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Mestra, minha mestra querida


21/03/2021 04:00

Mauro Passos
Aluno da professora Alba de Rezende Bastos – 4º ano primário
Grupo Escolar Otaviano Alvarenga
 
Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.

(Cora Coralina)

 Lembrar... Recordar e rememorar. Provocar a memória. Tudo tem uma história – os sonhos, a família, o trabalho. A linha do tempo demarca pontos de partida, acontecimentos, festas, lembranças, dias, anos. Seleciona fatos. A memória é mediação. É uma forma de peregrinar. Que falta nos faz a memória nestes tempos sem horizonte! O passado foi sempre maior, mais rico do que se pode imaginar. O que se procura é a via de acesso para uma compreensão do tempo – essa via é o presente. O presente, à luz do seu passado, que está sempre em movimento e que, por isso, alarga, integra e enriquece a história. A história, neste caso, de uma vida.
 
É sobre uma professora de Perdões que pretendo escrever este texto. Percorrer um itinerário que marca sua presença no calendário dessa cidade, iluminando lembranças e caminhos. Não pretendo fazer sua biografia, mas mostrar suas relações com a sociedade, a educação e a história. Mais ainda. Dialogar com uma pessoa íntegra e sensível que questiona e divide o mundo com o outro. Segundo Dom Helder Camara, "melhor que o pão, é a sua partilha, sua divisão".
 
Alba de Rezende Bastos é seu nome de pia. Nascida em Perdões, aos 27 de março de 1921. A linha do tempo continua nos filhos, netos, alunos e amigos. Não se acaba. Remete, ainda, ao esposo e companheiro, arauto de outros sonhos. É nivelada no amor pela educação, cultura e trabalhos sociais – Instituto Dom Bosco, Grupo Escolar Otaviano Alvarenga, de 1939 a 1970, diretoria do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural de Perdões, da Apae, do Clube Campestre, colunista do jornal Voz, entre outros (e tantos outros!). Espaços que partilham luzes e caminhos para promover o humano em sua inteireza. É uma pessoa que contribuiu para a fundação de grupos, associações e movimentos, por isso seu nome e sua assinatura estão na primeira ata (creio que em todas!). Está sempre em articulação, pois o mundo pessoal é insuficiente para quem pensa longe. O escritor Guimarães Rosa lembra em "Grande sertão: veredas": "Coração cresce de todo lado. Coração mistura amores. Tudo cabe".
 
Na linha do tempo, com viço, força e jovialidade, está transportando esperanças de vida neste mês de março – é o seu centenário. Continua anunciando sua presença e comunicando sua alegria, fé e vivência religiosa no Natal, na Páscoa, nas primeiras sextas-feiras e em várias celebrações religiosas. Assim, procura buscar a si mesma no diálogo e na experiência com o outro e com o sagrado. Ser cristão implica viver a saudade de Deus. É no encontro e na relação que a vida se encanta. Aí está a grande lição desta mestra – abrir veredas de humanidade e compartilhar vivências concretas de cidadania, religião e cultura. Marcou presença na cidade e, hoje, se faz presente nas redes sociais, lidando com a mídia e escrevendo, semanalmente, para o jornal Voz. Ações como essas (e outras tantas) faz acontecer o que é próprio da semente – uma colheita abundante e produtiva
Em dezembro de 2016, com um estilo pousado em crônicas, publicou o livro "As veredas de Alba nos barcos da vida". Sua escrita fascina porque traz as marcas do cotidiano, em torno de temas fundamentais, simples e eternos. O elemento mais rico dos textos não são as palavras escritas, mas a diferença que elas produzem – o horizonte de novos caminhos. Um livro que, em vez de ser lido, há de ser saboreado. Hoje com tantas ausências e fraturas de humanidade e política, precisamos aliciar práticas e atitudes com o amor que tivermos e soubermos projetar, para um humanismo amplo e com a senha da mística religiosa, como a mestra Alba. A nossa história, na verdade, é a história de uma esperança – reencontrar o paraíso perdido e habitar o humano por dentro. Somos seres que guardam uma natalidade efetiva. Assim, a vida é um ensaio para se aprender a ser gente.
 
O tempo com sua linha me circula para encontrar o ponto (não o ponto final). O ponto que se move em ondas de inovação, solidariedade e participação. O ponto de encontro, pois o caminho continua (é um dever de ação). Chega de todo canto. Somos convidados a seguir a viagem (o caminho) com a mestra Alba, para construir outros cenários de vida nessa época de incertezas, silêncios e rupturas. Olhar longe para equilibrar o que está perto. Em andamento. 


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