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Novo romance do escritor Joca Reiners Terron escancara o genocídio indígena

'A morte e o meteoro' é uma distopia avassaladora sobre o extermínio de índios no Brasil


postado em 15/11/2019 04:00 / atualizado em 15/11/2019 10:27

(foto: Piu Dip/ SEc TV/ Divulgação )
(foto: Piu Dip/ SEc TV/ Divulgação )
 
Os versos de Shakespeare estão na epígrafe de Hotel Hell, romance que Joca Reiners Terron lançou em 2003. Dezesseis anos depois, o desnorteio do nosso tempo se reflete nas páginas de A morte e o meteoro. Aos personagens da narrativa vertiginosa, porém, não é oferecida a possibilidade de conserto. A sina é a desesperança.

Depois do estupendo Noite dentro da noite (2017), tour de force de quase 500 páginas sobre as memórias imprecisas do passado recente brasileiro, o cuiabano radicado em São Paulo volta com um romance bem mais curto, porém capaz de provocar idêntico (ou até maior) impacto. Temas recorrentes no noticiário estão presentes em A morte e o meteoro (Todavia): devastação ambiental, aniquilação da história, extrativismo, subjugação. Mas aparecem incorporados a uma trama ambientada em futuro próximo e conduzida por um antropólogo incumbido de garantir a sobrevivência dos últimos integrantes de uma tribo isolada depois da extinção da Amazônia. “Foi o primeiro caso da história das colonizações no qual um povo ameríndio inteiro, os 50 kaajapukugi remanescentes, pediu asilo político em outro país”, imagina Terron.

Funcionário de uma certa Comissão Nacional para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas, o burocrata é encarregado de levar os indígenas para um santuário no México – e a escolha do país dos astecas está longe de ser aleatória. Assombrado por delírios e traumas familiares, o indigenista enfrenta desventuras em série para cumprir a missão confiada. No fundo, ele não quer muito: diz almejar apenas a invisibilidade. É o que alcançará nas últimas páginas, mas não exatamente como imaginou.

Avassalador, o desfecho de A morte e o meteoro reafirma a certeza que poucos na literatura contemporânea brasileira narram com tamanha desenvoltura e convicção. Porque em situações extremas – e irreversíveis – pouco sobra além do mais aterrador dos sentimentos, descrito por Joseph Conrad na obra-prima Coração das trevas, adaptada ao cinema por Coppola em Apocalypse now: “O medo sempre fica. Um homem pode destruir tudo dentro de si, o amor, o ódio e a fé, e mesmo a dúvida, mas, enquanto ele se aferrar à vida, não consegue acabar com o medo: o medo, sutil, indestrutível e pavoroso, que toma conta do seu ser; que tinge os seus pensamentos; que se refugia no coração; que assiste dos seus lábios à luta do seu último suspiro.”

A seguir, uma entrevista com Joca Reiners Terron, que estará em Belo Horizonte na próxima segunda-feira. Ele participa do projeto Sempre um Papo com o gaúcho Paulo Scott, autor de Marrom e amarelo, outro grande romance lançado em 2019.

O que o levou a escrever A morte e o meteoro?  
Começou com o conto encomendado pela revista Granta, que corresponde ao primeiro capítulo do livro Grande Mal. Mas talvez tenha começado antes, com minha permanente indignação com o genocídio indígena. Sou mato-grossense. Ouço histórias sobre crimes contra os índios desde sempre. A carta branca dada pelo governo Bolsonaro acirrou as expulsões, perseguições e assassinatos.

Nas primeiras páginas, o romance faz menção ao “epílogo irrevogável” de período histórico qualificado pelo narrador de “psicose colonial das Américas”. Quais os sintomas mais evidentes dessa psicose?
Ganância, genocídio e destruição. O atual governo pretende ser a etapa final do processo iniciado em 1500. A afirmação do ministro da Agricultura de que a salvação do bioma é “monetizar a Amazônia” é um acinte para os povos originários que vivem naquelas terras repletas de nióbio, uma ameaça de morte.

No livro, quem representa o Grande Mal?
O homem branco é o Grande Mal. O personagem simboliza o que é o brasileiro, esse amálgama de ignorância, subserviência, de caráter violento e dúbio, que se veste sob a capa da suposta bondade atribuída pelos “valores cristãos”, mas no fundo não passa de um ladrão e assassino. Não me refiro aos pobres, mas à classe média e aos ricos. Em oposição a estes, temos as ontologias indígenas, que poderiam nos salvar de nós mesmos.

