUIVOS DO INSTITUTO HOOVER)
Trotski, aos 50 anos, na Turquia, em 1929, seu primeiro exílio, depois de ser expulso da URSS por Josef Stálin (foto: JEAN WEINBERG/ARQUIVOS DO INSTITUTO HOOVER)
“Jacson encontrou-se com Trotski no escritório. O Velho foi preparando suas ideias enquanto tornava a dar uma espiada nas páginas, sem nenhuma cautela. Isso permitiu que Jacson se levantasse da cadeira e contornasse a escrivaninha. Carregava sua capa de chuva num dos braços, para poder ter uma das armas (uma picareta de alpinista e um punhal) à mão. A picareta (com cabo cortado) era a melhor das duas para usar por trás de Trotski. Com um movimento ágil, Jacson cravou-a no alto do crânio dele. Foi um golpe violento, mas não prontamente fatal, provavelmente pelo fato de o impacto ter sido causado com a parte mais larga da ferramenta.

É evidente que o assassino ficou nervoso nos últimos momentos. (…) 'Só golpeei uma vez e, quando isso aconteceu, ele soltou um grito lancinante, de fazer dó, ao mesmo tempo que se atirou em cima de mim e mordeu minha mão esquerda, como o senhor mesmo pode ver por essas três marcas de dentes. Depois, deu uns passos lentos recuando. Assim que ouviram o grito, as pessoas vieram. Por causa do que tinha acontecido, quase desmaiei e não tentei fugir (revelou o assassino em depoimento à polícia)'”.

Assim ocorreu o premeditado atentado ao líder russo, aos 60 anos, no México, em 20 de agosto de 1940 –, ele morreu no dia seguinte –, descrito no livro Trotski – Uma biografia (Trotsky: a biography – editora Record, 2017), de Robert Service, professor de história da Rússia na Universidade de Oxford (Inglaterra). O líder mais combativo da revolução que pôs fim a 308 anos da monarquia Romanov na Rússia, em 1917, foi morto por um homem no qual confiou ingenuamente.

Sob forte esquema de segurança na casa onde vivia, no bairro de Coyoacán, na capital mexicana, Trotski já havia escapado de ataque a tiros em maio. Em agosto, ele passou a contar com os serviços esporádicos da ativista norte-americana Sylvia Ageloff, como secretária para os seus escritos. Ela chegou à cidade acompanhada do namorado, que se apresentou como Jacson Mornard, homem de negócios, que procurou ganhar a simpatia de Trotski. Pediu a ele para avaliar e corrigir um artigo sobre estatística da economia francesa.

Apesar da desconfiança de Natália Sedova, mulher de Trotski, e de amigos, Jacson ganhou a confiança do russo, até o dia em que conseguiu ficar sozinho com ele no escritório e o atacou com a picareta de alpinista. Soube-se, então, que Jacson era, na verdade, o espanhol Ramon Mercader, stalinista e agente da polícia política de Stálin, que tinha a missão de matar Trotski e tinha enganado a própria namorada sobre sua identidade.

Ele cumpriu 20 anos de prisão no México, mas jamais confessou a motivação do crime e continuou negando ser Mercader, alegando que matou porque Trostski tinha disseminado a discórdia entre seus seguidores. E que o havia induzido a ir para a URSS praticar assassinatos. Mercador morreu em 1973, em Havana.

ADMIRAÇÃO E DESPREZO

A biografia de Robert Service mostra a dualidade de admiração e desprezo que envolveu Trotski, um dos intelectuais mais brilhantes e controvertidos do século 20, cuja trajetória mudou o curso da história com a Revolução Russa. Service sustenta que o seu livro é a primeira biografia completa do líder escrita fora da Rússia por um autor não trotskista.

Diz que outros biógrafos deixaram de fazer perguntas incômodas sobre Trotski. Reconhece sua “importância e genialidade fundamentais para a vitória dos bolcheviques em 1917”, mas aponta o dedo para os graves erros que levaram o líder russo ao exílio, à morte trágica e ao sacrifício do povo russo.

Um deles foi subestimar Stálin, a quem chamava de “pigmeu intelectual, que não sabia debater e jogava sujo”. Trotski era internacionalista e queria a revolução permanente em todo o mundo. Após a morte de Lênin – com quem tinha relação difícil e competitiva –, em 1924, ele se ausentou de Moscou. Enquanto viajava de trem com o poderoso Exército Vermelho, que fundou e comandou, para pregar a revolução, Stálin, que defendia o comunismo apenas na URSS, assumiu o controle do Partido Operário Social-Democrata Russo e acabou banindo o adversário.

“Trotski foi um ser humano excepcional, com brilhantismo literário e analítico, mas era arrogante, autoritário, perdia-se em diatribes, não sabia ouvir, ignorou todos os sinais da sua derrocada”, sustenta Service.

ROMANCE

Outra ótima referência literária sobre Trotski é o livro do escritor cubano Leonardo Padura, que escreveu O homem que amava os cachorros, uma instigante biografia romanceada dos anos de exílio do líder russo, principalmente no México, onde foi recebido em janeiro de 1937, na famosa Casa Azul, do muralista Diego Rivera, e de sua mulher, a pintora Frida Kahlo, com quem Trotski acabou tendo um caso de amor durante meses, mesmo estando acompanhado da mulher, Natalia Sedova. Ele chegou ao país graças ao aval do presidente Lázaro Cárdenas.

