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Estado de Minas

MERGULHO EXISTENCIAL

Em seu primeiro romance, finalista do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, o músico e escritor Cláudio Costa Val entrelaça recortes dramáticos de presente e passado ao contar o regresso do protagonista à fazenda onde passou a infância e a adolescência


postado em 21/06/2019 04:09

O músico e compositor Cláudio Costa Val é também diretor, roteirista, ator, produtor, professor de cinema e autor de três livros(foto: FILIPE TAVARES/DIVULGAÇÃO)
O músico e compositor Cláudio Costa Val é também diretor, roteirista, ator, produtor, professor de cinema e autor de três livros (foto: FILIPE TAVARES/DIVULGAÇÃO)





Quando se vive a plenitude da vida, ninguém está imune ao presente, passado e futuro. Nem mesmo as coisas! De regresso – lançado pela Páginas Editora em 2019 – é o título do terceiro livro do escritor mineiro Cláudio Costa Val e o primeiro do autor no gênero romance. Texto que, pode-se dizer, conta com um passado singular, considerando que o romance foi um dos finalistas do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, em 2016. A história se inicia com Marco Antônio, personagem central do livro, regressando à sua terra natal, no Norte de Minas, após ter vivido anos no exterior. Ao transpor os limites geográficos que o separavam de seus entes queridos, junto a ele estarão, nos dias que se seguirão, seu passado e futuro, numa simbiose bem-amarrada pelo autor. Mas o tempo presente é árido, assim como a região onde a história se passa. E ele, o tempo rei que devora tudo e todos, não será benévolo com os personagens, mas também não lhes furtará glórias e alegrias.


O autor assegura, nas primeiras páginas, que a narrativa proposta transportará o leitor para os recortes, para os ângulos que ele – Costa Val – quer que o leitor observe na saga do protagonista em seu regresso, como no trecho: “Os passos decididos, trilhando ao centro da estrada, fizeram-no chegar a uma porteira. Mais que isso: à entrada de uma fazenda...”. Com frases ora sintéticas, ora descritivas, Costa Val vai incorporando ao retorno de Marco Antônio elementos que vão cuidadosamente nos mostrando peças de um quebra-cabeça ainda por montar no decorrer da leitura.
Os 29 capítulos agrupados compõem uma história com várias tramas, em um panorama nublado que vai, aos poucos, nos revelando os sonhos e a realidade do protagonista e dos antagonistas. O autor nos apresenta a história de Marco Antônio, mas certas passagens poderiam ser recortes da vida de cada um dos leitores da obra. O regresso pode ser uma visita às Minas Gerais, mas pode ser, também, um regresso ao nosso próprio passado, às Minas que são muitas e que se ampliam dentro de cada um de nós.


O personagem central, ao ser acolhido na fazenda onde passou a infância e a adolescência, se conecta com seu passado e futuro quase que simultaneamente (a história se passa em dias, o que foi uma boa “sacada” do autor). Imbuído de todas as vivências dos anos que passou descortinando outros lugares no mundo em busca do sonho e do norte que traçou para si, Marco Antônio volta ao lugar de origem impulsionado por uma situação plausível e convincente. Aos poucos, o autor vai revelando ao leitor uma boa história, em meio aos anseios e expectativas do homem maduro que revisita o lar paterno.
Cada personagem apresentado por Cláudio Costa Val é também um mergulho na estrutura psicológica de cada um. Bem construídos e bem amarrados, eles giram em torno de Marco Antônio. Inserido na rotina da fazenda, com sua presença, tira todos eles de certa cartarse, ampliando horizontes além-montanhas. Detalhes do passado de cada um vão vindo à tona de maneira sutil, ao mesmo tempo em que nos são apresentadas situações simples do cotidiano, mas que, na trama de Costa Val, pesam e nos levam a reflexões, como o caso do antagonista Antônio Pedro, que desenvolveu o gosto por livros e por música para ter mais assuntos com Marco Antônio.


Marta, outra personagem antagonista, traz outras abordagens e superações sobre a própria vida. Ela, assim como algumas mulheres em De regresso, está enraizada na região de Minas Gerais onde se passa o romance; já outras estão cicatrizadas na memória de Marco Antônio. Cada personagem está, de alguma maneira, superando dramas pessoais. As mazelas humanas e o destino traçado revelam um futuro incerto entre os arames farpados que cercam a fazenda. Quem terá impulso ou coragem para transpor, ainda que metaforicamente, as cordas de aço cortantes? As crianças Denise e Miguel apresentam outras perspectivas na narrativa entre os personagens adultos da trama de Cláudio. Com a vida inteira pela frente, elas buscam superação física e emocional, devido a vivências intensas no passado recente que lhe deixaram marcas. Em meio ao regresso do protagonista, uma espécie de “filho pródigo” que retorna ao lar, Denise e Miguel passarão por provações ainda mais fortes.