Por que decidiu trazer de volta a Curva de Rio Sujo, citada em livros anteriores?
Curva de Rio Sujo é o meu mundo, como Santa María é o de Onetti e Yoknapatawpha é o de Faulkner. Às vezes é uma cidade, noutras é uma região ou o bar flutuante em Lábrea, no Rio Purus. No romance em que trabalho agora é uma ocupação numa estação de metrô abandonada por onde passa um rio subterrâneo. É um lugar, mas também pode ser um objeto ou um fenômeno. Nasceu em Curva de Rio Sujo, livro de 2003, e criou ramificações em Noite dentro da noite, de 2017. É um espelho deste mundo aqui, só que um espelho distorcido, igual àqueles de parques de diversões.

“Um novelista é um historiador, o preservador, o detentor, o expositor da experiência humana”, defendia Joseph Conrad (1857-1924), ao afirmar que a “ficção é história, história humana, ou não é nada”. Concorda com o autor? A morte e o meteoro também pode ser lido como a narrativa de uma possibilidade de futuro? 
Pode ser lido assim, e certamente é história, uma história que se desenrola no presente. Nunca a ideia de futuro foi tão nula. O precariado a que as novas gerações são submetidas, o aquecimento global, a irrelevância da cultura como herança comum, tudo isso implode a potência do futuro. Mas nada disso mata mais a esperança do que esse presidente que aí está.

Em O labirinto da solidão, ao discorrer sobre o significado da morte para os astecas, Octavio Paz (1914-1998) lembra que, “para os antigos mexicanos, a oposição entre a morte e a vida não era tão absoluta quanto para nós (...). A morte não era o fim natural da vida, mas fase de um ciclo infinito. Vida, morte e ressurreição eram fases de um processo cósmico que se repetia, insaciável. Espaço e tempo eram ligados e formavam uma unidade inseparável”. Como a cultura de povos ancestrais latino-americanos, em especial a visão deles em relação aos mortos, influenciou A morte e o meteoro?  
O livro se passa no México, de onde coincidentemente envio estas respostas, pois vim dar um curso na Unam. Mais precisamente, se passa em Oaxaca, onde vive o narrador mexicano do livro, terra de zapotecos e mazatecos, entre muitos outros povos que celebram a morte. Também me inspirei na prática suicida entre os suruwahas do Alto Purus, assim como nas ontologias rapanui e sua valorização das tupuna, as ossadas de ancestrais através das quais eles se ligam ao passado. A forma com que esses povos lidam com o tempo se aproxima das teorias físicas mais recentes. É impressionante.

“Ninguém estava a salvo. Era o fim do mundo, o fim do seu mundo. E estava tudo bem.” O desfecho de Noite dentro da noite antecipa a visão apocalíptica de A morte e o meteoro. Foi intencional? Quais outras conexões consegue estabelecer entre seus romances mais recentes? E as diferenças? 
Parece que o fim do mundo é meu único tema. Meus últimos romances têm intensificado essa obsessão, com Noite dentro da noite como epicentro. Creio que todos falam de alguma forma de como o fim do mundo é diacrônico. Por exemplo, os indígenas: o mundo deles já acabou, mas continuam aqui. São projeções do passado que permanecem aqui para nos ensinar. Já aquele homem que vive na rua e arrasta um carrinho de supermercado com suas tralhas: o mundo dele também já acabou, enquanto o seu, que o vê sem ocupar o mesmo plano que ele, está em vias de acabar. É disso que meus livros tratam.

“O expansionismo militar e extrativista pela Amazônia invadia territórios indígenas e a política preservacionista que permitiria remarcações de reservas ainda estava longe de se tornar realidade.” Essa passagem do livro espelha um tema atual no noticiário. Como os fatos influenciaram a sua ficção?
Terminei de escrever o livro em março deste ano, e o noticiário já ventilava esse vento podre, que acabou contaminando a narrativa. Um escritor não tem outro assunto, a não ser o tempo em que vive.

A morte e o meteoro se passa em futuro próximo. O que falta para se tornar presente?
O livro se passa em 2035. Faltam viagens tripuladas até Marte, que estão previstas para esse período, mais ou menos. Falta o capítulo final da guerra contínua entre ricos e pobres. Falta muito pouco.

“Decidi me habituar ao fato de estar aqui parado no mesmo lugar, imóvel, porém com a cabeça em chamas.” Essa também é a definição para um escritor no Brasil de 2019?
É a definição para todo brasileiro com consciência crítica. Estamos parados, à espera de que o pesadelo termine.

“Descobri que unindo uma frase a outra e outra a mais outra poderia obter soluções para as questões mais complexas da vida” (Hotel Hell, 2003). Mais de 15 anos depois, conseguiu obter soluções ou as questões se tornaram ainda mais complexas?
Esse livro era marcado por uma tocante inocência niilista e adolescente, embora eu não fosse mais adolescente quando o escrevi. O mundo é uma pergunta sem resposta.


A morte e o meteoro
De Joca Reiners Terron
Todavia
120 páginas
R$ 49,90
Lançamento: `
Sempre um Papo com Joca Terron e Paulo Scott. 
Dia 18 de novembro, às 19h30, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes, em BH, com entrada franca


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