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Estado de Minas Época de chuvas

"Sobram políticos públicos e faltam políticas públicas"


08/01/2023 23:09

Andreia Donadon Leal
Mariana – MG 

 
“2023 veio com bons ventos, boas novas e comemorações para todos. Início de ano, tempo de lavar a alma e desejar que toda inhaca do ano que se foi se vá. Para dar conta dessa lavação toda, chove torrencialmente, sem trégua. É assim todo início de ano, com os mesmos sintomas climatológicos: chuvas intensas, enxurradas, encostas desabando sobre estradas e casas. Enxurradas destruindo casas, vidas e histórias. Céu ensandecido, esgotos entupidos, avenidas alagadas. A tragédia é repetida todos os anos. Sofrimento e perdas por todos os lados.

Início de ano é retrospectiva de tragédias antigas! Noticiários e redes sociais transmitem imagens de desastres. Família morre em deslizamento. Família inteira morre dentro de carro arrastado pela chuva. Família morre após deslizamento de terra causado pelas fortes chuvas. Famílias perdem tudo na chuva. Crianças não têm o que vestir e comer, a chuva levou tudo que tinham dentro de casa. Uma criança pede socorro ao policial. Um bebê chora de frio e fome. Uma família tira lama de dentro de casa, perdeu tudo. 

Paro sob uma marquise para me abrigar da chuva, que acaba de engrossar. Tenho medo de a rua alagar. Lembro-me das notícias de encostas desabando. Raios cortam o céu. Aguardo a chuva abrandar para ir ao supermercado. Compro maçãs e bananas, enquanto aguardo a tempestade passar. Tento desviar o olhar da funcionária que lamenta a morte de um parente. O barranco deslizou sobre sua casa e soterrou uma vida. Em alguns locais daqui águas invadiram casas, também. 

Bueiros entupidos, lixo boiando na enxurrada. Olho desolada para o cenário caótico. Alguém me pergunta se a culpa é do aquecimento global, do homem, da natureza, das rezas sem fé ou do carma. Chove, alaga, desaba, desabriga. Muito volume de chuva para os próximos dias. Estou de olho no tempo. Coloco e tiro roupas do varal o dia inteiro. Fedor na rua. Jogaram lixo na porta. Campanhas educacionais sobre a correta acomodação do lixo, onde foram parar? Na falta de educação e conscientização de quem acabou de jogar o lixo no meio da rua. 

Se a boca de lobo está entupida, a culpa é de quem não sabe o que é cuidar do meio ambiente, nem viver em sociedade. Todo ano é a mesma previsão: chuva, desabrigados, mortes, estradas e avenidas alagadas, encostas derretendo. Ainda não saí do supermercado. A fila do caixa aumenta. A caixa não almoçou nem foi ao banheiro. Ofereço-lhe uma banana. Ela aceita de bom grado. Não tem táxi disponível na rua. A chuva deu uma trégua. Águas do céu caem mansas. Cansei de ficar de pé. 
A água turva que reflui sobre o passeio é misturada com esgoto; fede! Nunca vi tanto lixo flutuar. A garrafa de refrigerante surfa nas águas encardidas. Imagino o número de ratos e baratas perambulando nos bueiros. Ouço uma conversa de três pessoas. Mais uma pessoa morreu em área de deslizamento. Chego em casa, depois de esperar a chuva amansar. Minhas roupas e sapatos estão encharcados. Fecho a sombrinha. Jornais e folhetos espalhados no terreiro. Caixa de correio, vazia. Apanho os papéis. Não fizeram o dever de casa. Sempre pedi para colocarem os jornais na caixa de correios. 

Volta a chover. Amanhã vem mais... Quem mandou incendiar a mata? Quem mandou negligenciar as campanhas educacionais do correto acondicionamento do lixo? Quem permitiu edificarem em encostas e entorno de mananciais? 

De um lado, barracos amontoados em áreas de riscos, tomados de água e lama. Do outro, bairros de luxo com prédios imponentes, piscinas, quadras, áreas de jardim e lazer. Brasil é um dos líderes em desigualdade. Vai continuar chovendo. Vai continuar a morrer gente. Vai continuar a desabar encostas e casas. Vão continuar a construir barracos em áreas de risco, se a falta de oportunidades e acesso à moradia digna continuar em alta. 

Enquanto isso, rogam que roguem a Deus para nos proteger dos acidentes da natureza; rogam que roguemos a nós mesmos para colocarmos em alerta nosso bom senso, a fim de evitarmos situações que coloquem nossa vida e dos outros em risco. Mas, parece-me que sobram políticos públicos e faltam políticas públicas!”  

*Mestre em Literatura e doutoranda em Educação

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