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TARSILA UM OLHAR SOBRE MINAS

Exposição sobre a obra da artista modernista no Museu de Arte de São Paulo apresenta desenhos e pinturas que registram a passagem dela por cidades mineiras, logo depois da célebre Semana de Arte Moderna, há quase um século


postado em 07/06/2019 04:09

“(...) senti, recém-chegada da Europa, um deslumbramento diante das decorações populares das casas de moradia de São João del-Rei, Tiradentes, Mariana, Congonhas do Campo, Sabará, Ouro Preto e outras pequenas cidades de Minas, cheias de poesia popular. Retorno à tradição, à simplicidade (…) o Aleijadinho, nas suas estátuas e nas linhas geniais da sua arquitetura religiosa, tudo era motivo para as nossas exclamações admirativas. Encontrei em Minas as cores que adorava em criança”

Tarsila do Amaral sobre a viagem a Minas, em 1924








Minas Gerais está presente – e bem enquadrada – na exposição Tarsila popular, em cartaz no Museu de Arte de São Paulo (Masp), na capital paulista, com filas quilométricas na porta para ver 92 obras de Tarsila do Amaral (1886-1973), considerada uma das maiores artistas brasileiras do século 20 e figura central do modernismo. No conjunto que inclui o célebre Abaporu (1928), marco da criação do movimento antropofágico, estão igrejas e casarões de Ouro Preto em três trabalhos de 1924: dois em grafite sobre papel e outro em grafite e aquarela sobre papel; paisagens de Congonhas, Tiradentes, Juatuba e de outras localidades das Gerais. Os interessados em conhecer mais sobre a artista paulista e a extensa mostra dedicada a ela têm até 28 de julho – a expectativa é de que cerca de 300 mil pessoas visitem o museu no período.

Segundo o curador da exposição Tarsila popular, Fernando Oliva, os quadros (desenhos e pinturas) retratando cidades de Minas representam a “identidade brasileira” e um “Brasil legítimo” buscado pelos modernistas. “Tarsila era uma mulher de formação europeia, e a viagem por Minas (1924) significou um (re)descobrimento do país. Em Minas, houve o encontro com o barroco – para os modernistas, uma manifestação tipicamente brasileira, incluindo aspectos como topografia e arquitetura”, disse Oliva ao Estado de Minas. Ele divide a curadoria da exposição com Adriano Pedrosa

Minas entra na vida e obra de Tarsila pelas mãos do escritor Mário de Andrade (1893-1945), também paulista e um homem das letras, sempre numa busca incessante pela identidade nacional e empenhado na valorização do barroco e atento ao legado de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1737-1814). Autor de obras consagradas como Macunaíma e Amar, verbo intransitivo, Mário de Andrade deixou seu nome gravado na história como coordenador da célebre Semana de Arte Moderna de 1922, que teve como palco o Teatro Municipal de São Paulo (SP) e provocou uma revolução na literatura, nas artes plásticas, na arquitetura, no cinema e em outras áreas, conforme estudiosos.

Para entender melhor essa história, é preciso voltar no tempo e entender as ligações de Mário de Andrade com Minas. Em 1919, ele fez sua primeira viagem ao estado, especificamente para visitar em Mariana, na Região Central, o poeta Alphonsus de Guimaraens (1870-1921). Veio de São Paulo de trem, desembarcou em Belo Horizonte e, ao chegar ao destino, teve o primeiro contato com o barroco e monumentos.




CARAVANA
MODERNISTA

Cinco anos depois, Mário de Andrade voltaria com outro espírito, dessa vez integrando a caravana formada pelos modernistas de destaque na Semana de 22, entre eles Oswald de Andrade, escritor e dramaturgo, e sua mulher Tarsila do Amaral, acompanhados do jornalista René Thiollier, da fazendeira Olívia Guedes Penteado, do advogado Goffredo Telles e do poeta franco-suíço Blaise Cendrars. Tinham passado o carnaval no Rio de Janeiro e decidiram assistir às cerimônias da semana santa em Minas. O certo mesmo é que, de tão importante, o passeio histórico, em abril de 1924, ganhou o nome de Viagem da descoberta do Brasil.

“O grupo de modernistas, muitos deles de formação europeia, buscava a identidade do homem brasileiro e, paradoxalmente, foi fazer essa descoberta no nosso passado colonial, no barroco mineiro, na pedra-sabão, bem distante da faixa litorânea, num afastamento das tradições do Rio e Bahia”, conta a professora do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Adalgisa Arantes Campos, autora do livro Arte sacra no Brasil colonial e pesquisadora do tema.

A caravana modernista passou por Belo Horizonte, Ouro Preto, São João del-Rei, Tiradentes, Mariana e Congonhas, sendo matéria de destaque no extinto Diário de Minas, na edição de 27 de abril de 1924. De acordo com os estudos da professora Adalgisa Campos, que publicou em 2014 o artigo Falando em Minas: arquitetura barroca, os modernistas detrataram o ecletismo das construções da capital mineira, chamando de “bolo de noiva” o estilo dos prédios do início da construção da cidade. Obcecado em encontrar a identidade nacional, Mário de Andrade publicou em 1928 o texto O Aleijadinho, no livro Aspectos das artes plásticas no Brasil, ressaltando que o período em que viveu o escultor, entalhador, arquiteto e louvado (perito), natural de Ouro Preto, foi “o de maior mal-estar para a entidade nacional brasileira”.

