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Estado de Minas MEMORIAL

Escritores e críticos narram convívio com Sérgio Sant'Anna

Autores utilizam suas ferramentas de trabalho para descrever a vida com o escritor carioca e o impacto de sua obra


postado em 15/05/2020 04:00 / atualizado em 15/05/2020 08:06

A noite, a bolsa, o palco e Satie

“Quando eu era jovem, me diziam: você vai ver quando tiver 50 anos. Estou com 50 anos e não vi nada”, escreveu Erik Satie. A frase é citada em Junk-Box, livro de poemas de Sérgio Sant’Anna, publicado em 1984. Em 13 de fevereiro deste ano, aos 78 anos, Sérgio participou da série Escritor na Biblioteca, na Mário de Andrade, em São Paulo. A convite de Josélia Aguiar, fiz a mediação ao lado do escritor Gustavo Pacheco. Estávamos todos muito felizes com a vinda do Sérgio. Não era fácil a locomoção, ele estava com um problema na perna. Vieram os dois filhos, Paula e André, além de amigos, leitores, admiradores e Sueli, gentil cuidadora que o acompanhou na viagem. Sérgio, eu não sabia, vinha cancelando participações em eventos em cima da hora, então todos temiam que ele abandonasse o barco. Mas o que aconteceu foi o oposto.

Com sua bolsa a tiracolo, Sérgio subiu no palco e conversou muito à vontade. Estava bem-humorado. Falou de política, de sua indignação com o governo, de como usava o Facebook para comentar o noticiário. Falou sobre o cansaço que sentia quando dava aulas na faculdade, já que os alunos tinham sempre a mesmíssima idade e ele ficava mais velho a cada ano. Falou sobre seus livros antigos, que continuam espantosamente atuais, como Amazona e Notas de Manfredo Rangel (repórter). Falou que na hora de escrever gostava de experimentar, de não repetir velhas fórmulas. Falou de como era influenciado pelas artes plásticas, pela música, pelo teatro, pelo cinema. Falou que via muita televisão.

Falou que tinha muito prazer em ler os jovens escritores brasileiros. Falou que se sentia como o Satie – só que, agora, perto dos oitenta. Foi uma noite memorável: a sensação era de que um dos maiores escritores vivos não tinha envelhecido. Continuava brilhante, ativo, autêntico, generoso, mordaz. Não sabíamos que era uma despedida.” 
Alice Sant’Anna é poeta e editora de Sérgio Sant’Anna na Companhia das Letras


Sérgio quer te contar algo

“Inquietação e curiosidade em doses cavalares sempre estiveram no cardápio literário de Sérgio Sant’Anna. Mas atenção: associar esses dois substantivos pode sugerir que a procura por novidade seja uma constante e, portanto, é preciso pensar em variações, mudanças, avanços, mesmo que a aparência geral aponte em algum momento para certa redundância. Senão, observe a quantidade de contos que são chamados pelo nome nos títulos. Conto (Não conto), Um conto nefando?, Um conto abstrato, Um conto obscuro, Estudo para um conto, O conto maldito e o conto benfazejo, O conto zero (aliás, também título do livro que o contém), O conto, Um conto límpido e obscuro e O conto fracassado, isso para não mencionar os que têm indicação, mesmo que indireta, do mesmo assunto, como Composição I e Composição II, Prosa e por aí vai.

O recado de Sant’Anna para o leitor não era muito subliminar: está sempre à procura do conto, do conto total, estilo Mallarmé, para encerrar e compreender todos os outros contos. Por essas e por outras devo ter errado quando decidi fazer dissertação de mestrado intitulada ‘A autobiografia do outro a respeito de um romance de Sant’Anna, Confissões de Ralfo (1975)’. Se tivesse entendido que o romance é apenas variante do conto no caso desse escritor, talvez pudesse ter acertado. Mas passei longe, nem te conto.”
Paulo Paniago é professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília


