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Estado de Minas

À sombra de Cancún

Em romance de formação, Miguel Del Castillo mergulha 'com rigor e serenidade' no lado menos glamouroso do balneário mexicano para promover o encontro de um filho com o pai que assombra suas lembranças


postado em 05/07/2019 04:09

O carioca Miguel Del Castillo revela o que o interessou em Cancún:
O carioca Miguel Del Castillo revela o que o interessou em Cancún: "A possibilidade de produzir e acolher afetos, mesmo sendo um lugar tão turístico e kitsch" (foto: Carolina Ribeiro/Divulgação)

Se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho...”. Os versos de Dias de luta, da banda paulistana Ira!, poderiam estar na epígrafe de Cancún. O livro de Miguel Del Castillo, carioca radicado em São Paulo, é um romance de formação – e de contenção – sobre as descobertas e desacertos do jornalista Joel com um pai fisicamente ausente e eticamente maleável, mas onipresente nas lembranças do filho. Narrado de forma rigorosa em dois tempos, com alternância de vozes narrativas a cada capítulo, o sereno Cancún tem seu clímax na incursão do protagonista no lado menos glamouroso do balneário. O contraste entre a zona hoteleira e a zona atolera, região mais pobre da cidade mexicana, espelha a distância entre o homem gravado na memória e o revelado pela viagem de Joel ao local onde o pai morou por quatro anos e deixou o “maior buraco” de sua biografia. 

Como apropriadamente resume Daniel Galera na apresentação, a narrativa é conduzida com “firme serenidade” em um relato “impecavelmente estruturado, no qual a família é a expressão imperfeita e acolhedora dos mistérios da vida”. A reconstituição da adolescência na Barra da Tijuca no final dos anos 1990, impactada pelo desmoronamento do Palace II (“Aquele edifício, agora desfigurado, como uma boca aberta da qual metade dos dentes foi arrancada”), vem acompanhada pelo senso de tragédia, forte o suficiente para dominar a forma de enxergar o mundo ao redor. “Quem garante que seu prédio não será o próximo a desmoronar? Sua escola estaria a salvo?”, pergunta-se o narrador. 

Experiências marcantes da juventude, como a iniciação amorosa durante um aniversário em salão de festa de prédio de condomínio e o arrebatamento durante batismo em igreja evangélica se sucedem enquanto o trintão Joel tenta, no presente, dar conta do fantasma que o assombra. “Olho-me no espelho e vejo meu pai. Desvio o olhar para baixo”, diz o protagonista, antes de uma constatação perturbadora: “Traímos, sonegamos, burlamos, subornamos, contornamos, mentimos, subtraímos, odiamos, ignoramos, desprezamos, ofendemos, em maior ou menor grau, com consequências mais ou menos graves, em público ou em privado, e ainda assim temos uma enorme capacidade para o amor”. 

Um dos 20 autores selecionados em 2012 pela revista britânica Granta para a edição Os melhores jovens escritores brasileiros, Del Castillo nasceu em 1987 e lançou anteriormente a coletânea de contos Restinga (2015). Na Flip, ele participa de mesa com a venezuelana Karina Sainz Borgo (de Noite em Caracas), na próxima sexta-feira, dia 12. A seguir, uma entrevista por e-mail com o escritor.

Como foi partir de Restinga para Cancún?
No fim do Restinga escrevi um conto mais longo, ou novela, chamado Laguna. Escrever um romance, ou seja, experimentar com uma forma mais longa ainda, era algo que me atraía, assim como continuar a história do conto Cancún, também publicado no Restinga. O romance foi um pouco resultado disso. Mas foi um desafio, de certa maneira: na vida com dois filhos pequenos e um emprego CLT em que estou oito horas por dia, sobra pouco tempo para escrever – e esse tempo que resta é bastante picado. Por isso também foi importante ter tido a oportunidade de participar da residência literária da Fondation Jan Michalski, na Suíça, ano passado, quando por algumas semanas pude me dedicar em tempo integral ao livro.

