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Pedra fundamental da estética

Com conceitos ainda atuais para analisar obras artísticas, tratado de Aristóteles Sobre a arte poética ganha nova tradução em edição bilíngue comentada


postado em 23/11/2018 05:05

Podemos perceber que as categorias que Aristóteles utiliza podem potencialmente continuar sendo aplicadas para a compreensão de novas linguagens artísticas que não existiam na sua época


Atribuído ao filósofo grego Aristóteles e escrito há mais de 2 mil anos, no século 4 a.C., Sobre a arte poética é, provavelmente, uma de suas últimas obras. A mais recente edição, lançada pela Editora Autêntica em capa dura e acabamento luxuoso, traz o original em grego e a tradução em português dos professores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Antônio Mattoso e Antônio Queirós Campos. O livro é prefaciado pelo professor da Universidade Federal de Minas Grais (UFMG) Jacyntho Lins Brandão, um dos helenistas e intelectuais mais conceituados do país.

A tradução foi baseada no texto estabelecido por J. Hardy em 1932, a qual, segundo os próprios tradutores, privilegiou o aspecto da literalidade, mesmo que gerando estranhamento no leitor em certas passagens. Os tradutores advertem que o texto original tem uma natureza lacunar e incompleta, visto se tratar provavelmente de “obra de caráter escolar”, ou seja, não se sabe se foi escrito pelo próprio Aristóteles para ser discutido no Liceu, ou se foi algum de seus discípulos quem fez anotações de suas aulas. Na obra, portanto, o filósofo desenvolve suas ideias de modo didático, o que permite aos leitores de hoje uma compreensão clara de seu tratado.

Nesta edição, os tradutores optaram por não traduzir alguns conceitos do grego, caso das palavras mímesis, mthos?, páthos, entre outras, cujos sentidos são explicados nas notas. Como ressalta Luisa Severo Buarque de Holanda na orelha do livro, este é “o mais interdisciplinar de todos os textos aristotélicos”, lido e estudado por pessoas das mais diversas áreas. Os conceitos expostos em Sobre a arte poética influenciaram profundamente as teorias posteriores sobre estética e o pensamento artístico, sendo famosa a sua proposição de que a arte imita a natureza.

Neste texto, Aristóteles expõe o conceito de mímesis, comumente traduzido por imitação ou representação, algo que se tornou central para a reflexão a respeito da arte. Segundo ele, a mímesis é responsável pela formação cognitiva do ser humano – o mais mimético de todos os animais –, argumentando que a arte desempenha, portanto, um forte papel pedagógico. Aristóteles afirma que o aprender é considerado um ato prazeroso não apenas para os filósofos, mas para todos os seres humanos, capaz de despertar uma sensação de alegria.

No prefácio, Brandão chama a atenção para o caráter seminal da poética de Aristóteles. Segundo ele, Aristóteles se debruça principalmente na análise do conceito de mímesis e em sua aplicação na análise dos gêneros poéticos existentes na sua época. Contudo, como afirma Brandão, podemos perceber que as categorias que Aristóteles utiliza podem potencialmente continuar sendo aplicadas para a compreensão de novas linguagens artísticas que não existiam na sua época, ou seja, elas podem continuar sendo aplicadas inclusive para o estudo das artes atuais.

Uma outra ideia defendida na obra é a de que a poesia é mais filosófica e elevada do que a história, pois diz as coisas que poderiam acontecer, enquanto a história se limitaria a dizer apenas as coisas ocorridas.

Neste texto, o filósofo se concentra sobretudo na tragédia para desenvolver seus argumentos sobre a estética. E anuncia uma segunda parte do tratado dedicada à comédia, a qual, entretanto, não sobreviveu até os nossos dias ou, se sobreviveu, ainda não foi descoberta. A esse respeito, lembro o romance de Umberto Eco intitulado O nome da rosa, o qual ganhou notoriedade quando foi transposto para o cinema por Jean-Jacques Annaud. O romance fala justamente desta parte do tratado dedicada ao estudo da comédia que, em sua ficção, no período medieval, era considerada perigosa e mantida escondida.

O volume traz introdução bastante didática escrita pelos tradutores, com dados históricos e biográficos de Aristóteles e sobre a posição e natureza da sua poética. Por ser uma edição bilíngue, oferece lado a lado o texto grego, com seu aparato crítico, e a versão em português brasileiro, para que ambos possam ser cotejados, além de muitas notas explicativas.

Ler os textos clássicos é sempre enriquecedor, pois nos leva a conhecer melhor os fundamentos da nossa cultura. O legado da Grécia Antiga e da filosofia de Aristóteles se apresenta como convite à reflexão e ao pensamento crítico, sendo que, a cada nova tradução, os escritos do passado são reatualizados com frescor aos leitores do presente.

* Celina Lage é professora do programa de pós-graduação em artes da Escola Guignard da Universidade do Estado de Minas Gerais.


SOBRE A ARTE POÉTICA
De Aristóteles
Autêntica
160 páginas
R$ 49,80


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