"Foi um crime ideológico e simbólico", diz Leonardo Padura sobre a morte de Trotski. Padura dedicou cinco anos de pesquisa para escrever seu romance, que entrelaça a vida de Trotski e de Ramon Mercader com a história fictícia de um escritor que conhece o assassino em Havana. “Eram tempos de polarização revolucionária, em que Stalin, com seu punho de ferro, controlava o poder da esquerda, e Trotski, ele mesmo um fundamentalista, brilhava como 'a única luz' com suas críticas ao regime soviético”, avalia o autor cubano.

"Ao chegar, ele se mistura a um grupo de personagens que coincidem naqueles momentos em um México explosivo, a começar por Rivera e Kahlo", afirma Padura. Arriscando especulações históricas, o romancista cubano acredita que, impondo-se contra Stálin, Trotski abordou com mais pragmatismo as contradições do modelo soviético.

Mas, possivelmente, ele teria aplicado métodos semelhantes aos de seu carrasco”, diz o escritor, evocando reflexão que irrita os trotskistas. “Trotski teria percebido que, ao invés de matar 20 milhões de pessoas, apenas um milhão precisava morrer, mas que este milhão era necessário. Essa poderia ter sido uma das diferenças", argumenta Padura.

Em suas viagens apresentando o romance, Padura acredita ter encontrado um veredicto popular sobre a luta histórica: "Por ter ficado fora do poder, a figura de Trotski atingiu a dimensão que ainda tem e para a qual você encontra ainda hoje pessoas que te dizem: sou trotskista ou tenho inclinações para o trotskismo; enquanto é muito difícil encontrar alguém que diga: sou stalinista ou tenho uma inclinação para o stalinismo.”

REFERÊNCIAS

No cinema, uma boa opção sobre os últimos dias do líder russo é o filme O assassinato de Trotski, produção francesa dirigida por Joseph Losey, em 1972, com astros como protagonistas: Richard Burton (Trotski), Alain Delon (Jacson/Mercader) e Rommy Schneider. O filme tem tom documental, com fotografais de diversas fases da vida de Trotski. Burton não deixa por menos, incorpora bem o personagem. Alain Delon, apesar do talento, é o ponto duvidoso do filme, parece não se enquadrar no papel.

A polêmica sobre Trotski voltou à tona agora com a série Trotsky, disponibilizada pela Netflix. Produzida pelo principal canal estatal russo, mostra o líder revolucionário como vilão da história, um sanguinário frio e sem caráter. A família, que interpretou a caracterização dele como um velho decrépito e senil, se recusou a permitir gravações na casa-museu onde viveu.

O diretor Alexander Kott estaria ligado ao partido do presidente Vladmir Putin, que sempre desconstruiu a Revolução Russa. Outra farsa histórica grave da série é a cena do assassinato, que põe Trotski confrontando Jacson/Mercader, que, então, não teria tido alternativa a não ser matá-lo. Outra crítica: Trotski apresentado como uma espécie de sex symbol, que quer transar com todas as mulheres. A série é apenas uma ficção ruim sobre o líder russo, nada mais. (Com agência France Press)
Cena do filme O assassinato de Trotski, de Joseph Losey, de 1972: Ramon Mercader (Alain Delon) se preparapara matar Trotski (Richard Burton), no escritório dele
Cena do filme O assassinato de Trotski, de Joseph Losey, de 1972: Ramon Mercader (Alain Delon) se preparapara matar Trotski (Richard Burton), no escritório dele

LINHA DO TEMPO

1879 
Lev Davidovich Bronstein nasce em uma família judaica de agricultores, no sul da Ucrânia, que integra o Império Russo

1896
Primeiro contato com ideias revolucionárias socialistas na Europa efervescente contra a monarquia

1896 
É preso em Odessa pelo regime do czar Nicolau II e deportado para a Sibéria.

1902 
Conhece Lênin em Londres, depois de fugir da prisão, deixando para trás a mulher e dois filhos pequenos. Com passaporte falso, adota o nome Trotski, que pegou de um guarda da prisão em Odessa

1905 
Retorna à Rússia e reinicia militância

1906 
É condenado por tentativa de derrubar o regime russo

1907 
Foge da prisão e passa a viver em Viena, na Áustria

1914 
Muda-se para a França

1917 
Retorna à Rússia em ebulição eparticipa da implantação do governo bolchevique, depois de estar do lado dos opositores, os mencheviques

1921 
Funda e comanda o ExércitoVermelho, que chega a ter 5 milhões de soldados. Viaja pela Rússia de trem disseminando a revolução

1927 
É expulso do Partido Comunista por pelo ditador Josef Stálin

1929 
É expulso da URSS e inicia exílio na Turquia, França e Noruega

1939 
Chega ao México e é abrigado por Diego Rivera e Frida Kahlo

1940 
Em 20 de agosto, recebe golpe de picareta na cabeça dado pelo agente soviético Ramon Mercador. Morre no dia seguinte


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