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Estado de Minas LITERATURA

Escrito na pandemia, novo romance de Maurício Lara conta o encontro possível

Disponibilizada em e-book, obra mostra a reunião de três amigos 'mosqueteiros' no confinamento em que revivem alegrias e fracassos em meio à história do Brasil


postado em 03/07/2020 04:00 / atualizado em 03/07/2020 07:56

Maurício Lara(foto: Liliane Correa/EM/D. A Press)
Maurício Lara (foto: Liliane Correa/EM/D. A Press)

Qual é o melhor lugar para colocar uma mesa? Encostada na parede, no centro da sala, na cozinha, no quintal, sob as estrelas? Não vem ao caso o lugar, mas o uso que se faz de tão importante artefato doméstico, talvez o mais importante de todos. Ali comemos, ali bebemos. Ali os amigos se encontram, olho no olho, olhos nos olhos, quando a mesa se torna um quartel-general de anjos sem asas.

Amigos, aliás, como já foi dito, um amigo é o melhor lugar do mundo. Frades, monges, mosqueteiros, anjos vagabundos. Tudo isso. O verdadeiro amigo não reclama de nossos brinquedos espalhados pela alma.

O jornalista e escritor mineiro Maurício Lara acaba de lançar Na mesa, por enquanto apenas em e-book disponibilizado pelo autor e já à venda na Amazon, no formato para kindle. No oitavo romance, ele reafirma o seu talento com estilo ágil e peculiar.

Maurício monta um belo mosaico de nossa história recente, das agruras e delícias do passar do tempo. E toca, com delicadeza, em temas espinhosos, como a morte, mas realça, sempre, a importância e a grandeza dos encontros.

Maurício Lara conta as histórias de três amigos que conversam dentro do confinamento provocado pela pandemia, como os três mosqueteiros: Vicente (Aramis), Custódio (Athos) e Pepe (Porthos). De quebra, a lembrança de Zé Humberto. Três homens da periferia, os três nascidos em 1950, no mesmo bairro.

Rezadores e pecadores reunidos para colocar, diante da mesa, os pingos nos is. As histórias se cruzam, revelando que o cotidiano pode ser mais rico e fecundo do que percebemos. O saldo, o resultado não é sempre simples, pois a verdade é algo abstrato. Sempre existe uma outra verdade que se sobrepõe a outra, como camadas feitas de neblinas.

Maurício Lara monta um enredo feito de encontros, revelações, traições, idas e vindas e desabafos, em uma engrenagem de uma peça só. O medo, o isolamento, a grandeza e a força da amizade. O olhar do outro, o olhar alheio nos considera, nos avalia de forma justa, justa, mas implacável, à medida que tais circunstâncias realçam as nossas sombras, os nossos espinhos, mais que nossas pequenas – mas preciosas – qualidades.

Num dado momento, um dos personagens confessa: “Não tenho que impressionar mais ninguém. O que tinha de fazer na vida, já fiz. O que não pude fazer, não fiz. O que não dei conta de fazer, não significa meu fracasso, só traduz minhas limitações. E não tenho vergonha de colocar isso na mesa, na nossa mesa de três lugares. (...) O que eu construí foi suficiente para sustentar minha velhice? Uma coisa é a questão financeira, outra é o afeto, as relações, o respeito.”

Os personagens do livro sabem que tudo está por um triz, por um piscar de olhos. Depois de todas as mortes vivenciadas, de todas as bênçãos, das incalculáveis cicatrizes, depois, mas ainda dentro das engrenagens da vida. A tolice dos velhos guarda a superfície de algo intransferível, o começo de profundidades sempre novas e sempre outras.

Pode ser bonita uma coreografia mais lenta, um certo, um correto vagar para o de dentro das coisas, é bela e profunda a muda aceitação de uma sabedoria que só o tempo é capaz de nos presentear. O tempo, o que sabem os velhos sobre as cores e os cinzas do tempo? O que sabem eles sobre perdas e ressurreições?  Os velhos sabem, mas não dizem. Maurício quebra esse paradigma ao desnudar as aventuras dos três amigos.

ALTIVEZ E PERCALÇOS

É preciso valentia e altivez para encarar os percalços da vida, para chegar, para conseguir encarar as demandas da velhice. Quantas verdades uma pessoa acumula para si ao longo da vida? O livro de Maurício, se não responde, empresta relevância e dá voz a personagens que têm muito a dizer e a ensinar.

Maurício nos ensina, sutilmente, a olhar para dentro de nós mesmos e nos leva a questionar nossas condutas. Ele nos faz enxergar que todas as pessoas – ou quase todas – merecem carinho e atenção.

“De fato, tem mais coisas entre o céu e a terra dos que os aviões de carreira, como disse o Barão de Itararé”, lembra um dos personagens do livro. Num jogo de sínteses, como se estivessem num tabuleiro de xadrez, os personagens descobrem que existe sempre o imponderável. O mundo dá voltas e só os mais velhos percebem de forma mais nítida essa ciranda que existe no silencioso voo dos pássaros.