Pólvora, suor e cérebro

“Eu contava vinte e poucos anos quando descobri a obra do Sérgio com O voo da madrugada. Pensei ter descoberto a pólvora. Era inteligente. Divertido. Sensual. Irreverente e elegante. Era brasileiro. Sempre me intrigou que Sérgio tivesse Marcel Duchamp como ídolo. Além disso, em O livro de Praga, o narrador fala de Andy Warhol. São poucos os escritores de prosa narrativa ficcional que declaram ter no seu panteão de referências os artistas conceituais. Sérgio realizava uma operação sofisticada e igualmente de apelo popular: conjugava esses interesses com os temas do sexo, da música e do futebol. Uma literatura feita de suor e cérebro. Mestre absoluto em criar histórias sedutoras e com inquietação formal.

Cada texto seu parece fundar uma nova ideia do que é um texto. Ficção, memória, teatro, poesia, ensaio, descrição e pensamento se atravessam em romances, novelas e contos, como se, feito no conto Cenários, ele nos dissesse: ‘Não, não é bem isso’. Sérgio era um investigador carnal da escrita. Aos vinte e cinco anos, enviei um conto para ele e pedi sua opinião. No final da tarde do mesmo dia, Sérgio respondeu. Generosíssimo, me ofereceu palavras que guardo como um troféu. Eu não tinha publicado nada. Era o ano de 2010 e Sérgio, aos 68 anos, dava a largada para a sua última década de criação, que desaguou em cinco livros urgentes, cinco livros milagrosos. Que, como toda a sua obra, são pólvora.”
Leonardo Villa-Forte é escritor, autor de Escrever sem escrever

Meandros urbanos, infernos íntimos

“A obra de Sérgio Sant’Anna oferece um leque de possibilidades didáticas a quem lida com o ensino da literatura, podendo ser compartilhada com os alunos de diversas maneiras. Em aulas de teoria literária, por exemplo, ler os livros multifacetados do escritor permite aos alunos aprender sobre diferentes experimentos e estratégias ficcionais, entender as sutilezas e complexidades do processo de construção de personagens, investigar os cruzamentos entre ficção e realidade, estudar as técnicas de composição das narrativas breves.

Já nos cursos sobre literatura contemporânea brasileira, os contos, novelas e romances do autor são exemplares para o enfoque literário de questões importantes do Brasil ao longo das últimas cinco décadas, já que Sant’Anna sempre foi um exímio (e originalíssimo) intérprete dos acontecimentos políticos e sociais do país. Além disso, explorou os meandros da vida urbana, sondando ainda, por vias surpreendentes, os infernos íntimos dos personagens.”
Maria Esther Maciel é professora e escritora, autora de O livro dos nomes



Da arte dos encontros

“Conheci Sérgio Sant’Anna no tempo em que íamos à praia e os filhos eram muito jovens. Não vai aí nenhum privilégio. Creio que todos que circulam pelos espaços de literatura, teatro, artes visuais, já cruzaram com Sérgio. Afinal, além de ser um grande narrador do Rio de Janeiro, foi também um grande personagem da cidade. Disse uma vez: ‘O Rio é mesmo o meu cenário, pois nasci aqui e vivo aqui’.

Nas saídas de espetáculos, no pé-sujo da ECO/UFRJ, nas churrascarias de Botafogo, em Laranjeiras, no Largo do Machado – que levou para a literatura – era sempre uma alegria e uma provocação encontrar com o escritor, mesmo que estivesse caladão.

Alguns momentos foram especiais. Inesquecível a FLIP de 2007, onde, em leitura dirigida por Bia Lessa, interpretou, constrangido e machão, o Arandir do Beijo no asfalto. O mais importante, porém, foi o evento ‘Literatura latino-americana do século 21’, no CCBB do Rio, em 2005. No mesmo momento que em os oito escritores falavam, lançávamos o livro com suas narrativas antecedidas de escritos críticos. Os autores se apresentavam aos pares e a cereja do bolo foi Sérgio Sant’Anna ao lado de César Aira, ainda pouquíssimo publicado no Brasil. É claro que o encontro dos dois mestres da narrativa curta deu a maior liga. Sérgio nos cedeu Entre linhas, ainda não publicado em livro, mistura de ficção e teoria da escrita, bem ao gosto também do argentino.

