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A antiga busca pela vida eterna


postado em 19/10/2019 04:00

Mário Ernesto René Schweriner
Cientista do comportamento, psicólogo e coordenador do curso de graduação em ciências sociais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) 
 
 
 

O ser humano nutre um antigo fascínio pela possibilidade de se tornar imortal. No passado, os alquimistas não foram bem-sucedidos na tentativa de obter o elixir da vida longa a partir da pedra filosofal. Nas últimas décadas, porém, essa busca ganhou um reforço de peso. Um grupo de gurus da tecnologia do Vale do Silício tem investido pesado em pesquisas voltadas para o prolongamento indefinido da vida. Para eles, a morte é um problema que pode ser solucionado: seria como uma enfermidade a ser curada.

A ambição desses empreendedores pode ser encarada com ceticismo e até zombaria diante da possibilidade de tornar real um fenômeno até agora presente apenas em fantasias, como o filme Horizonte perdido. Mas esse tipo de reação não é muito diferente da despertada por outras ideias que apareceram em ficções do passado e que, anos depois, se tornaram realidades corriqueiras. O submarino Náutilus, do livro Vinte mil léguas submarinas, de Júlio Verne, por exemplo, se materializaria na forma dos submarinos nucleares das grandes potências. Assim como a sociedade do "Big Brother" vigiada por câmeras retratada no livro 1984, de George Orwell, empresta muitas de suas características ao nosso atual cotidiano.

A busca pela eternidade em suas múltiplas formas é um dos grandes temas abordados no livro EternaMente – Ciência e religião no limiar da comunhão. O livro pretende, mais especificamente, despertar uma discussão sobre as implicações éticas, espirituais e filosóficas dessa realidade que se aproxima. A obra aborda três caminhos rumo à tão buscada imortalidade, uma "santíssima trindade científica": a clonagem, a criônica e o upload da mente.

A clonagem humana parece se mostrar mais plausível agora, já que cientistas conseguiram clonar até macacos, conhecidos por apresentar composições genéticas extremamente próximas às dos seres humanos. Mas questões éticas, religiosas e jurídicas ainda impõem obstáculos talvez até maiores do que os limites da ciência. Por exemplo: se a clonagem permitir a criação de super-raças, seres humanos ultrainteligentes e com físico invejável, que tipo de relação esses seres superiores desenvolveriam com os reles mortais? Chegaríamos à especiação do ser humano decorrente das castas biológicas: no topo, poucos super-homens, e nas demais camadas, bilhões de seres irrelevantes, apenas um "exército industrial". Além disso, quem irá decidir quem será clonado?

A criônica, que é o congelamento do corpo humano com a esperança de uma possível "ressurreição" no futuro já existe, à espera dos que podem e desejam desembolsar por volta de US$ 180 mil para ser congelados e mantidos imersos em tanques contendo nitrogênio líquido à temperatura de -196oC. Há pouco mais de meia dúzia de laboratórios que a oferecem, a maioria nos Estados Unidos, e ao menos um na Rússia. Dos vários palpitantes questionamentos que emergem, destaco dois: vai ser realmente possível ressuscitar tais pessoas?. E o segundo e mais desafiante: com que conteúdo cerebral?.

O outro portal para a imortalidade discutido no livro EternaMente é o upload da mente para um outro organismo, não necessariamente biológico, para que a mente sobreviva à morte do corpo físico. Dos três portais para a imortalidade, trata-se do mais embrionário. Mas, se um dia esse procedimento for possível, provocará a pergunta: como fica a privacidade do ser que tiver todos os seus pensamentos mais íntimos disponibilizados em um chip?.

Tão complexas quanto a ciência por trás dessas possibilidades são as discussões éticas, filosóficas, religiosas, jurídicas e metafísicas que elas têm despertado desde já na sociedade. Será que já não é chegado o momento de começarmos a nos preparar para essa nova realidade?


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