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Estado de Minas

A família, como vai?


postado em 16/08/2019 04:00


Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte 
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Esta interrogação, "a família, como vai?", tem uma pertinência social que perpassa a história de mais de dois mil anos da Igreja Católica, e sua importância permanece ainda hoje na sociedade contemporânea. Afinal, o bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja. Questão que afeta e aflige, exigindo respostas assertivas, sem absolutamente admitir equívocos ou desfigurações perigosas que possam impactar a realidade do lar, com suas dimensões humana, afetiva e espiritual. A família tem força e propriedades educativas, mesmo com limites advindos da condição humana, para alavancar, sustentar e impulsionar vidas. Por isso, prioritário é investir na família.

"A família, como vai?" Uma interrogação interpelante já em 1994, 25 anos atrás, inspirou ações da Campanha da Fraternidade, envolvendo a Igreja em todo o Brasil. A Igreja sabe que a família é uma comunidade natural na qual se experimenta a sociabilidade humana, de modo a contribuir para o bem da sociedade. Sem famílias fortes na comunhão e estáveis no compromisso, os povos se debilitam. Incontestável que a família é prioridade em relação à sociedade e ao Estado. Por isso, não pode ser desconsiderada. Constitui, assim, doutrina pétrea para a Igreja a valorização da instituição familiar, conforme ensina o largo e luminoso horizonte da palavra de Deus. Compreende-se por que a antropologia cristã considera que não é bom o homem estar só. Os textos que narram a criação do homem focalizam sobre o desígnio de Deus: o casal constitui a primeira forma de comunhão de pessoas, comunhão assentada sobre Adão e Eva, firmando a direção da ajustada compreensão.

Na família se aprende a conhecer o amor e a fidelidade a Deus, a necessidade de corresponder-lhe. Convence, pois, o quanto é importante responder a esta pergunta desafiadora – A família, como vai? – para compor e recompor a competência fundamental dessa experiência, a ser marcada pelo humanismo, fé e espiritualidade. O desafio é que, hoje, a mudança antropológico-cultural influencia todos os aspectos da vida e requer uma abordagem que seja contemporânea, diversificada, não podendo, no entanto, negociar valores, princípios e identidades intocáveis, sob pena de não se alcançarem patamares que configurem a família na perspectiva educativa e sustentadora para a sociedade. Não pode a Igreja desincumbir-se, portanto, de anunciar o evangelho da família, com voz forte e clara na complexidade da cultura contemporânea, ante os relativismos que a ameaçam.

São necessários, pois, novos caminhos pastorais e de conscientização, preservando, sempre, aquilo que é inegociável. Por isso, é tarefa a elaboração de diretrizes e indicação de práticas, considerando, fielmente, a doutrina da Igreja em diálogo com as necessidades e desafios locais. O papa Francisco lembra que, à luz da parábola do semeador, a missão da Igreja consiste em cooperar na sementeira, o resto é obra de Deus. Os casais esperam e precisam que a Igreja lhes ofereça motivações para uma aposta corajosa em um amor forte, sólido, duradouro – capaz de enfrentar imprevistos, adversidades. A Igreja é desafiada a acompanhar as famílias em suas dificuldades. A Igreja é desafiada a uma conversão missionária por não se contentar com um anúncio puramente teórico e desligado da realidade das pessoas.

O evangelho da família precisa ser apresentado como resposta profunda às interrogações e necessidades da humanidade. É preciso propor valores para que a família alcance a sua dignidade e plena realização na reciprocidade, na comunhão e na fecundidade. A Igreja é "família de famílias", enriquecida pela vida de cada Igreja que está no lar de cada um. Assim, o sacramento matrimonial pode fecundar o caminho da sociedade. É, por isso, um dom precioso, sobretudo, para o momento   atual. A Igreja é um bem para a família e a família é um bem para a Igreja. Permanece o enorme desafio de viver e ser família na complexidade cultural da contemporaneidade. Tem, pois, pertinência a interrogação: "A família, como vai?", abrindo muitos debates, indicando os desafios e exigências da indispensável retomada de valores, a promoção de experiências com força educativa humanística e a rica vivência da fé, busca da luz advinda do evangelho de Jesus Cristo. É a luz única que pode iluminar a compreensão com força inigualável. A interrogação é dirigida a cada família, à Igreja e, também, à sociedade.

Instituições não subsistirão na direção certa e perderão rumo em seus percursos se não se dedicarem a investir, qualificadamente, na família. Para fazer da família prioridade, todos têm que se deixar interrogar e responder: "Como vai a família?". Esse investimento urgente, com entendimentos largos e lúcidos, poderá impulsionar com mais velocidade a busca que se está fazendo. Responder à interrogação, superando indiferenças e relativismos, é o caminho para a necessária abertura de um novo ciclo. Do contrário, se multiplicarão os fracassos. Pergunte e responda: sua família, como vai?.


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