A última vez em que nos encontramos, há não muito tempo, foi na abertura de uma exposição de artes visuais no MAR em torno de uma narrativa de César Aira. Fomos carinhosamente convidados pelo autor que, em sua fala inicial, saudou efusivamente o encabulado parceiro carioca. Depois, só por Facebook, onde comentava leituras, elogiava generosamente colegas e mostrava forte vitalidade ao se indignar com os desmandos dos boçais do Planalto.”
Beatriz Resende é crítica literária, ensaísta e professora da Faculdade de Letras da UFRJ 

Poderoso horizonte

“Sérgio Sant’Anna atuou como um poderoso horizonte em minha vida. Foi por causa da ousadia e do rigor estético, político, existencial  de sua obra que me interessei pela ficção brasileira contemporânea e me senti desafiado a perseguir essas qualidades em meu trabalho de pesquisador e ficcionista. O horizonte se corporificou em um vínculo pessoal intenso. Sérgio era um grande amigo, de gestos generosos e marcantes. Perfeccionista e amante do debate intelectual, me pediu palpites sobre alguns de seus originais, como o clássico O monstro, e me convidou para ajudá-lo na meticulosa preparação de seu Contos e novelas reunidos. Artista vibrante e atraído pela aliança entre criação e crítica, topou participar de meu livro-experimento Um olho de vidro: a narrativa de Sérgio Sant’Anna.

Leitor exigente e sensível, comentou em detalhes vários de meus trabalhos e presenteou-me com um belo prefácio para o Saber de pedra: o livro das estátuas. Nos últimos anos, Sérgio contribuiu, com entusiasmo, em dois projetos especiais para mim: a edição comemorativa dos 50 anos da RL – Revista Literária, da UFMG, veículo que publicou seu primeiro conto, e o livro Canção de amor para João Gilberto Noll, de quem era admirador. Olhando o grande volume de cartas, originais, livros, dedicatórias e e-mails que trocamos ao longo das três últimas décadas, bate um forte aperto no coração.

Talvez seja a profunda tristeza de saber que a fonte desse horizonte não está mais com a gente. Talvez seja a gratidão por ter vivido em um horizonte tão vasto. Talvez seja o consolo por pensar que horizontes não se dissipam, e sim se deslocam e se renovam. Em minha vida e na cultura brasileira, hoje tão vilipendiada, Sérgio foi, e auspiciosamente continuará sendo, um homem-horizonte.”
Luis Alberto Brandão é professor titular da Faculdade de Letras da UFMG

Sempre curioso, nunca acomodado

“Em um de seus diários, o escritor argentino Ricardo Piglia escreveu: ‘As relações entre escritores de outra geração são complicadas, porque cada um fala uma língua diferente, então acabamos nos entendendo num jargão inventado com retalhos do idioma pessoal de cada um e só conseguimos a incompreensão e o mal-estar’. Não sei em quem o Piglia estava pensando, mas certamente ele não conheceu o Sérgio Sant’Anna. Trinta anos mais velho do que eu, o Sérgio falava (e escrevia) num idioma muito fácil de entender: o idioma do amor pela literatura e pela liberdade artística, e da fúria contra a mediocridade e o fascismo.

