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Admirável mundo velho


postado em 27/03/2019 05:08


No início de fevereiro, o ministro da economia da Alemanha, Peter Altmaier, apresentou a versão preliminar da nova política industrial alemã, a ser debatida e, possivelmente, adotada por toda a União Européia (UE). O documento, intitulado "Estratégia nacional para a indústria 2030", objetiva defender a indústria alemã e reforçar sua liderança em diversos setores. Resumidamente, permite ao governo alemão participar do capital em empresas consideradas estratégicas, para blindá-las do risco de eventuais aquisições por empresas estrangeiras, além de incentivar o fortalecimento de grandes empresas alemãs e europeias capazes de competir em pé de igualdade com chineses e americanos. Além da participação no capital, isso será feito através da flexibilização das regras antitrustes para estimular fusões e aquisições que reforcem a competitividade dessas empresas, incluindo o aumento do apoio público à inovação.

A iniciativa, que estranhamente teve pouca repercussão na mídia brasileira, merece, entretanto, uma reflexão mais acurada, tanto das entidades representativas da indústria brasileira quanto de Brasília, para entender as razões dessa ruptura histórica no posicionamento alemão que, desde o pós-guerra, sempre defendeu a globalização e a primazia do mercado, numa postura claramente liberal em termos econômicos. Sem dúvida, a adoção de uma política protecionista nos EUA, traduzida no "America first" de Trump; o lançamento do plano chinês "Made in China 2025", que advoga a liderança chinesa em áreas estratégicas; e a guerra comercial entre esses dois países, junto com a ameaça de Trump de estendê-la aos países europeus, tiveram forte peso na decisão alemã.

Porém, além do cenário econômico, em que, claramente, a guerra comercial mascara uma luta pela hegemonia tecnológica e econômica entre China e EUA, há que considerar, também, o quadro político mundial, com o crescente declínio da globalização, que está perdendo espaço para políticas claramente protecionistas no mundo todo. Essas mudanças, em última instância, decorrem do descontentamento crescente dos trabalhadores de muitos países, que estão vendo suas rendas estagnarem, ou pior, estão perdendo seus empregos em consequência da pressão competitiva que a globalização trouxe, o que explica, em boa parte, movimentos como o Brexit, a eleição de Trump e a ascensão ao poder de governos populistas, no mundo todo.

Nada mais velho, portanto, que os países desenvolvidos retomarem as antigas politicas protecionistas, que permitiram, a cada um deles, transformar-se em países ricos ao longo dos séculos 19 e 20. É bom lembrar que os Estados Unidos assumiram o papel de paladinos do livre-comércio somente após a Segunda Guerra Mundial, quando não tinha sobrado, no mundo todo, ninguém capaz de enfrentar a indústria americana. É nesse mesmo período, iniciado após a Segunda Guerra Mundial, que surgiram, incentivados pelos EUA, os diversos organismos internacionais, como Banco Mundial, FMI, OCDE, Gatt/OMC, que passaram, naturalmente, a defender, quando não a impor, a abertura comercial e financeira para todos os países e, em especial, aos emergentes, junto como o resto do ideário liberal.

Agora, os principais atores estão reposicionando suas peças no tabuleiro internacional para proteger seus mercados, suas empresas e, principalmente, sua capacidade tecnológica, de forma a capacitá-las a competir com sucesso num mundo onde a concentração industrial é a regra. Nessas circunstâncias, é imperativo o Brasil rever sua intenção de fazer uma abertura unilateral e outras mudanças que são válidas desde que o país tenha condições isonômicas de competição com seus concorrentes, algo que está claramente no campo dos desejos. Como diz, claramente, o ministro alemão, "mercados livres e abertos requerem condições estruturais assemelhadas para todos os atores econômicos que estão competindo".

Salvo pouquíssimas exceções, nós não temos multinacionais brasileiras capazes de competir em pé de igualdade com os gigantes americanos, chineses ou europeus. Nessas condições, nossa prioridade deveria ser a adoção de uma agenda de competitividade que cuidasse, especificamente, de eliminar ou, ao menos, reduzir fortemente os componentes do "custo Brasil", para a indústria brasileira ter as mínimas condições de competir. Enquanto isso não ocorrer, o Estado tem que tomar providências e encetar ações que minimizem ou excluam as ameaças decorrentes da falta de isonomia. Infelizmente, no mundo real, o ideal olímpico de que "o importante é competir" não vige. No mundo real, o importante é vencer.


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