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Estado de Minas EFETIVO

Reforço: 270 policiais seguem à procura de Lázaro; moradores deixam região

A estimativa é de que cerca de 10 carros sejam abordados por minuto nos dois sentidos da via de Cocalzinho (GO)


20/06/2021 08:16 - atualizado 20/06/2021 12:44

Buscas pelo foragido, suspeito de assassinar quatro membros da família Marques Vidal, em Ceilândia, em 9 de junho, seguem intensas (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Buscas pelo foragido, suspeito de assassinar quatro membros da família Marques Vidal, em Ceilândia, em 9 de junho, seguem intensas (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
A polícia reforçou, neste fim de semana, os bloqueios nas estradas que ligam Cocalzinho (GO) a outras cidades. Veículos que passavam próximo ao local das buscas por Lázaro Barbosa, 32 anos, são parados e, alguns, revistados. A procura pelo foragido, suspeito de assassinar quatro membros da família Marques Vidal, em Ceilândia, em 9 de junho, seguiam intensas até a noite de ontem, por um efetivo de 270 policiais.

Um dos agentes que atuam na fiscalização dos veículos entre Cocalzinho e Águas Lindas explica que “há o risco de as pessoas serem coagidas a levá-lo no porta-malas”. A estimativa é de que cerca de 10 carros sejam abordados por minuto nos dois sentidos da via.

O agente preferiu não se identificar, mas confessou que grande parte dos motoristas deixa a área rural dos municípios de Girassol e de Edilândia devido ao medo do foragido. Outra ação recorrente é a migração para as áreas mais urbanas, devido à melhora no sinal de telefone.
A empresária Wylza Gomes, 42 anos, foi uma das moradoras tomada pela tensão devido à ação de Lázaro e decidiu buscar os avós de 87 e 90 anos da fazenda onde vivem sozinhos na área rural de Cocalzinho. O casal agora está com os filhos na parte urbana da cidade. “Tivemos de mobilizar toda a família, ficamos com medo. Qualquer barulho, ficamos naquela insegurança. Eu mesma já acordo e olho o celular atrás de notícias, para saber se ele foi preso. Fica aquela insegurança de ele aparecer no nosso quintal. Durante o dia, a família se reveza para alimentar as galinhas e o gado que ficou para trás. “Tinham aquela rotina de cuidar da fazenda, mudou totalmente, está todo mundo assustado.”

O medo não se restringe mais aos moradores de Cocalzinho. A população de Águas Lindas também sofre constantemente com a tensão. Uma habitante, que preferiu não se identificar, confessou à equipe do Correio que teve até pesadelos com Lázaro. “Eu não vou mentir que tenho medo. Ninguém sabe realmente onde ele está, toda hora falam alguma coisa sobre ele estar em um local diferente. Ficamos preocupados de ele vir para Águas Lindas, porque é longe, mas, ao mesmo tempo, devido aos dias que ele está sumindo, ele pode conseguir chegar aqui”, afirma uma comerciante.

Entre os moradores também há muitos questionamentos. Manoel Antônio de Santana, 69 anos, que vive na região há 25 anos, lamenta: “Parece que o caso não acaba”. “Estamos com medo, ninguém acha uma solução, e já são dias procurando esse homem. Sei que os policiais estão lutando, mas a população está realmente aterrorizada. Esse Lázaro consegue escapar de todo mundo, ficar no meio do mato. Agora o pessoal evita sair de casa, todo mundo se protege como pode”, relata.

Insônia


Afonso Ismael da Silva, 63 anos, morador de Águas Lindas e sorveteiro, conta que desde segunda-feira deixou de ir ao serviço, no Guará 2. “Para chegar lá, eu preciso pegar o ônibus às 5h. Mas o meu chefe ficou com medo de algo acontecer por ser muito cedo. Por isso, ele preferiu me deixar em casa para evitar algo ruim. E mesmo lá (Guará 2), eles também estão com medo, porque ninguém sabe quando esse homem vai ser pego ou se ele vai fugir para alguma outra cidade”, diz. O sorveteiro conta que mal consegue dormir. “Todo mundo fica pesquisando as atualizações das notícias. De noite, muitas vezes, nem consigo pegar no sono. É uma situação que deixa todo mundo meio apavorado”, explica.