Quando nos tornamos amigos, ele estava prestes a completar meio século de carreira literária e eu tinha acabado de publicar meu primeiro livro. Para minha surpresa, não só ele não tinha qualquer empáfia como estava genuinamente interessado no que gente mais jovem tinha a dizer. ‘O país já é tão fodido... então eu gosto muito quando sai alguma coisa boa daqui’, ele dizia, ao elogiar algum dos vários livros que recebia de escritores iniciantes. Essa postura receptiva e generosa para mim é a síntese do Sérgio, não só como ser humano, mas também como artista de primeiríssima grandeza, nunca acomodado, sempre curioso e aberto à novidade.”
Gustavo Pacheco é escritor e diplomata, autor de Alguns humanos

De brincadeira. E muito a sério

“Sérgio Sant’Anna desbravou províncias imensas na literatura brasileira e as povoou praticamente sozinho. Não por egoísmo, mesmo porque era o escritor mais generoso que conheci. Por originalidade mesmo. Criou o conto performativo, o não conto, o conto-conceito, o conto-ensaio, o conto-poema, o poema-conto, isso para não mencionar o romance-teatro e o experimentalismo inclassificável do anômalo – e muito querido por ele – Junk-Box. Ninguém teve mais fé na literatura e ninguém duvidou mais dela.

Ninguém a levou mais a sério e ninguém brincou mais com ela. Sérgio inventou praticamente sozinho nosso pós-modernismo, e ao mesmo tempo nossa crítica do pós-modernismo. Num país continental que tende ao ensimesmamento, muitas vezes ao paroquial, foi radicalmente cosmopolita, conversou com todas as vanguardas reais ou imaginárias, sem nenhuma sombra de deslumbramento e sem jamais se afastar do lastro do seu bairro, da sua cultura, da sua língua. A literatura brasileira mal começou a entender o tamanho da herança que ele deixa.”
Sérgio Rodrigues é escritor, autor de A visita de João Gilberto aos Novos Baianos

A literatura como vida

“Começo pela raiva. Quando soube que Sérgio Sant’Anna estava internado tive uma reação quase colérica. Já vinha morrendo um bocado de gente das artes, mas a perspectiva de perder o escritor justo agora, neste período aziago da história brasileira, era agoniante.  Não éramos amigos. Em 2005, eu e Sílvia Rubião o convidamos para abrir o projeto Ofício da Palavra, no Museu de Artes e Ofícios. Ele foi o primeiro convidado por ser o escritor favorito. Nunca mais estive com ele, pessoalmente.

Confesso que não sei definir a literatura de Sérgio Sant’Anna.  Os 15 livros que tenho dele estão todos lidos, alguns relidos. Em cada um deles encontro algo que me espanta e contagia. A transgressão súbita, o virtuosismo de pegada beat, a multiplicidade de temas, a pulsão da geografia carioca, a narrativa elegante até quando altamente sensual, a  melancolia e o humor de seus personagens, os enredos surpreendentes, o lirismo sem pieguice dos últimos livros – são muitos os recursos sob controle absoluto do escritor refinado e obsessivo.

A literatura era a sua vida e, quando esta lhe faltava, ele a inventava. Quando morre um escritor dessa estirpe eu choro em silêncio e fico de luto (foi assim com João Gilberto Noll, outro gigante). Depois, abro uma garrafa de vinho, pego um de seus livros e começo a ler, até sentir de novo a velha certeza. Até sentir que, naquele instante, a vida não consegue ser maior do que aquilo que estou lendo.”
José Eduardo Gonçalves é jornalista e editor da revista Olympio

Liquidações do início ao fim

“Minha história com Sérgio Sant’Anna começou, como quase tudo relacionado à literatura brasileira, numa liquidação. A livraria Vozes da cidade onde eu fazia faculdade estava para fechar e liquidava o acervo: lá comprei livros de Pynchon e um volume magrinho chamado Breve história do espírito. Era 1991. O conto que dava título ao livro era dedicado a “Tião Nunes e André”, e fiquei me perguntando se se tratava do próprio Sebastião Nunes, por cuja Antologia Mamaluca eu andava mamaluco, a ponto de tê-la afanado de uma amiga que ainda não me perdoou. Podia ser coincidência.

