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Estado de Minas

Viagem à Índia inspira romance de escritora mineira

Jacqueline Farid lança Prana, que fala de suas experiências no país asiático que misturam realidade e ficção


postado em 06/03/2020 04:00 / atualizado em 06/03/2020 08:49

Obra de Jacqueline Farid é inspirada em viagem de 20 dias à Índia, entre descobertas e relatos de uma cultura surpreendente (foto: FOTOS: JACQUELINE FARID)
Obra de Jacqueline Farid é inspirada em viagem de 20 dias à Índia, entre descobertas e relatos de uma cultura surpreendente (foto: FOTOS: JACQUELINE FARID)

Viagens geram descobertas, vislumbres, experiências íntimas, relatos de valor literário. Mas os cenários, a cultura surpreendente, os cheiros, as cores, os costumes, crenças e comidas têm também o poder de lançar o leitor a grandes enredos ficcionais. Depois de figurar na lista dos semifinalistas do Prêmio Oceanos de 2018 com No reino das girafas (Editora Jaguatirica), Jacqueline Farid lança Prana pela Páginas Editora, amanhã, a partir das 11h, na Livraria Ouvidor. Uma viagem de 20 dias à Índia inspirou a escritora mineira a criar a saga de uma mulher madura na busca pelo pai e por toda história que dele pode advir, enquanto constrói sua própria biografia.

Prana, que vem do sânscrito e quer dizer energia vital ou sopro de vida, é o nome dessa mulher deslumbrada com os segredos da Índia. Nova Délhi, Agra, Khajuraho e Varanasi e Rishikesh vão oferecendo cada uma um pouco de chão a essa personagem, mergulhada em experiências que ocupam tanto o seu exterior quanto o íntimo. Os rastros deixados pelo pai na terra indiana acabam servindo para o encontro consigo mesma. As ofertas ao leitor são de realidade e de ficção.

E o elo com a Índia vem da cidade de Ouro Preto, de onde Prana partiu. As igrejas da cidade histórica mineira parecem diminuídas diante da devoção que a personagem presencia ali, onde medo e obediência não são componentes da religião. Os rituais são outros, mas o sagrado está presente o tempo todo e com isso ela se acostuma fácil. Além do lançamento deste sábado, Jacqueline Farid autografa Prana na Livraria Travessa de Ipanema (RJ), em 24 deste mês, a partir das 19h.
*Jornalista e escritora

''O que gosto é que meu olho percorra tudo sem compromisso e as epifanias de viajante, que são muitas, conduzam o meu caminho. Tenho muito interesse em brincar nessa fronteira entre ficção e realidade''



Trecho do livro

“Prana observava que as pessoas em Varanasi pareciam mais duras, mais sérias do que nos outros lugares nos quais estivera na Índia, mas paradoxalmente a devoção ali era ainda mais nítida, se esparramava de todos os olhares, todos os becos, espreitava em cada esquina para mostrar aos estrangeiros que a fé não apenas move montanhas, mas garante a paz num cenário de guerra. Entre o primeiro e o segundo crematórios, no meio do caminho, pouco acima da margem do Ganges, havia um largo sem calçamento, sem calçadas, no qual as pessoas caminhavam como se fossem trombar umas nas outras, mas isso não ocorria. Os ambulantes ofereciam de tudo um pouco e as lojas pareciam ser as únicas sobreviventes de um bombardeio ocorrido há tanto tempo que, mesmo deixando marcas, já tinha sido esquecido. A pobreza que emanava das casas e dos becos, o esgoto a céu aberto, o barulho ininterrupto de motos e de pessoas poderiam muito bem ser o endereço sem nome ou número de uma favela do Rio de Janeiro, mas o que fazia a diferença era que ali não se viam armas de fogo e a religiosidade parecia superior à pobreza, como se a oração fosse mais importante do que a comida.”


PRANA
. De Jacqueline Farid
. Editora Páginas
. 178 páginas
. R$ 39
. Lançamento: amanhã (7),    a partir das 11h, na Livraria    Ouvidor – Rua Fernandes Tourinho, 253, Savassi, BH



Entrevista

JACQUELINE FARID, jornalista e escritora

“A LEMBRANÇA É SEMPRE UM POUCO INVENTADA”

É o segundo romance que você escreve a partir de uma viagem, misturando realidade e ficção. Por que essa escolha?

As viagens permitem exercitar, naturalmente, uma ferramenta que considero essencial para a escrita, que é a contemplação. Além disso, as viagens são capazes de me redimensionar, de me contar coisas sobre mim mesma, as pessoas e o mundo que eu não tinha percebido antes. Tem também a questão do dispositivo, é mais fácil para mim criar a partir desse dispositivo da viagem, talvez esse seja um vício de jornalista. Mas creio que o mais importante seja que meu escritor predileto, Joseph Conrad, era um viajante. A gente sempre tenta, de alguma forma, mesmo sem planejar, homenagear quem mais admira.

Mas por que misturar ficção e relato de viagem, escrever um romance e não uma reportagem, por exemplo?

Eu não tenho nenhum interesse em fazer apurações de dados em viagem, como os preços das passagens, os melhores hotéis, as ofertas de passeios. Não tenho interesse nesse envolvimento com os lugares. O que gosto é que meu olho percorra tudo sem compromisso e as epifanias de viajante, que são muitas, conduzam o meu caminho. Tenho muito interesse em brincar nessa fronteira entre ficção e realidade. Na memória, essa fronteira é quase inexistente, a lembrança é sempre um pouco inventada. As minhas tramas surgem de situações reais, mas os personagens preferem se rebelar e ir por outro caminho e, nesse sentido, é como se a ficção me permitisse viajar de novo pelos mesmos lugares, mas com olhos emprestados.

O enredo vem antes ou depois das viagens?

O livro que escrevi após três viagens à Namíbia, No reino das girafas, não foi planejado. A ideia do livro veio depois da viagem. No caso do Prana foi diferente, eu fui a um retiro de ioga no interior do Rio quando nem pensava em viajar para a Índia, mas saí de lá não apenas decidida a fazer a viagem, como a escrever sobre ela. O nome Prana veio antes de tudo. No ano passado, fiz uma viagem para o Líbano também com o objetivo de escrever um livro, que é meu próximo projeto literário.

Como surgiu a ideia de misturar Ouro Preto e Índia?

Isso foi uma imposição da viagem. Ouro Preto surgiu para mim no meio da Índia, numa situação inusitada. Não havia como recusar essa oferta do acaso, essa armadilha dos deuses indianos. Em Ouro Preto, os templos religiosos são parte da paisagem, se sobrepõem a tudo. Na Índia, também a fé se materializa em construções belíssimas. Foi fascinante encontrar um fio de ligação entre elas.


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