Como ficcionista, o que o atrai no balneário mexicano? 
Algumas coisas: a catarse que a estadia lá representa para algumas pessoas, seja para se esbaldar na noite, seja para relaxar na praia; a “outra Cancún”, como diz o personagem, isto é, a cidade que o balneário esconde, com partes muito pobres e onde mora a maioria dos trabalhadores de hotéis e atrações turísticas, bem como o dia a dia deles; e, no caso específico do meu romance, a analogia com a Barra da Tijuca, bairro no Rio onde o personagem mora –  que, com seus condomínios fechados, flats, hotéis, shoppings, pouca possibilidade de trânsito de pedestres e a utopia da praia, é quase que uma Cancún metropolitana. Por fim, tanto em Cancún quanto na Barra da Tijuca, algo que me interessa explorar é a possibilidade de esses lugares produzirem e acolherem afetos, mesmo sendo tão turísticos, kitschs, artificiais, ou seja lá que adjetivo se queira dar.

Chegou a recorrer a memórias pessoais para impregnar as lembranças da adolescência de Joel no Rio de Janeiro?
Sim. Alejandro Zambra (chileno, autor de livros como Bonsai) tem um conto delicioso, que traduzi para a piauí, em que um jornalista fica na cola de um escritor durante uma viagem de trem pela Europa, querendo entrevistá-lo. O autor enfim cede, e, depois de algumas perguntas iniciais, ele chega aonde de fato queria: “Quanto de ficção e quanto de realidade há nos seus livros?”. O escritor pensa e enfim responde: “32%”. Eu diria que é algo por aí. 

Por que a escolha de diferentes pontos de vista, alternados a cada capítulo? Para delimitar os tempos narrativos? Quais as vantagens do recurso?
Foi uma forma de distanciar e diferenciar melhor os dois tempos narrativos, mas também de evidenciar a própria escrita do romance por parte do personagem, digamos: no presente, com trinta e poucos anos, ele escreve em primeira pessoa, e quando se refere aos seus doze a catorze anos, a narrativa fica em terceira pessoa, como se ele mesmo estivesse olhando para trás e repensando a própria história. Acaba sendo uma maneira de dar forma a um dos temas do romance: como contamos nossa própria história?

O “senso de tragédia iminente” assombra as páginas, por meio do contato do narrador com o desmoronamento do Palace II e também com a reação dele ao massacre de Columbine. O convívio com tragédias é característica das novas gerações?
Acho que sim, e ao mesmo tempo elas parecem ter cada vez menos impacto na gente, não é? Precisa surgir uma fotografia forte como aquela do menino sírio Aylan, seu corpo sem vida deitado, como se dormisse, na praia de uma ilha grega, após o bote em que ele  e outros migrantes tentavam a travessia desde a Turquia virar. De repente todo mundo “acordou” para a questão da migração, pro conflito na Síria etc. Essa foto já tem quase quatro anos (fui pesquisar, achava que era mais recente) e é impossível de esquecer. Mas outras tantas imagens e notícias que chegam a nós são atropeladas por esse fluxo intenso, e as tragédias acabam entrando nesse balaio e são atenuadas, pasteurizadas pela nossa própria mente. Pode ser negligência, sim, mas também não deixa de ser uma forma de conseguir sobreviver a tudo isso, quase que um mecanismo de defesa do cérebro, talvez. Algum pesquisador deve ter se ocupado disso...

A influência dos pais é citada na epígrafe de O africano, de J.M.G. Lé Clézio. A distância entre pai e filho é descrita como “um cristalino abismo, uma distância que nunca foi revertida”. Este era um dos temas que o interessavam narrar em Cancún? Poderia citar outros exemplos na literatura, brasileira ou internacional, de romances que abordam a relação entre pais e filhos?
Sim, certamente era um dos temas. Romances sobre a relação entre pais e filhos há inúmeros, talvez seja um dos grandes temas da ficção. Vou citar apenas alguns que de alguma forma se relacionam ao Cancún, pois me acompanharam durante a escrita, além do próprio O africano, do Lé Clézio: Pelos olhos de Maisie, do Henry James, um livro sobre como a menina protagonista enxerga o mundo adulto, com um narrador em terceira pessoa bastante colado na experiência dela; A morte do pai, primeiro dos romances autobiográficos do Karl Ove Knausgård (baita livro: a segunda parte, quando ele volta para enterrar o pai, é muito impressionante); e Formas de voltar para casa, do Zambra, cujo tema principal é como os filhos da ditadura se relacionam com uma memória de algo que não viveram, ou que viveram apenas como crianças, mas que impregna quase tudo o que fazem – a relação dele com os pais, que talvez tenham sido coniventes ou não feito nada a respeito do regime militar, é peça-chave do romance.

