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Estado de Minas ENTREVISTA

"Escrevi como se fosse futuro, mas já é o presente", diz autor de romance sobre devastação da Amazônia

Autor de 'Não verás país nenhum', escrito em 1981, Ignácio de Loyola Brandão fala sobre colapso ecológico, governos autoritários e escassez de recursos


postado em 27/09/2019 04:00 / atualizado em 27/09/2019 08:25

Loyola sobre o livro escrito em1981:
Loyola sobre o livro escrito em1981: "Não antecipei nada,só exagerei" (foto: ignaciodeloyolabrandao.com.br)

A distopia premonitória de Ignácio de Loyola Brandão, de 83 anos, eleito em março para a Academia Brasileira de Letras, levou o escritor paulista a imaginar no início dos anos 1980 um cenário prospectivo que, se criticado e tido por absurdo à época, hoje, dialoga com áspera realidade. O romance Não verás país nenhum (1981) é o segundo da trilogia iniciada com Zero (1974) e encerrada com Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela (2018). Se Zero, que aponta o dedo aos horrores da ditadura militar, foi traduzido para diversos idiomas sob o epíteto conferido por Antonio Cândido de “realismo feroz”, Não verás país nenhum tem em Souza, o narrador-personagem morador de São Paulo, o arauto de um futuro em que o colapso ecológico ameaça a sobrevivência. São tempos de extermínio de florestas, de calor insuportável, seca, que traz escassez de água e de alimentos, combinados com um governo autoritário, que falsifica a história e exerce a violência do estado de formas variadas, oprimindo a população.

“Não antecipei nada. Só exagerei à época as notícias que estavam diante de mim. Já se falava do desmatamento, do problema da água, os cientistas previam na década de 1970 o aquecimento global. Eu fui descobrindo pequenas notícias e, como ficcionista, exagerei: tinha quatro mil recortes de livros, jornais, revistas que deram lastro ao livro”, conta Loyola Brandão, cuja imaginação, perspicácia e inteligência correram à frente da realidade para prospectar o futuro que se faz presente. “A realidade hoje é tão absurda que tem de trabalhar com a ficção e a fantasia, a distopia. Não dá para fazer um livro realista, então você tem que fazer uma metáfora”, afirma o autor, que tomará posse na Academia Brasileira de Letras em 18 de outubro. “Escrevi o livro como se fosse no futuro, mas agora é o nosso presente. Está tudo aí”.

Como Não verás país nenhum dialoga, 40 anos depois, com a realidade brasileira?
O aquecimento global está aí, ainda que alguns digam que não exista. E veja que Karl Marx jamais escreveu sobre mudanças climáticas. Inclusive, há um documentário emblemático, chamado Quentura, e uma jovem chamada Mari Corrêa (Instituto Catitu). Ela percorreu três regiões amazônicas colhendo depoimentos e mostrando a realidade de mulheres de três etnias. Todas constatam o mesmo: o clima mudou, está quente demais, já não se sabe mais quando é verão. Incêndios florestais duram meses seguidos. Áreas ricas em biodiversidade são destruídas. Peixes estão escassos. Esse documentário mostra a agricultura completamente desmantelada e destruída com as mudanças do clima provocadas pela devastação da floresta e queimadas. Pois antes o índio plantava em determinada época e colhia em determinada época. Essas épocas desapareceram. Para mim, basta esse pequeno exemplo para mostrar as mudanças climáticas. Apesar disso, os delírios estão na base do governo Bolsonaro, falando que o aquecimento global seria um problema de marxismo, comandados por um guru, astrólogo, de fora. Estamos diante de algo que nunca vi em minha vida. Aliás, abordo em meu novo livro, Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela, uma outra distopia, em que foi eleito o primeiro presidente sem cérebro. É triste. Deveria ter escrito outro livro lindo e feliz. Se escrevi este e deu o que deu, deveria ter escrito um livro feliz.

O senhor tem alguma palavra animadora para uma nova obra de ficção?
Vamos um dia nos juntar para formar um país. Pois é impressionante como tem muita gente preparada, com boas ideias e projetos. Mas, infelizmente, querem destruir essa gente boa, que são os pesquisadores, os professores, os filósofos, os sociólogos, os cientistas com visão clara das coisas. Queremos esse país com essas pessoas. Não de um mero capitão expulso do Exército, que está se vingando da sociedade. Para o futuro, provavelmente seremos ou muito felizes, ou muito infelizes ou não existiremos mais. O que a gente não pode perder é a indignação contra essa loucura que está aí. Como escritor, a vida inteira fui indignado e vou continuar sendo. 


Não verás país nenhum 
De Ignácio Loyola Brandão
Global (27ª edição)
384 páginas
R$ 59

Podcast 

Ouça o podcast do Pensar sobre a Amazônia, com entrevista de Ignácio de Loyola Brandão e depoimentos de bombeiros mineiros que trabalharam no combate às queimadas na região, no site em.com.br


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