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Estado de Minas SEM SE CALAR

Editora mineira reúne crônicas de Milton Hatoum em livro

Parte da renda da venda será revertida para ONGs que apoiam a causa indígena


postado em 03/07/2020 04:00 / atualizado em 03/07/2020 08:05

(foto: Bel Pedrosa/Divulgacao)
(foto: Bel Pedrosa/Divulgacao)

A caudalosa escrita de Milton Hatoum, as conexões de sua história pessoal e a de sua família com um mundo onde a transformação grita como necessidade não passariam inalteradas. Ao ler seus primeiros romances, Relatos de um certo Oriente, Dois irmãos, Cinzas do norte e Órfãos do Eldorado, não me restou qualquer dúvida de que a literatura brasileira tem, nesse amazonense radicado em São Paulo, um nome de peso indiscutível.

Justamente agora, quando a arte e a cultura se encontram cerceadas de expressões – seja pela quarentena imposta pela pandemia virótica, seja pelos governantes que enxergam nelas ameaça ao poder –, o nome de Milton Hatoum aparece na lista dos que não se calam, agem e reagem. 

Democrático e solidário, me acostumei a vê-lo preocupadíssimo com os povos indígenas da sua (nossa) querida Amazônia, e, em outra frente, trabalhando pela manutenção das livrarias de pequeno porte.

Em seu apartamento em São Paulo, ele recebe livros vendidos pela Mandarina e os autografa, um a um, buscando na portaria do prédio os pacotes, uma forma de estimular as vendas na pequena livraria. Além disso, vem doando direitos autorais que recebe durante a pandemia ao Sarau do Binho. 

Foi encorajada por essas posturas de Milton que o procurei em março, por e-mail, numa jogada de ousadia e crença, solicitando um texto que a Páginas Editora pudesse editar. O temor de uma derrocada do negócio, e a consciência de que pela arte podemos entrelaçar as mãos, me fez esperar pacientemente pela resposta, que veio em algumas semanas.

Milton não tinha texto inédito, mas havia feito a seleção de sete crônicas do livro publicado pela Companhia das Letras em 2013, Um solitário à espreita. Elas foram usadas como plaquetes pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e distribuídas a escolas e bibliotecas da periferia e me foram oferecidas, então, para a publicação de um livreto. Com alegria de estar entrando no guarda-chuva de um dos maiores autores brasileiros de todos os tempos, comemorei a oferta.

Assim nascia o Sete crônicas de Milton Hatoum, que não poderia deixar de expor um caráter solidário, e terá 50% de seu lucro revertido para organizações não governamentais que apoiam a causa indígena. “Leida, não é o momento para silenciar, muito menos se acovardar. Nem Deus silenciou. Deus é Rosa”, escrevia numa mensagem pelo WhatsApp. Lembrando que agora ele revisa o último da trilogia iniciada com A noite da espera e Pontos de fuga. 

Mas eu não conhecia as ONGs indígenas e recorri novamente à indicação do autor, que me citou três entidades. O contato foi com os amigos de Milton, donos de um restaurante de comida típica em Manaus, o Caxiri.  São eles que repassam recursos ao Centro de Medicina Indígena Bahserikowi (@centrodemedicinaindigena), de assistência aos pajés idosos, também à Amism Sateré Mawe (@amism_sateremawe), que reúne mulheres indígenas artesãs, também com atividades suspensas, e ao Parque das Tribos.

Nesta última, são cerca de 700 famílias lutando para manter suas tradições e costumes. Juntei a essas à Operação Amazônia Nativa, a mais antiga associação indigenista do país. Além disso, a pedido do escritor, 50 exemplares seguirão para estudantes de escolas públicas de Manaus. 

''A literatura, principalmente a ficção, sempre tem uma abordagem social, política, simbólica e histórica''

Milton Hatoum, escritor



Para o livro, ainda que o nome de Hatoum por si só fizesse uma honrosa apresentação, achamos por bem convidar um prefaciador que nos falasse do escritor nesse gênero. Acabamos sendo recebidos por dois estudiosos que gentilmente vieram compor a edição. 