Já o André, como eu o ignorava então, também não tinha como adivinhar que seria o mesmo André Sant'Anna que assinaria a orelha do meu romance de estreia, a ser publicado a dez anos dali, num futuro acidental. Depois disso, li tudo do Sérgio, sempre embasbacado. Até o conhecer pelo André, que virou meu amigo, e receber, autografados, A tragédia brasileira e Junk-Box, este último editado, vejam só, não era coincidência, por Tião Nunes himself. E o circo se fechou.

A partir daí conheci meu apogeu ao dividir o picadeiro com Sérgio Sant’Anna na Feira de Frankfurt, na qual o Brasil foi homenageado em 2013, honra impensável para mim (a companhia do Sérgio, não a homenagem ao Brasil). Então não me furtei a dizer o que repito agora: que Sérgio Sant’Anna está entre os maiores escritores mundiais do século 21. E tenho dito, ou melhor, tenho lido o Sérgio desde aquela liquidação, e continuarei a lê-lo até o final dessa nova liquidação que sofremos hoje, e depois. E sempre.” 
Joca Reiners Terron é escritor, autor de A morte e o meteoro

Carne, osso e bolsa de tecido

“Caro Sérgio,
Desde criança, nunca soube muito bem me afastar: sou de chorar em todo adeus. Como tantos, ando exausta de me despedir. Mal dá tempo de recolher as memórias, de organizar o tamanho do buraco que fica. No âmbito coletivo, as mortes dos últimos dias têm nos adoecido como tribo. Não é pouca coisa. Despedir dá febre, já alertou Guimarães Rosa. O calor sinaliza algo, grita que é hora de ficar alerta à temperatura que brota da pele. Na busca por nos aquecer e passar juntos por esse luto, tem acontecido em muitos espaços uma espécie de réquiem literário em sua homenagem – no depoimento de leitores, no lamento dos colegas, na dor compartilhada dos tantos admiradores.

Por aqui, posso dizer que o outono carioca este ano será menos solar, e vai ser difícil a gente se aquecer. Preciso então lembrar de um novembro de 2016. Era uma tarde durante a Primavera dos Livros, nos jardins do Museu da República, no Bairro do Catete. Eu me encontrava a poucos minutos de te conhecer, na companhia de uma amiga em comum. Luto para disfarçar a emoção, pródiga em dizer bobagem quando apresentada a alguém que admiro.

Chega você e a tensão se dissipa de imediato diante da visão da sacolinha de pano a tiracolo, cheia de livros, detalhe banal que me diz muito e humaniza a lenda. Você foi absolutamente doce, as monstruosidades ficam no papel. Essa a memória que permanece do homem de carne, osso e bolsinha de tecido. Respeito muito a emoção das despedidas, mas considero igualmente o impacto das primeiras vezes. Torço, como professora, que os anjos, cenários, madrugadas, simulacros, confissões e todo o banquete servido em suas páginas chegue em mais e mais leitores.”
Stefania Chiarelli é professora de literatura brasileira da UFF

Do assombro ao acolhimento

“Vasculhava sebos feito um rato faminto no final dos anos 1980. Office-boy da Gazeta Mercantil, desprezava os atulhados fliperamas e agarrava-me feito um náufrago magricela e daltônico às páginas dos livros: a literatura iria me salvar. Só não sabia muito bem do quê. Esta certeza repleta de dúvidas latejava a cada autor descoberto nas poeirentas prateleiras. Lembro exatamente o movimento em direção ao surrado exemplar de O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, de Sérgio Sant’Anna. A ignorância me inundava por todos os lados. Desconhecia autor e livro. Ao folhear a coletânea de contos, o assombro: “O sexo não é uma coisa tão natural”. Afoito, li o início da narrativa: “Mas como é possível penetrar num corpo que não é o seu próprio, e ali permanecer, dentro de entranhas, visgos, líquidos, paredes vermelhas que se ajustam como luvas e, ainda mais, dão prazer?”.

