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Estado de Minas

Essa terra não te pertence

No romance de estreia, o crítico literário Alejandro Chacoff une ganância, desterro e lembranças para ambientar no Mato Grosso um vigoroso retrato das contradições e desigualdades brasileiras


postado em 08/05/2020 04:00

“O dinheiro exercia alguma função narrativa que eu não entendia bem; era como a memória, ou a história”, constata o narrador de Apátridas. Citado na primeira frase do romance de estreia do crítico literário Alejandro Chacoff, o dinheiro é, como define um dos personagens de Esboço, de Rachel Cusk, “um país em si”. Na narrativa de Chacoff, a grana transita entre o Brasil e os Estados Unidos, entre o presente e o passado, entre a vergonha e o orgulho. “O dinheiro é também uma espécie de filtro, uma lente pela qual os personagens enxergam o mundo. Assume muitas funções: é fonte de ciúme, magnanimidade, repulsa”, conta o autor, em entrevista ao Estado de Minas.

Ensaísta e crítico de literatura da revista piauí, Chacoff não vê dificuldades em unir os mundos da criação e a reflexão. “A crença de que a ficção e a crítica são difíceis de conciliar é, na verdade, um desserviço aos dois gêneros: subestima a capacidade da ficção de atuar como veículo analítico e subestima a capacidade imaginativa que a boa crítica demanda”, acredita.

Nascido em Cuiabá em 1983, Chacoff foi para os Estados Unidos com dois anos de idade. Também morou no Chile, Argentina e Inglaterra antes de voltar para o Brasil para morar no Rio de Janeiro. A trajetória do autor por outros países certamente impulsionou a criação e se reflete no título do livro, palavra descrita como um “xingamento obscuro e versátil”. Interessa menos, contudo, delimitar invenção e memória. Mais pertinente é observar o que Daniel Galera descreve, na apresentação, como um “encadeamento de detalhes nítidos e su- gestivos”. “Ao mesmo tempo crônica familiar e testemunho das engrenagens profundas de um país colonizado e condenado ao atraso, no qual o dinheiro e a burocracia são a matéria-prima das relações afetivas e sociais”, aponta o autor de Barba ensopada de sangue e Mãos de cavalo, este último uma espécie de irmão mais velho de Apátridas.

Pontuado por lembranças imprecisas (“É difícil lembrar das primeiras impressões que tivemos  de um lugar”, “Lembro menos dos eventos em si”) e comparações inusitadas (“Meu pai era como uma revolução política violenta que arrasara a estabilidade institucional anterior”), Apátridas avança, sem sobressaltos ou solavancos, na direção de um rito de passagem ambientado em um território “extenso e monótono”. É o Mato Grosso “plano e aberto e muito vasto”, impulsionado pelas “promessas de prosperidade”, que se descortina em “campos e mais campos de vegetação rasteira num marrom melancólico de terra batida, e esse vazio imenso da paisagem se refletia num outro vazio, uma espécie de vazio narrativo.” 

Racismo, desigualdade social, desavenças políticas e conflitos familiares rendem algumas das passagens mais marcantes do romance de estreia de um autor que, com desenvoltura, segue o conselho recebido por seu principal personagem, enquanto observa um açude e “o gado esparso ruminando nas colinas que não eram bem colinas, mas elevações humildes de terra”: escrutinar o próprio lugar no mundo. 

(foto: Natalia Ginzburg)
(foto: Natalia Ginzburg)

"No fundo, eu estava insatisfeito com a relativa ausência da região na literatura atual. Assim como o Brasil é exotizado lá fora, algumas das regiões menos povoadas de nosso país são também exotizadas por aqui, como se servissem só para preencher certas ideias caricaturais de regionalismos literários."

Entrevista // alejandro chacoff

O dinheiro é mencionado na primeira linha do romance e, mais à frente, há a seguinte sentença: “O dinheiro exercia alguma função narrativa que eu não entendia bem; era como a memória, ou a história”. Qual a função narrativa do dinheiro em sua história?
O dinheiro tem uma importância narrativa específica na história. Da forma mais visível, ele rege a relação complicada, de afeto e desgosto, entre o avô, o pai, e o próprio narrador. Mas ele é também uma espécie de filtro, uma lente pela qual os personagens enxergam o mundo. Na ausência de uma memória coletiva ou memória histórica robusta, o dinheiro acaba assumindo muitas funções – ele é fonte de ciúme, magnanimidade, repulsa. Ele é um elemento que muda de feições            constantemente e tenta preencher os vazios. Ao mesmo tempo, como se sabe, o dinheiro é considerado vulgar, fala-se pouco dele, e é essa tensão inerente – de algo muito importante sobre o qual ninguém quer falar – que Apátridas explora. 