Maurício também revisita os fatos que marcaram a história recente do país, discorre sobre as agruras e horrores da ditadura militar e chama a atenção para o ressurgimento desse fantasma que vem tomando vulto com a chegada de um governo de ultradireita que assombra os pilares da democracia brasileira. É estranho e sinistro, mas as histórias contadas sobre aquela época encontram reverberações incontornáveis com a nossa realidade. Lembranças de um tempo de barbárie se entrelaçam com reminiscências íntimas, de amigos que se reencontram.

Maurício Lara faz parte de um seleto grupo de artistas que respeitam o mistério da criação. A cada livro, a cada história, um novo mistério, novo, renovado mistério. Sim, mas por quê? “Porque a vida está muito mais do lado de dentro que fora. É para rir ou para chorar?” Dá e sobra, para rir, e para chorar. Por quê? Porque “a vida do lado de dentro torna-se mais importante quando a de fora fica mais difícil de alcançar, de aproveitar.”

André di Bernardi é jornalista e poeta

ENTREVISTA


MAURÍCIO LARA 

‘‘Não faço ideia do que vai acontecer com 
o cenário cultural ou qualquer outra área’’


Como surgiu a inspiração para o novo livro? Em que medida as suas experiências pessoais foram utilizadas no romance?
Já há algum tempo eu pensava em escrever sobre dois velhos que conversariam sobre a vida. A ideia avançou para serem três os idosos em torno da mesa. Depois, veio a analogia com os personagens principais de Os três mosqueteiros. Meus perso- nagens têm características semelhantes às de Athos, Porthos e Aramis, apelidos que eles se davam na juventude.

O quarto amigo – D’Artagnan – não chegou à velhice. As experiências pessoais estão sempre como um pano de fundo da criação, pois o que está lá é a soma de fragmentos colhidos vida afora. Mas isso não significa que sejam conteúdos autobiográficos.
 
De que forma a quarentena interferiu no andamento da história?
O livro sobre velhos conversando vinha sendo gestado em um ritmo normal. A quarentena interferiu de duas formas: oferecendo o local e a circunstância para a conversa dos três amigos e a minha própria permanência em casa. O tempo de “gestação” foi normal, mas o de escrita foi meu recorde: um mergulho de exatos 30 dias.
 
Como você avalia o cenário cultural num momento de tantas e profundas mudanças, em todos os sentidos? É possível fazer prognósticos sobre o que vai acontecer nesse "novo normal", quando terminar este momento tão difícil para todos?
Não faço ideia do que vai acontecer com o cenário cultural ou qualquer outra área. Isso é angustiante. É tudo muito novo, muito surpreendente. Só sabemos que mudou, não tem volta. Percebi que precisava mudar também a forma de lidar com o livro.

Ele não será impresso agora, nessa confusão. Será digital e, em princípio, gratuito. Como e-book, terá um preço praticamente simbólico. Quero facilitar ao máximo a leitura, pelo tema e pelo momento que vivemos.


Na mesa
• De Maurício Lara
• 214 páginas
• R$ 16 (e-book na Amazon) 
• Gratuito pelo e-mail:mauriciolara@uol.com.br

TRECHOS 
DO LIVRO

 
“Será que esse confinamento é uma oportunidade para gente como nós? Se eu ficasse isolado no quartinho dos fundos, ia piorar muito. Valeria cada vez menos. A vida ia acontecer dentro da casa, na rua e eu lá, sozinho. Todos iam comentar sobre a pandemia, sobre os hospitais, sobre as regras e eu lá, sozinho. Em um certo sentido, não estaria cercado de cuidados, na verdade, estaria cercado pelos cuidados. Encostado em um canto para não adoecer e não morrer. Em última instância, a única importância seria não morrer. Certo que não morrer é fundamental, mas nada mais teria valor, compreende?”
 
• • •

“Se der a sorte de envelhecer com independência, com mobilidade, com lucidez, vai colher exatamente o que plantou. É sobre isso que devemos pensar nesse isolamento. O que eu construí foi suficiente para sustentar minha velhice? Uma coisa é a questão financeira, outra é o afeto, as relações, o respeito. Quem não semear, não tenha dúvida, não vai colher. Quem tiver sorte, vai ter escolha no envelhecimento. Essa escolha não se dá na velhice, ela apresenta-se antes.

Eu penso que passa pela leveza, pela capacidade de entender as mudanças, pela sensibilidade para perceber como o que você emana chega até as pessoas. Em síntese, você tem de saber se é amado com naturalidade, se não precisa representar um papel na busca do afeto. Não é difícil essa medida. Você retém as pessoas que se aproximam de você? Ou não consegue reter, manter, atar os laços de forma firme? Se ficar frouxa essa amarração, meu caro, você ficará só, tem tudo para ser um velho amargo. Ser solitário é consequência.”

Outros livros do autor  

• Em nome do bem (Planeta Editora, 2005) 
• Rua dos Expedicionários, 14 (Ramalhete, 2015) 
• O porco (Ramalhete, 2016)  
• Réstia de alho     (Quixote, 2018)


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