Agarrei-me ao livro de capa um tanto brega e percorri a prosa poética, experimental, audaciosa de um escritor que me acompanha desde sempre. Mais de vinte anos após aquele inesquecível encontro, conheci-o pessoalmente ao convidá-lo para o projeto Paiol Literário. No auge da carreira, em 2009, sentou-se no centro do palco e, num misto de timidez e ironia, encantou o público por quase duas horas. Na plateia, olhava-o com a admiração juvenil e o espanto daqueles anos de descoberta. Logo de iInício, uma frase simples, mas certeira, atingiu-me: “Acho que a literatura pode mudar as pessoas individualmente. Mas sou um homem cheio de dúvidas”.
A potente literatura de Sérgio Sant’Anna mudou-me a cada linha, está em mim e acolhe-me nestes tempos de dúvidas e reclusão!”
Rogério Pereira é editor do jornal literário Rascunho e é autor do romance Na escuridão, amanhã.

Um ateliê de portas abertas

“Não há melhor homenagem a um escritor do que a releitura silenciosa dos seus livros. Foi o que fiz, desorganizadamente, desde que recebi a notícia da morte do Sérgio Sant’Anna. A forma curta nunca teve horizontes tão largos, chega aqui aos limites da experimentação e do próprio universo. Sempre unindo rigor formal e liberdade processual – seu ateliê de portas abertas para visitarmos o escritor que escreve. E não apenas: Sant’Anna abre diálogos altamente elaborados com outras formas de arte sem jamais deixar de ser muito divertido, até nos momentos mais trágicos.

Sinto que perdemos o mais contemporâneo dos contemporâneos, sua partida nos deixa órfãos de presente. E em um país que já está encolhendo. Entre tantas mortes trágicas, em menos de um mês perdemos os dois maiores escritores vivos do Brasil: Fonseca e Sant’Anna, o segundo em ebulição criativa até o final. É como se o Brasil estivesse se vingando de si mesmo.”
João Paulo Cuenca é escritor, autor de Descobri que estava morto

A metamorfose do cotidiano

“Sérgio Sant’Anna é um capítulo inteiro da literatura brasileira. Ele significa a permanência da economia textual de seus antecessores e, ao mesmo tempo, representa um avanço em relação às temáticas e à própria estética do conto. Deu-se bem no romance, mas são seus contos que mais me impressionam – e não somente a mim. O nonsense que neles habita é capaz de mesclar o mais profundo realismo a certas incongruências que, ao final da leitura, fazem um perturbador sentido. Seu avanço em relação aos temas é representado pela metamorfose do cotidiano em matéria de aproximação e afastamento.

Há, nesse dia a dia, algo que atrai, na medida em que nos sentimos incluídos numa existência factual, tão familiar, mas que, também, nos afasta dali, seduzindo-nos com uma universalidade sinistra, metafísica, devoradora, capaz  de nos jogar em cheio num espaço e num tempo transfigurados, mas que sabemos habitar em nós; ignorando isso, as personagens agem desnorteadas, aleatoriamente, como vítimas de uma força obscura da qual não atinam a extensão e a capacidade destruidora: é como se estivessem numa permanente pandemia, atiçada por um imperador maluco. A obra de Sérgio Sant’Anna permanecerá, ao lado das obras de Machado, Guimarães, Graciliano, e serão sempre capítulos exclusivos de nossa cultura.”
Luiz Antonio de Assis Brasil é escritor e professor, autor de Escrever ficção

Um contista por excelência

“Referência para toda a minha geração, que começou a escrever a partir de meados de 1970, Sérgio Sant’Anna costumava dizer que se não tivesse vivido em Minas, não teria se tornado ficcionista. Morou em Belo Horizonte na juventude: aqui publicou o seu primeiro livro de contos, O sobrevivente, em 1969, e fez parte da famosa Geração Suplemento, que gravitava em torno de Murilo Rubião, criador do Suplemento Literário do Minas Gerais, em 1966.