“Ultimamente tenho a impressão de estar lendo cada vez mais devagar; o vício em séries não ajuda.” Acredita que a constatação de Joel se aplica também ao leitor no século 21? A profusão de ofertas de séries e outros conteúdos audiovisuais tem reduzido o hábito de leitura? É uma tendência irreversível?
Sim, acho que isso é 100% o leitor no século 21, que além das séries e podcasts (que agora pode baixar e ver/ouvir no transporte público, inclusive, onde normalmente se costumava ler), tem todas as redes sociais para dar conta, as notícias, newsletters etc. Às vezes gastamos mais tempo lendo pessoas falando sobre livros do que lendo livros de fato, por exemplo. Também há um cansaço e um desinteresse por textos mais longos, por conta disso tudo. Se é irreversível ou não eu não sei dizer, mas teremos de lidar com isso e tentar usar o tempo de modo mais ativo e menos passivo, criando espaços para a leitura.

A representação da fé evangélica é incomum na literatura brasileira contemporânea. A que atribui a ausência?  
Tudo que é alheio a um autor pode ficar de fora de sua literatura, seja por desconhecimento, preconceito ou desinteresse mesmo. Nunca dá para abarcar tudo. Mas acho que é recente e ainda incipiente a constatação do meio cultural de que “os evangélicos” (coloco entre aspas pois este é um movimento muito plural e com muitas doutrinas, pessoas e lideranças bastante diferentes) precisam ser ao menos ouvidos, ou melhor, que é preciso entender suas demandas (o que passa por constatar essa pluralidade que mencionei), por mais que não se concorde com elas, já que mais que provaram sua força recentemente – afinal, uma parcela da categoria foi fundamental para eleger nosso atual presidente (infelizmente, a meu ver).

E como foi a sua abordagem? 
Tentei fugir dos clichês de quando se fala dessa religião e de seus seguidores. Procurei ser respeitoso e mostrar a complexidade das pessoas, o modo como essas comunidades podem ser muito amorosas (ou não) e ao mesmo tempo às vezes colocar um peso enorme sobre quem as frequenta. Tentei explicitar que a busca pela espiritualidade neste segmento pode ser algo genuíno, e não um mero escape da realidade (é curioso que hoje muitos acreditem em signos, façam seus mapas astrais etc., e sigam desprezando outras buscas espirituais –  a dos evangélicos, por exemplo –, como se o que estão fazendo não se tratasse disso também). Acho que quando se procura realmente conhecer e entender algo, seja lá o que ou quem for, logo se descobre que não dá para se apegar a estereótipos, que nada é tão preto no branco assim – ou seja, a complexidade da vida se impõe, sempre, a um olhar verdadeiramente atento.

Trecho do livro

“Penso nos meus pais, e nos pais em geral. Nas histórias sobre si que nos contam, nas que nunca nos contarão. E naquelas que nos revelam porque falamos algo, por vezes trivial, que os faz recordar determinada coisa. O conhecimento que temos dele aumenta a conta-gotas ao longo de nossa trajetória. Será que escolhem deliberadamente o que vão nos dizer, ou é algo aleatório? Nossa vida seria melhor se soubéssemos de tudo ou de quase jovens adultos, no período antes de nascermos e enquanto ainda éramos pequenos demais para nos lembrar? Isso preencheria uma lacuna que temos, ou seria pior, como no seriado?”

“No caso do meu pai, além da eterna especulação sobre a possibilidade de ter um meio-irmão levando uma vida própria e distante de mim no México ou em outro país, o que ganhei ao saber mais sobre a vida dele em Cancún? Precisarei destrinchar sua memória até o ponto de implodi-la e não restar mais nada?

Cancún

De Miguel del Castillo 
Companhia das Letras
168 páginas. 
R$ 44,90



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