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Estado de Minas artigo

BH: dos sonhos ao pesadelo (BH no século 21)

É preciso que retomemos as rédeas da cidade que queremos; mobilizar todos - cadeia produtiva, população, poder público...


12/05/2022 04:00





Roberto Carvalho
Ex-vice-prefeito de BH

Já dizia o poeta: a minha cidade é aquela que não conhece cercas, arames, portas e janelas. É o lugar das gentes, do encontro, da partilha. Não é a minha; não é a sua; é a nossa cidade. 

Como não vivemos apenas sonhos, no mundo real trabalhamos, vamos à padaria, ao supermercado, ao botequim, ao cinema, ao parque, ao teatro, ao futebol, à igreja, e precisamos debater a cidade que queremos.

BH foi uma das primeiras cidades do Brasil que nasceram planejadas para ser um modelo de soluções entre as capitais. Largas avenidas, ruas, bairros construídos para ser referência de mobilidade e convivência. Bastaram menos de 50 anos para que todo o planejamento se mostrasse pequeno. Pensada para ocupar os limites da Avenida do Contorno, estendeu-se para muito além e foi rompendo sem nenhum planejamento, controle e organização.

O que era para ser um exemplo de cidade foi se tornando um emaranhado de problemas. Quanto mais nossa capital crescia, mais os sonhos iam virando pesadelo. De Cidade Jardim, transformamo-nos em cidade do concreto, do crescimento desordenado, da falta de estrutura, de saneamento precário, transporte público ineficiente. Transtornos comuns nas grandes cidades brasileiras e de todo mundo, o que deixa as metrópoles e seus desafios como o grande tema do século 21.
 
desenho do pirulito da Praça 7

 
 
O mundo se debruçou em como resolver seus conflitos. Barcelona, por exemplo, usou grandes eventos, como as Olimpíadas (1992) e o Fórum Mundial de Cultura (2004), para se replanejar. Várias outras recuperaram áreas antes degradadas ou segregadas pela sua antiga atividade (regiões de fábricas, portuárias, ou exúrbias), criando nelas locais de convívio multiculturais, onde foram instalados prédios públicos, residências, praças, centros esportivos e hotéis, garantindo assim o fluxo, além de investir em infraestrutura, mobilidade, saneamento, eficiência e qualificação da população. 

As grandes urbanizações inseriram novamente a Europa no panorama cultural mundial após a hegemonia americana pós-Segunda Guerra. A vontade de transformar cada cidade em um novo lugar da cultura mundial, seja Paris, Londres ou Berlim, é a marca das urbanizações europeias, que se completam com objetos-espetáculos urbanos; ou seja, novos prédios, parques e espaços públicos criados pelos mais renomados arquitetos. 

Mas tal planejamento foi pensado para uma população que não crescia e que vinha envelhecendo, diferentemente do que ocorre na Ásia e na América Latina, onde o crescimento populacional é quase um descontrole. Na Ásia, locais como Xangai, na China, Hong Kong, a japonesa Tóquio – a primeira a despontar – e Seul, na Coreia do Sul, são exemplos de cidades do “capitalismo tardio”, com suas taxas de crescimento populacional e urbano assustadoras para qualquer metrópole ocidental. Convivem, porém, o que há de mais avançado tecnologicamente com culturas que até séculos atrás eram feudais e que, apesar de grandes investimentos estruturais recentes em mobilidade e saneamento, seguem com um grande problema: o exíguo território. E tanto as cidades da Europa como as asiáticas lidam com questões sociais complexas, com incluídos e excluídos convivendo com os novos sistemas urbanos, como ocorre em Berlim após a unificação das duas Alemanhas, Paris e sua urbe de imigrantes, e Barcelona com seus bairros fora do eixo das urbanizações. 

Na América Latina, questões sociais são o grande agravante do crescimento desordenado de suas metrópoles. A favela e o celular convivem lado a lado sem cerimônia; a pobreza está sempre a um passo dos condomínios fechados e dos shoppings centers; e a fome esbarra nos (hiper) supermercados 24 horas. As cidades latino-americanas também crescem a passos rápidos em busca de novas levas para a expansão imobiliária, enquanto os excluídos do sistema ainda se amontoam nas favelas assoladas pelo tráfico de drogas. A influência cultural e tecnológica do Primeiro Mundo ainda se faz presente e mesmo necessária, enquanto problemas terceiro-mundistas ficam sem solução. Na globalização, “ninguém pode ficar para trás”, independentemente de quanto isso custe. 

E Belo Horizonte, obviamente, faz parte deste contexto. A Cidade Jardim cresceu e, como um polvo, levou seus tentáculos até as cidades do entorno; a conurbação desordenada criou uma grande metrópole de quase 5 milhões de habitantes, que sofre com as consequências de só ter começado a pensar em planejamento urbano após 1996, quando seu primeiro Plano Diretor foi aprovado. O poder público, entre 1992 e 2008, apostou no modelo de administração participativa, em que as grandes causas de interesse da cidade eram decididas coletivamente com a população, e todos os setores faziam parte do esforço de transformar o município. 

Porém, nos últimos 14 anos, a cidade vem sofrendo um grande retrocesso com um “novo-velho” modelo administrativo do poder local e com a agravante falta da presença do governo estadual, que não assumiu o seu papel fundamental de propulsor do desenvolvimento regional. A cidade perdeu sua capacidade produtiva e atração de novas vocações. Como consequência, vemos a falta de investimento em projetos de estrutura, com mobilidade urbana e humana, como Anel Rodoviário, Anel Sul, Norte e Leste, metrô, modais de transportes eficientes, que possibilitem a atração de investidores que queiram se instalar aqui, produzir, gerar empregos e divisas para a cidade e região. Com isso, temos o inconsequente esvaziamento do Hipercentro, a interiorização da vida, com o surgimento de lugares que se voltam para si e menos para a cidade, ancorados na privatização de espaços públicos de interesse social, seja para a criação de espaços multiculturais, de produção ou saber. 

A proposital política de esvaziamento dos espaços públicos e a criação de locais climatizados e “protegidos” artificializam os logradouros coletivos ao tentar traduzi-los como parte de sua ambientação interna. Shoppings centers, museus e hipermercados são os novos espaços do convívio e estão ligados intrinsecamente à lógica do consumo, que escondem uma cidade cada vez mais suja, violenta, desordenada, vítima do retrocesso das políticas públicas de desenvolvimento humano com todos os acessos que isso implica, como moradia, transporte, educação, saúde, cultura e lazer de qualidade. 

BH parou no tempo e no espaço, e precisa reagir, e agora ainda vive o pesadelo da ameaça real de perder seu símbolo, seu patrimônio ambiental: a Serra do Curral, numa violência à sua cultura, à sua qualidade de vida, que tende a chegar à ambiência desértica com a destruição de nossas montanhas pelo completo descaso do governador do estado com nossa cidade, nossa gente e sua ganância de produção de commodities à custa da tragédia causada pela mineração sem controle em Minas. Não há como assistirmos ao descaso com todos e com o nosso lugar. É preciso que retomemos as rédeas da cidade que queremos; mobilizar todos – cadeia produtiva, população, poder público – num esforço de trazermos de volta a Cidade Jardim moderna e de vanguarda para o século 21, com a nostalgia na medida certa por um lugar agradável e justo para se morar.


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