De volta ao Rio, sem nunca perder o vínculo com Minas, nem com os amigos, Sérgio Sant’Anna se tornou um dos grandes escritores brasileiros. Foi um contista por excelência; exigente ao extremo com sua escrita, e fez escola. A ele devo a leitura dos originais do meu primeiro livro, O sol nas paredes, a alegria de tê-lo entrevistado algumas vezes para o Estado de Minas, e o privilégio de ser seu leitor.”
Carlos Herculano Lopes é jornalista e escritor, autor de O vestido   

Sem medo de se revelar

“Caro Sérgio, 
Estão querendo saber minha opinião a respeito de sua obra e o impacto dela sobre mim. Devo confessar uma coisa: o modo como você expõe as entranhas da intimidade de seus personagens me causa perturbação. Esse desconforto, como eu disse a você naquela tarde em seu apartamento, é provocado por me ver retratado em muitas de suas narrativas. Não sei se você se lembra do seu comentário: ‘É preciso escrever sem medo de se revelar’.

Depois conversamos sobre relacionamentos amorosos, futebol e artes plásticas. Porque, como você mesmo fala, a literatura só pode vir das nossas experiências: tantos as prazerosas quanto as angustiantes. Mas afinal, você leu ou não a Ali Smith? Aguardo sua resposta. 
Um forte abraço, André.

As duas últimas frases desse texto foram extraídas de um e-mail enviado por mim ao Sérgio no último dia 2 de maio. O restante foi de conversas nossas por telefone ou em seu apartamento em Laranjeiras.”
André Nigri é jornalista e escritor, autor de Paralisia

O experimentalismo que não é estéril

“Para mim, como leitor, o melhor da obra de Sérgio Sant’Anna reside nas formas como ela abraça elementos muito díspares e deles dispõe com extremas liberdade, elegância e cuidado. É possível falar em ‘experimentalismo’ e ‘transgressão’, embora esses termos talvez nos pareçam gastos ou deslocados, mas Sant’Anna experimenta na medida em que se mantém aberto e atento ao que cada narrativa exige. Nesse sentido, seu experimentalismo caminha ao lado e apoia cada história, isto é, não a contamina ou chama a atenção para si, não é estéril.

O talento de Sant’Anna é tão evidente quanto o domínio que ele demonstra nos mais diversos registros. Há sempre um espaço generoso para que as vozes (dos personagens, das memórias e mesmo dos objetos) tomem as narrativas para si, coisa que me parece bastante difícil de se fazer, sobretudo no âmbito das formas breves. Só agora percebi ter escrito estas linhas no tempo presente. É uma forma de acusar o golpe, de sublinhar a perda, talvez. E, claro, de reiterar o fato de que a obra permanece.”
André de Leones é escritor, autor de Eufrates, entre outros romances

Um dos motores da Geração Suplemento

“Amigo e companheiro de Sérgio Sant’Anna na Geração Suplemento há 50 anos, convivi com ele do final de 1970 até 1977, quando se mudou de volta para o Rio de Janeiro, e mantivemos fraterno contato desde então. No final de 1971, voltando de quase um ano em São Paulo, encontrei-o de novo na redação do Suplemento Literário. Ele voltara meses antes de uma temporada em Iowa City, no International Writing Program — que rebatizou de Drinking Program por causa das farras que viveu com colegas de várias partes do mundo —, e trouxera de lá ideias novas para a literatura meio provinciana que imperava por aqui. Foi um dos principais motores dessa que foi a época mais criativa do SLMG.

Nossos encontros nos fins de tarde no Saloon, bar que ficava no quarteirão de baixo do Suplemento, contava com a presença constante de Fernando Brant, o que atraía os músicos do Clube da Esquina, do 14-Bis e variada fauna daqueles tempos efervescentes e criativos. Foi uma amizade tão firme quanto nossa devoção ao Fluminense Futebol Clube. Ele foi um dos irmãos homens que não tive. E o grande escritor da minha geração.” 
Jaime Prado Gouvêa é escritor e diretor do Suplemento Literário de Minas Gerais


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