“Sempre tive receio de juntar mundos distintos, de fazer grupos diferentes de amigos se conhecerem, e o tempo tem provado que certa cautela é prudente: as consequências dessas interseções são quase sempre desastrosas.” Sentiu receio, em algum momento, de juntar o mundo da criação com o da crítica?

Há uma crença muito difundida de que a ficção e a crítica são difíceis de conciliar. Eu nunca acreditei muito nisso, e acredito cada vez menos. Essa crença é na verdade um desserviço aos dois gêneros: subestima a capacidade da ficção de atuar como veículo analítico e subestima a capacidade imaginativa que a boa crítica demanda. Os escritores que mais admiro têm certa promiscuidade na forma como tratam os dois gêneros, mu- dando de registro constantemente, enfiando um gênero no outro, escrevendo romances que contêm trechos de crítica literária e textos de crítica literária que se utilizam de técnicas ficcionais. 

 “Lembro menos dos eventos em si do que de uma sensação de plenitude filial que durou dois ou três dias.” “É difícil lembrar das primeiras impressões que tivemos do lugar.” As lembranças, quase sempre, surgem fragmentadas, ou imprecisas, em sua narrativa. Como você emprestou as suas lembranças, ou de outras pessoas, para o romance?

A incompletude é parte indissociável da memória, e queria de alguma forma incorporar isso ao romance, já que o livro é narrado por um protagonista adulto que retoma alguns momentos de sua infância e adolescência. É bem difícil fazer isso, porque muitas vezes o leitor quer ser tomado pela narrativa, não quer uma voz constantemente lhe ressaltando a natureza fragmentária de lembranças. Ao mesmo tempo, dar demasiada concretude e especificidade a memórias mata a verossi- milhança delas. É um dilema que me parece bonito, talvez sem resolução. De algum jeito, a forma de Apátridas, de ficção episódica, sem uma cronologia linear, tenta mimetizar um pouco como a memória se desenvolve. 

 “Na época, eu ainda estava sob o efeito narcótico das séries ame- ricanas a que assistia, com seus desfechos amarradinhos e arcos narrativos; queria forçar um fim para a história toda.” Acredita que as séries podem ter contribuído para a redução do número de leitores de romances nos últimos anos? 

Acho que a ascensão do audiovisual – cinema, televisão, computador – fez com que o romance deixasse de estar no centro da cultura já há muito tempo. A leitura é um hábito que demanda tempo e dedicação, e o tipo de gratificação imediata que a tela de TV ou o computador gera é demasiado po- deroso para que o livro possa competir como forma de entretenimento. Economicamente, isso é terrível – você torna os custos de escrever ficção proibitivos para muitos, e, se não houver incentivos (do Estado, de fundações, de quem seja) você acaba com um grupo muito pouco diverso de autores. Mas a ficção literária se tornou tão marginal na cultura que o escritor não tem mais nem que escolher entre um livro que venda pouco e um outro mais comercial, e talvez isso até traga uma indiferença salutar. Como um escritor argentino (reco- nhecido em seu país) me disse certa vez: “Por que vou vender a minha alma ao diabo e tentar escrever um best-seller por míseros quatro mil pesos a mais?” 

“(...) nada agradava mais à minha família do que saber de certas coisas do Brasil eram melhores que certas coisas dos Estados Unidos. Era como se os dois países estivessem sempre competindo em algum ranking metafísico...” Quais escritores brasileiros e norte-americanos ocupam os primeiros lugares de seu ranking pessoal?

Talvez por ter passado boa parte da vida em países diferentes, não penso em literatura em termos nacionais – há uma porção de autores diversos de países diversos que admiro. Dos brasileiros, Raduan Nassar é um autor ao qual sempre volto; dos americanos, James Salter e John Cheever estão entre os meus preferidos. Há muitos outros, é claro.  

“O Mato Grosso era plano e aberto e muito vasto, campos e mais campos de vegetação rasteira num marrom melancólico de terra batida, e esse vazio imenso da paisagem se refletia num outro vazio, uma espécie de vazio narrativo.” Consegue identificar “vazios narrativos” na literatura brasileira contemporânea?

