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Conhecimento e informação em tempos de pandemia


postado em 05/04/2020 04:00

Rodrigo Augusto Prando
Professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas,
graduado em ciências sociais, mestre e doutor em sociologia pela Unesp


Há tempos que estamos polarizados politicamente e fraturados socialmente. A política deixou de ser espaço de diálogo, negociação e convencimento. Tornou-se uma arena de ódio, fake news e peleja entre inimigos. Neste cenário, as posições anti-intelectualistas e, muitas vezes, antidemocráticas, ganharam visibilidade e elegeram algumas categorias como inimigos a serem duramente combatidos: cientistas, intelectuais e jornalistas. Em síntese, os produtores de conhecimento e os responsáveis pela construção e divulgação da informação.

E hoje, todos nós, inclusive os que atacaram cientistas e jornalistas, depositam as esperanças na confecção de vacinas e remédios para combate ao coronavírus e buscam informação nos veículos da imprensa. Em recente pesquisa, questionou-se se o indivíduo "confia ou não confia nas informações sobre o coronavírus divulgadas", tendo as seguintes respostas: jornais impressos -- 56% sim, 11% não, 25% em parte, e 7% não utilizam; programas jornalísticos da TV -- 61% sim, 12% não, 25% em parte, e 2% não utilizam; sites de notícias -- 38% sim, 22% não confiam, 35% confiam em parte, e 5% não utilizam; programas jornalísticos de rádio – 50% confiam, 11% não, 21% em parte, e 17% não utilizam; WhatsApp – 12% sim, 58% não, 24% em parte, e 6% não utilizam; Facebook – 12% sim, 50% não; 25% confiam em parte, e 13% não utilizam. Depreende-se, dos números, que nesta pandemia a maioria esmagadora confia na mídia tradicional e nos jornalistas profissionais. Agora, uma pergunta: onde estão as fontes dos jornalistas?.

Estão nas figuras dos especialistas, cientistas, médicos, intelectuais, professores e não no "tiozinho do WhatsApp", no grupo da família, naquela acalorada discussão no Facebook, naquele "químico autodidata" que condena o álcool em gel e sugere vinagre para higienizar as mãos. Há, aqui, ao que parece, uma sensível queda na confiança das redes sociais e uma retomada por parte dos veículos de comunicação, e isso era bem diferente, especialmente durante as últimas eleições.

Os cientistas não são seres intocáveis, mas profissionais que dedicaram parte substancial de sua vida cursando graduação, especializando-se, pesquisando para suas dissertações de mestrado e teses de doutorado e estágios de pós-doutorado em renomadas universidades ou centros de pesquisa, no Brasil e em outros países. O conhecimento científico difere dos demais tipos de conhecimento, principalmente do senso comum, por ser alicerçado sobre o método científico, na observação dos fenômenos, na comparação, na mensuração, no estabelecimento de hipóteses, na possibilidade de testes e nas generalizações formuladas em leis, sempre, é claro, passando pela crítica de seus pares e pelo princípio da refutabilidade.

A ignorância e o senso comum não irritam o cientista, mas, acreditem, as fake news e a pós-verdade o tiram do sério, pois há, nesse caso, mentira e distorção deliberada da realidade, dos dados e dos fatos com objetivos obscurantistas, de viés manipulador e intenções políticas desprezíveis.

Enfim, o momento que ora presenciamos é assustador em muitos aspectos. Não temos, ainda, noção do que virá em breve. No entanto, os cientistas estão, coletivamente, dedicando o melhor de sua inteligência para mudar o quadro atual. E, talvez, essa pandemia tenha um lado positivo: revalorizar a ciência e o jornalismo, a produção e divulgação de conhecimento. Sem ciência e sem informação, as trevas se avizinham e os desejos autocráticos perdem seu pudor.

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