Flávia Coimbra Pontes Maia
Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional Minas Gerais (SBEMMG)
O número de brasileiros com excesso de peso e obesidade é preocupante. O estudo “A epidemia de obesidade e das doenças crônicas não transmissíveis – Causas, custos e sobrecarga no SUS”, feito por uma equipe com 17 pesquisadores de diversas universidades no Brasil e uma universidade no Chile, apontou que a prevalência de excesso de peso pode chegar a 68% da população, ou seja, sete em cada 10 pessoas estarão acima do peso, enquanto a prevalência de obesidade pode chegar a 26%, ou uma a cada quatro pessoas, até 2030.
As raízes da obesidade são muitas: além da genética e da biologia humana que tendem a poupar energia, fatores como maus hábitos alimentares, inatividade física, eventos da vida diária como gravidez, doenças ou uso de medicamentos podem contribuir para o ganho de peso.
É preciso esclarecer que o ambiente em que vivemos permite oportunidades e condições para a obesidade. Um ambiente é definido como obesogênico quando ele afeta de maneira negativa a alimentação saudável e a atividade física. Atualmente, vivemos num ambiente que nos coloca frente a opções de alimentos muito calóricos, ricos em gorduras saturadas e açúcares, alimentos ultraprocessados, geralmente mais baratos. Além disso, as oportunidades de nos mantermos fisicamente ativos são reduzidas, com consequente ganho de peso. É essencial entender que não se trata apenas do indivíduo e nem de uma falha pessoal, mas de uma doença que se desenvolve em resposta a este ambiente hostil.
O consumo de alimentos altamente calóricos ocupa o espaço que deveria ser dos alimentos in natura ou minimamente processados. A exposição de crianças, jovens ou mesmo adultos a esses alimentos obesogênicos pode contribuir com problemas de saúde. Devemos destacar a importância de políticas públicas de saúde que assegurem acesso a alimentos saudáveis, que promovam a atividade física e que controlem a exposição, sobretudo das crianças e adolescentes a estes tipos de alimentos.
Comumente, a falta de atividade física e a alimentação incorreta ampliam o risco de comprometimento da qualidade de vida. A obesidade está intimamente relacionada com o desenvolvimento de diabetes, doenças cardiovasculares, alterações do colesterol e dos triglicerídeos, hipertensão arterial, distúrbios do sono e alterações no humor. Desse modo, o mês de março acende um alerta urgente de reflexão sobre o tema.
Em 2020, o último estudo registrado pelo IBGE e financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) revelou que a prevalência do excesso de peso aumentou de 42,6%, em 2006, para 55,4%, em 2019. Já a obesidade saltou de 11,8% para 20,3% no mesmo período. A preocupação é que esses números subam ainda mais, principalmente, em decorrência do fato de a pandemia deixar marcas para algumas pessoas, como desemprego, trabalho em casa, estresse (um gatilho para compulsões alimentares) e, principalmente, o sedentarismo precipitado pelo confinamento. A situação ainda estimula a elevação no consumo de alimentos ultraprocessados, justamente pela praticidade de se prepararem as refeições. É preciso ajudar as pessoas que vivem com excesso de peso a ter mais consciência e a buscar ajuda profissional. Devemos aproveitar toda e qualquer oportunidade para tentar mudar o estigma relacionado à obesidade, tanto da sociedade em geral como dos profissionais de saúde, e assim prevenir e tratar a obesidade.