No prefácio, o doutor em letras pela UFMG e professor do Cefet Roniere Menezes destaca o cotidiano retratado por Hatoum nas caminhadas pela capital paulista. Para ele, o autor vai “transmutando-se em flâneur, antropólogo, repórter e ficcionista, segue por diversos espaços, ruas, praças, cemitério etc., apresentando ainda facetas de ambientes domésticos.”

Diz o prefaciador que o autor apresenta clara consciência da efemeridade das reviravoltas do mundo. Penso se, lá em 2013, imaginava ele o planeta envolto nesta pandemia que a todos assusta e paralisa. 

Mas enquanto eu colhia o texto de Roniere, a jornalista e escritora Cláudia Rezende, que cuida das edições na Páginas, recebia também um parecer do Sete crônicas de Milton Hatoum de ninguém menos que o professor Aídes José Gremião Neto, mestre em estudos literários pela UERJ, bem acostumado à escrita do amazonense. Coube a ele o posfácio, em que destaca “a postura empática e o senso de responsabilidade social” do autor.

Para ele, o livro tem importância para ressaltar o talento de Hatoum na crônica, uma vez que são os romances que lhe rendem prêmios Jabuti, mas o mesmo poder de encantar o leitor têm os relatos cotidianos, presentes nesta edição da Páginas

Sete Crônicas de Milton Hatoum
• Páginas Editora
• 72 páginas
• R$ 27,90
• Lançamento em 7 de julho
• Live com Milton Hatoum em 13 de julho no Instagram (@paginaseditora)

ENTREVISTA
Milton Hatoum

“A política socioambiental do governo é criminosa”


Você acha que a literatura deve ter uma função política e social no Brasil nos tempos atuais? Por quê?
 A literatura, principalmente a ficção, sempre tem uma abordagem social, política, simbólica e histórica. Isso pode ser mais ou menos ostensivo. Depende de cada obra e de como ela é lida. Às vezes, premidos pela ameaça de um governo obscurantista, escritores e artistas expressam sua indignação de um modo mais direto. Isso ocorreu durante a ascensão do fascismo na Europa, nas ditaduras na América do Sul, nos regimes opressores de países da África e do Oriente Médio.

Se o índice de leitura no país é baixo e as livrarias estão fechando, que futuro esperar do universo leitor?
O presente e o futuro do público leitor dependem de sua formação educacional. Como as crianças e os jovens leem ou são orientados nas escolas públicas? Perdemos um ano e meio de política educacional eficaz com um ministro absurdamente incompetente, vulgar, possuído por uma ideologia extremista. Essa política econômica e educacional desastrosa e irresponsável atinge toda a cadeia de produção e consumo em torno do livro. Mas acredito que uma mudança significativa na política poderá reverter essa situação dramática.

O que o leitor pode esperar desta seleção de crônicas?
Não sei. O leitor é tão misterioso quanto o ato da escrita. São crônicas de assuntos variados. Alguns textos podem ser lidos como contos ou recortes da memória.

Este projeto de publicação destina recursos para ONGs que dão assistência a indígenas na Amazônia. Fale um pouco sobre como percebe a situação atual desses povos, das terras que vêm perdendo e do tratamento que recebem das autoridades.
A política socioambiental deste governo é criminosa. “É hora de passar a boiada”, como disse, sem constrangimento, o ministro do Meio Ambiente. Nenhum governo anterior refletiu sobre a complexidade da Amazônia e de seus povos. A usina hidrelétrica de Belo Monte é apenas um exemplo dessa incompreensão e descaso. Mas nenhum governo foi tão cúmplice de grileiros e desmatadores a serviço de mineradoras e grandes fazendeiros.

O que se vê é uma política de extermínio das populações indígenas. É possível que haja uma restrição ou mesmo um boicote da União Europeia a produtos brasileiros. Nossa contribuição às ONGs indígenas é muito modesta, mas se milhares de pessoas fizerem isso, certamente terá algum efeito positivo.

É preciso também protestar contra esse crime em curso. Esse ministro do Meio Ambiente, investigado por crimes que cometeu em São Paulo, deve ser demitido.


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