No livro, o Mato Grosso acaba dividindo espaço com lugares mais famosos e cosmopolitas, como Santiago do Chile, São Paulo, Filadélfia ou Londres, mas no fim é o lugar que talvez receba mais atenção. Isso não foi intencional desde o início; foi um rumo que a escrita tomou aos poucos. Mas talvez o livro tenha se tornado o que se tornou porque, no fundo, eu estava insatisfeito com a relativa ausência da região na literatura atual. Assim como o Brasil é exotizado lá fora, algumas das regiões menos povoadas de nosso país são também exotizadas por aqui, como se servissem só para preencher certas ideias caricaturais de regionalismos literários. 

“Explicou-me que só assim se pode escrever. Escrutinando o seu lugar no mundo.” Esse também é um bom ponto de partida para quem deseja escrever?

Essa é uma frase de um personagem que tem ambições literárias que nunca se concretizam, e é uma frase ambígua, porque a ironia trágica por trás dela é que esse personagem – como muitos do livro – não sabe bem qual é o seu lugar no mundo ou nem sequer no microcosmo familiar, embora demonstre vez ou outra confiança em relação a essas questões. Em outras palavras: sim, é um bom ponto de partida, mas não é garantia de nada. 

Como o isolamento social imposto pelo coronavírus pode impactar a atividade literária?

Em teoria, o isolamento social deveria estimular a atividade literária, por possibilitar a reclusão e certa distância do corre-corre diário, duas condições que para muitas pessoas são fundamentais para a escrita. Por outro lado, a criação ficcional é algo que leva tempo para decantar, e talvez os registros mais poderosos do que estamos vivendo surjam só daqui a alguns anos. Falando por mim, posso dizer que tenho sentido muito desejo de ler nesse período, e um desejo mais oscilante de es- crever, talvez por ainda estar digerindo a experiência do confinamento. Há um ano, enquanto terminava de revisar Apátridas, a sensação era inversa. 

A boa literatura é apátrida?

Acho que o desejo de escrever emana muitas vezes de certo deslocamento – é difícil pensar em escritores totalmente integrados aos seus ambientes ou às suas famílias, sem conflitos internos, que tenham produzido bons livros. 


Apátridas 

De Alejandro Chacoff
Companhia das Letras
191 páginas
R$ 44,90

O crítico recomenda

Alejandro Chacoff indica três romances nacionais e três estrangeiros publicados no século 21

Daqui

Diário da queda
(Companhia das Letras), de Michel Laub
Neste romance autobiográfico, Laub usa um método inventivo e tocante para contar a história de três gerações de uma família afetada pelo Holocausto. É dos poucos livros brasileiros a adentrarem com confiança o terreno intimidante das grandes tragédias seculares europeias.

Janelas irreais: um diário de releituras
(Relicário), de Felipe Charbel 
Neste romance ensaístico, ou ensaio romanceado, Charbel usa as suas releituras (Bolaño, Cony, DeLillo, entre outros) para elipticamente contar algo de suas próprias experiências. Um livro bonito, na melhor tradição de diários intimistas, um gênero ainda pouco explorado na produção contemporânea brasileira.  

O Brasil é bom
(Companhia das Letras), de André Sant’Anna
É um livro de contos, mas poderia ser lido como romance – a cacofonia de vozes canalizada pela escrita de Sant’Anna traça um panorama desolador, tragicômico, e algo premonitório de um país que ficaria cada vez mais visí- vel após a publicação deste livro, em 2014. 

DE LÁ

Romances de Patrick Melrose
(Companhia das Letras), de Edward St. Aubyn
Este não é um romance, mas uma série de cinco, publicada no Brasil em dois volumes pela Companhia das Letras. É uma espécie de saga autobiográfica de um membro da aristocracia inglesa. St. Aubyn é um herdeiro da tradição cômica inglesa, mas a sua ficção é também sombria – os livros são muito engraçados, mas tratam com franqueza de temas como incesto, vício em heroína e alcoolismo. 

Dias de abandono
(Biblioteca Azul), de Elena Ferrante
Ferrante é mais conhecida pela sua brilhante tetralogia napolitana, mas esse livro, sobre uma mulher que é de repente deixada pelo marido, tem em forma miniatu- rizada (mas não em forma menor) todos os elementos que a tornaram mundialmente famosa. 
 

Esboço
(Todavia), de Rachel Cusk
Primeiro volume de uma trilogia que acompanha Faye, uma escritora recém-divorciada e reticente, enquanto ela ouve os monólogos das pessoas que encontra no seu caminho, seja em viagens ou em Londres, onde vive. O livro quase não tem trama, e a voz de Cusk na página é hipnótica. 


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