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Estado de Minas

A câmera lírica de todo dia

Ao filmar como se registrasse um diário para revelar a beleza do cotidiano, Jonas Mekas (1922-2019) construiu uma obra singular e generosa


postado em 08/02/2019 05:06

 Um dos grandes nomes do cinema de vanguarda do século 20, o lituano Jonas Mekas morreu em 23 de janeiro, aos 96 anos(foto: Michael loccisano/afp)
Um dos grandes nomes do cinema de vanguarda do século 20, o lituano Jonas Mekas morreu em 23 de janeiro, aos 96 anos (foto: Michael loccisano/afp)


De uma viagem, suas reminiscências. Perdas, perdas, perdas. Ocasionais lampejos de beleza. Uma mera evocação dos títulos dos filmes de Jonas Mekas já aponta para uma síntese de sua obra. Estamos diante de um cineasta tão potente quanto discreto, tão inovador quanto corriqueiro. Desde os anos 1950, Mekas caminhou com a câmera sempre junto ao seu corpo e, adepto do diário, transformou as anotações que poderiam repousar (apenas) no papel num peculiar e notório filme dos dias. Em 1995, ele publica um Anti-100 years cinema manifesto, no qual protesta diante da ausência do cinema de vanguarda no rol da efeméride e acrescenta poucas linhas sobre o cinema que acredita: sobre os pequenos e invisíveis atos do espírito humano.

Para o lituano-norte-americano Mekas, que morreu em 23 de janeiro, o cinema não precisa de estórias (na sua acepção literária, dramática), pois ele já propicia em si uma evidência (histórica e espiritual) do mundo e dos acontecimentos que estão dentro e ao redor do quadro fílmico."As coisas estão lá, não precisamos inventá-las". Se a máxima de Roberto Rossellini indicava um realismo da grande história, com Mekas o cinema modula-se para um tom íntimo, autobiográfico, caseiro, ensaístico, errático, amador como estratégia e opção, mas rigoroso e amante da simplicidade.

Nas suas linhas autobiográficas, Mekas narra que, depois de fugir de um campo de concentração na Europa, embarcou para os Estados Unidos. I had nowhere to go, como ele diz, mas comprou uma câmera Bolex e passou, simplesmente, a filmar o que estava ao seu lado. Seus  amigos, seus familiares lituanos ganham o delicado prisma de suas lentes. A adaptação ao clima, ao país, às ruas e ao frio de Nova York. Os detalhes da comunidade judaica que transitava no Brooklyn, na dolorosa passagem dos anos 1950 à década de 1960. Se visto rapidamente, Lost lost lost (1976), o primeiro filme que contém essas imagens de Mekas, pode passar despercebido – parece caseiro demais, exageradamente amador, como se, propositadamente, remetesse aos quadros simples, frontais, diretos, sem subterfúgios, dos irmãos Lumière. Mesmo a grande história, no entanto, ressurge nas suas frestas, como nas manifestações da comunidade russa e judaica contrária a Stalin ou ainda nos momentos de profunda solidão diante da neve, do frio e da indiferença que perpassa a adaptação de todos os emigrantes na chegada ao país novo. Entre o sujeito e a câmera, há um mundo, infinito, renitente – e é dessa atração pelo mundo à câmera que Mekas parece nos sussurrar.


Ética minimalista

Mais do que um cineasta, Mekas foi um inquieto cinéfilo. Jornalista e crítico do Village Voice, ele também foi um dos fundadores do Anthology Film Archive, instituição em Nova York responsável por arquivar, agregar e disseminar o cinema experimental feito nos Estados Unidos e no mundo. Se fôssemos comparar com a música do século 20, Mekas estaria próximo de John Cage e sua persistência em buscar um universo de sons desprovidos de artifícios musicais. Ambos fazem da vanguarda uma ética minimalista da intervenção do artista. Com Cage, anula-se o peso autoral do compositor para dar voz aos sons orgânicos que estão ao redor. Dos sons às imagens, Mekas também se revela singular ao exacerbar o projeto ensaístico de Montaigne. Seu "tema" de investigação é ele mesmo: sua vida, seus amigos, sua casa, seu bairro, sua cidade. O que inicialmente pode soar como um narcisismo exagerado revela-se um olhar generoso, atento para tudo e todos que estão ao seu entorno.

As filmagens de Mekas entrelaçam distintas temporalidades. Na primeira, há o fervor do instantâneo. A todo frame, Mekas respira uma incontrolável atração pelo mundo. Uma simples flor na primavera ganha um close. Alguns indivíduos patinam na neve de Nova York. A sua filha toca violino e dança enquanto ele janta e bebe com seus amigos. Esses, aliás, são sempre filmados: Warhol, Ken Jacobs, a trupe do Velvet Goldmine e tantos outros cineastas, músicos, artistas são inscritos pela sua lente ora segura, ora trêmula, mas sempre presente. Nesse instantâneo, ele capta as nódoas do mundo. Em As I was moving ahead occasionally I saw brief glimpses of beauty (2000), Mekas chega a afirmar que as imagens fílmicas são desprovidas de bem e mal. Seriam neutras, como se exalassem a áurea de um estranho paraíso, prestes a perder-se. É justamente a busca do que há de sublime no cotidiano que ele se esmera em despertar com seus filmes, como se depurasse os excessos caros a essa arte.

Em vértice oposto, numa temporalidade mais lenta, a voz de Mekas está sempre a comentar e a rever essas imagens do passado. Sua voz tende a ser pesarosa, a lamentar, numa lírica nostálgica, o desaparecimento daqueles momentos, daquelas imagens e vivências. A neutralidade paradisíaca do instante declina-se para uma lamúria humana demais. Mekas tem exata consciência desse pathos, desse tom emocional que inocula em seus frames. Ele, no entanto, não quer, nem consegue evitá-lo. Trata-se de um cineasta deveras honesto com a sua câmera para aderir a qualquer máscara ou performance um tanto artística.

É estranha a sensação que emerge depois da sua morte. Sua biografia cabe em poucas linhas. Não tem sobressaltos. Tem a beleza, nada ocasional, de ser uma vida comum – sem ser banal, mas que convive, horizontalmente, com as vidas dos seus espectadores. Filma-se, vê-se, comentam-se momentos da infância dos seus filhos, de uma vida adulta que se percebe plena ao beber vinho com os amigos nas relvas do Central Park, da alegria de filmá-los, de filmar com eles. Com Mekas, o cinema ensaia um reencantamento do mundo, um reencantamento pagão, algo bem distinto da afobação narcísica e autocelebratória dos posts no instagram. Mekas fez da câmera um gesto de amizade, do júbilo de estarmos juntos, e foi como amigo que interpelou seus espectadores. Nunca apertei sua mão, nunca o vi ao vivo. Mas, ao saber de sua morte, fiquei com a sensação de que se foi mais um amigo, um cinéfilo – um indivíduo que se fez franco, sincero e vívido como seus filmes.


*Pablo Gonçalo é crítico de cinema, professor da Universidade de Brasília
e autor de O cinema como refúgio da escrita: Roteiro e paisagens em Peter Handke e Wim Wenders (Annablume)

 

Três vezes Mekas

Para conhecer a obra do cineasta
Reminiscências de uma viagem a Lituânia (1972)
Lost lost lost (1976)
As I was moving ahead occasionally I saw brief glimpses of beauty (2000)


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