Adalgisa explica que, no período citado pelo autor, ocorreram fatos marcantes, como a Inconfidência Mineira (1789) e conflitos separatistas, com uma população pobre e oprimida, formada por muitos mulatos, a exemplo de Aleijadinho, filho de um português e uma negra. Integrante do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG) e autor do livro Aleijadinho revelado, o promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda ressalta que, graças aos modernistas e seu empenho na valorização do barroco, foi criada a primeira legislação para proteção do patrimônio nacional. “O trabalho deles foi especial, principalmente para destacar Antonio Francisco Lisboa”, ressalta Souza Miranda.

Sobre a viagem a Minas, Tarsila revelou: “(...) senti, recém-chegada da Europa, um deslumbramento diante das decorações populares das casas de moradia de São João del-Rei, Tiradentes, Mariana, Congonhas do Campo, Sabará, Ouro Preto e outras pequenas cidades de Minas, cheias de poesia popular. Retorno à tradição, à simplicidade (…) o Aleijadinho, nas suas estátuas e nas linhas geniais da sua arquitetura religiosa, tudo era motivo para as nossas exclamações admirativas. Encontrei em Minas as cores que adorava em criança”.




IDENTIDADE
NACIONAL


Conforme texto de divulgação da mostra, o “popular” do título se refere tanto ao recorte da obra de Tarsila como ao programa de revisão da produção de nomes centrais do modernismo brasileiro, empreendido pela atual direção artística do Masp. Em 2016, o museu realizou Portinari popular, uma seleção de trabalhos de Candido Portinari (1903-1962) relacionados à cultura popular brasileira. “Assim como Portinari, a obra de Tarsila está na base da construção de uma identidade nacional nas artes, ao lado de Lasar Segall (1891-1957) e Anita Malfatti (1889-1964)”.

O curador da exposição explica mais: “Sem abdicar por completo da matriz modernista europeia e formal da qual fez parte, Tarsila se voltou para personagens, temas e narrativas ligados ao popular no Brasil. Esse aspecto se manifestou em diversos trabalhos, como é possível observar em suas cenas de carnaval, favelas e feiras ao ar livre, além da relação de sua obra com a religiosidade e, ainda, com as lendas populares e indígenas, caso das obras A cuca (1924), Abaporu (1928) e Batizado de Macunaíma (1956).

Segundo Fernando Oliva, “a exposição e o catálogo que a acompanha pretendem promover reflexões mais abrangentes sobre Tarsila, articulando sua vida e obra no contexto de uma visão política, social e racial da cultura brasileira e do modernismo – um movimento que, no Brasil, raramente é abordado sob esses prismas”.






VANGUARDA
EUROPEIA


Nascida numa fazenda no interior paulista, Tarsila do Amaral fez parte da aristocracia brasileira. Estudou as técnicas acadêmicas tradicionais na Europa, onde conviveu com pintores como André Lhote (1885-1962) e Fernand Léger (1881-1955). “Desse período, chamam a atenção retratos que já apontavam para uma ideia de modernidade – na pincelada, na representação não realista e na tentativa de captar o emocional dos modelos –, como em Autorretrato com vestido laranja (1921)”.

Ao voltar ao Brasil, em 1922, Tarsila aderiu às ideias vanguardistas europeias, incorporando-as à sua maneira de representar o Brasil. Foi apresentada por Anita Malfatti ao escritor Mário de Andrade, ao futuro marido, Oswald de Andrade (1890-1954), e ao poeta e pintor Menotti del Picchia (1892-1988), formando com eles o Grupo dos Cinco. Guiados pela ideia de encontrar e definir uma arte “verdadeiramente nacional”, eles fizeram a viagem de redescoberta do país pelas cidades coloniais mineiras, acompanhados pelo poeta franco-suíço Blaise Cendrars (1887-1961). Dessa expedição resultaram os desenhos de observação de Tarsila que estão na mostra.

É nesse momento, informa o curador, que se inicia o período conhecido como Pau-Brasil, uma das três principais fases da carreira de Tarsila, ao lado dos períodos Antropofágico e Social, todos presentes na mostra. A fase Pau-Brasil é marcada por telas de cores e temas acentuadamente tropicais, como a exuberância da fauna e da flora locais, pintadas ao lado de máquinas e trilhos, símbolos, por sua vez, da modernidade urbana do país. Desse momento, são singulares obras como Estrada de Ferro Central do Brasil (1924), Vendedor de frutas (1925) e Um pescador (1925), pintura que faz parte do acervo do Museu Hermitage, na Rússia, e está sendo exposta pela primeira vez no Brasil.

Foi ainda nos anos 1920 que Tarsila deu início à fase antropofágica, em que conseguiu criar algo de único e particular. Em 1926, Tarsila casou-se com Oswald e apresentou sua primeira individual, em Paris. Dois anos depois, pintou Abaporu, cujo nome de origem indígena significa “homem que come carne humana – tipo de ritual praticado por algumas tribos brasileiras, especialmente os tupinambás. A obra inspirou o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, que propunha a apropriação e deglutição, pela cultura nacional, do legado cultural europeu, para devolvê-lo ao mundo sob a forma de uma produção cultural própria, brasileira.


Tarsila Popular
• Exposição até 28 de julho, no Museu de Arte de São Paulo (Masp)

• Endereço: Avenida Paulista, 1.578, São Paulo (SP)

• Horários: De quarta a domingo: das 10h às 18h (bilheteria aberta até as 17h30); terça-feira: das 10h às 20h (bilheteria até 19h30)

• Ingressos: R$ 40 (entrada); R$ 20 (meia-entrada)
O Masp tem entrada gratuita  às terças-feiras, durante o dia todo


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