HISTÓRIA
FRAGMENTADA

Os recortes das paisagens rurais do Norte de Minas entremeiam os acontecimentos, suavizam a narrativa, mas a solidão que desponta nas linhas desperta reflexões sobre a vida que segue. Viver irremediavelmente implica ganhar ou perder coisas ou pessoas ou reencontrar coisas ou pessoas. Oportuniza revisitar o passado no presente. E Cláudio Costa Val nos conduz em uma história fragmentada, sintética, cheia de reviravoltas, como a vida é. O autor, num dado momento, nos presenteia, na página 107, com uma possível referência à dramaturgia de Pedro Calderón de La Barca, quando a antagonista Marta tem contato visual com um objeto no qual está escrito “La vida és sueño”. Ela espia o objeto assim como espiamos a vida alheia.
Mas, no contexto de De regresso, a frase em espanhol soa irônica porque a vida dos personagens e a nossa, dos leitores, além de emocionar, encantar, surpreender, também apresenta situações que cortam como aço de punhal. Alguns personagens vivem, ainda que sutilmente descritos pelo autor, em um mundo de sonhos, porém cercados de escuridão, em cativeiros que eles mesmos ou o destino criaram. Eles poderão se libertar se, a seu modo, cada um deles dar um passo por vez, num esforço individual e ao mesmo tempo coletivo rumo ao que almejam para si. O autor incorpora outro idioma à narrativa, espanhol, cita grandes nomes da arte, revelando o nível intelectual de alguns de seus personagens. Assim, Minas, distante do mar, já não se mostra tão isolada entre montanhas.


De regresso é um livro que se assemelha a histórias de muitos mineiros que descem as montanhas e vão além-mar. Ou de muitos outros que deixam o conforto da casa paterna e vão para outras cidades em busca de oportunidades. Ambientado em Minas Gerais e em alguns lugares do velho continente – como Espanha, Portugal, Marrocos – é um retrato coletivo de histórias reais parecidas e, ao mesmo tempo, genuinamente originais e potentes.


Em seu terceiro livro, Cláudio Costa Val mostra toda a sua faceta do artista, que é músico, compositor, cineasta e professor de teatro. É formado em comunicação audiovisual – TV na Universidade Internacional de Andaluzia (Huelva, Espanha) e graduado em administração de empresas. Além da formação como ator no Teatro Universitário/UFMG, estudou música na Fundação Artística de Minas Gerais. Fundador da Escola Livre de Cinema, onde atua como diretor e professor, foi professor do curso profissionalizante de teatro do Cefar/Palácio das Artes e é integrante da banda de música Mariachi sin Tequila, atuando como baixista, violonista, cavaquinhista e compositor. Ex-cronista Estado de Minas, seus livros já publicados são Luz, câmera, ação! – Crônicas a 24 quadrados por segundos (2012) e Horla – A série (2016).


Todas as vivências do autor constituem elementos instigantes para o leitor na saga de Marco Antônio por estar em Minas, De regresso.

* José Roberto Pereira
é escritor/artes cênicas

 

TRECHO
DO LIVRO

“A foto de María Isabel, com o cabelo jogado sobre o rosto, virara pôster, conforme Marco Antônio prometera a si mesmo, no dia em que a tirara. Afinal, aquela era a eternização do primeiro momento, do vislumbre do que viria a ser o amor. E ali estava a foto, ampliada, belamente granulada, protegida por vidro e por uma moldura de metal leve. Ocupava, com exclusividade, uma parede da sala do apartamento de Marco Antônio e María Isabel, que tinha decoração simples e de bom gosto. Lá fora, o dia corria. Chovia.


Em outro aposento, Marco Antônio ninava Maribel, em seu bercinho. Acompanhado pelos estalos da chuva fina, ele cantarolava baixinho a música de Toquinho: “Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo, e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo...”. Marco Antônio adorava esta música, desde a primeira vez que ouvira. Agora, servia como canção de ninar. “Funciona. Maribel sempre dorme quando a canto”. Por fim, ajeitou a pequena coberta sobre a filha, deu-lhe um beijinho na testa e saiu.


Chegou à sala e pegou a gaita de fole, que estava adormecida sobre uma poltrona avermelhada. Ajeitou-a ao corpo, ajustou os lábios ao soprete, posicionou os dedos no ponteiro e tratou de fazer música. Tocou uns compassos e parou: errou uma nota. Da capo, recomeçou. Passaram-se os compassos e interrompeu: errou no mesmo ponto. Iniciou mais uma vez, executando a mesma melodia, porém com andamento um pouco mais lento. Desta maneira, conseguiu passar pela parte em que não estava seguro. Seguiu adiante. No ápice da música, o telefone tocou, obrigando-o a interromper o exercício. Colocou a gaita sobre a mesa e atendeu aquele artefato branco, estridente e inoportuno. Do outro lado da linha, em poucas palavras, uma voz masculina o aterrorizou.”


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