Apesar do clima de tensão entre os moradores de Cocalzinho e proximidades, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás afirma que as equipes “estão cada dia mais conhecedoras das peculiaridades da área de atuação e do perfil de ação de Lázaro”. Segundo destacam, a operação continua de forma intensiva com as polícias militar e civil de Goiás e do DF, Polícia Federal e Rodoviária Federal, além da Diretoria Penitenciária de Operações Especiais (DPOE-DF).

Denúncia de violência policial em terreiros


Religiões de matriz africana têm sido alvo de intolerância e preconceito durantes as buscas por Lázaro Barbosa. Lideranças religiosas denunciam que ao menos 10 terreiros receberam ações policiais truculentas nas regiões goianas de Águas Lindas, Girassol e Edilândia desde que a perseguição pelo criminoso teve início.

“Não dá para entender, porque não há comprovação nenhuma de que ele seja de qualquer denominação de matriz africana. Isso fomenta, na verdade, uma guerra santa, porque demoniza as religiões de origem africana, sendo que não acreditamos em demônios nem em satanás, essa visão é cristã. Cultuamos a natureza e a vida”, afirma a vice-presidente da Comissão de Liberdade Religiosa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF), Patrícia Zapponi.

Ela informou à reportagem que está em contato com representantes de forças de segurança do DF e de Goiás para pedir apoio. “Estamos buscando uma interlocução para amainar essa agressividade e compor um diálogo. Temos os mesmos princípios de qualquer outra denominação religiosa: amor, fé e caridade. Nosso povo também está com medo dele (Lázaro), nossos zeladores também vivem em chácaras, e ninguém acobertaria uma pessoa dessa. Estão criminalizando uma denominação religiosa, dizendo que nós damos guarida a marginais”, denuncia.

Na noite de sexta, o pai de santo André Vicente de Souza, 81 anos, registrou boletim de ocorrência depois de o terreiro que dirige, Estrada da Vida, em Águas Lindas (GO), ser alvo de buscas duas vezes em uma semana. Segundo o líder, as ações foram abusivas e violentas. “Eles bateram no meu caseiro, com cano de foice, nas coxas, nádegas, costelas e panturrilha. Ele está todo dolorido”, conta o religioso, garantindo que as imagens de símbolos religiosos divulgadas pela polícia como se fossem da casa de Lázaro são, na verdade, do terreiro comandado por ele, e nada têm a ver com rituais satânicos.

Patric Moreira de Abreu, 32 anos, pai de santo da casa Ilê Asé Olona, destaca que o candomblé não prega o terror. “Parece que estão querendo colocar na conta da religiosidade os crimes de Lázaro, e aí fazem essas batidas de maneira intensa e violenta, com a desculpa de que o criminoso está escondido dentro do terreiro. Mas a minha religiosidade não prega violência nem morte a ninguém”, frisa o líder religioso, cujo templo também foi alvo de buscas policiais.

De acordo com Tata Ngunzetala, líder afro tradicional do Candomblé de Angola, existe uma tentativa antiga de associar as religiões de matriz africana ao crime. “Querem provar que nossos sagrados são o ‘mal’ da sociedade. É uma construção histórica, desde o tráfico de humanos escravizados da África pelos europeus cristãos”, explica.

Segundo a Mãe do Axé da Casa Amarela, onde a polícia esteve de forma não truculenta, a associação equivocada faz com que o preconceito contra a religião aumente, e as operações policiais são um resultado disso. “Estou cansada de tentarem ligar os mais perversos bandidos à nossa comunidade. Se não nos posicionarmos, isso poderá ter um desfecho muito preocupante”, teme.

Questionada sobre as denúncias, a Polícia Militar de Goiás esclareceu que quem responde pela operação é a Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás (SSP-GO), que não deu retorno à reportagem até o fechamento desta edição.

» Manifesto

Autoridades e organizações representativas dos povos tradicionais de matriz africana repudiaram, em nota oficial, as ações da polícia. “Consideramos intoleráveis as invasões e abordagens policiais truculentas injustificadas, bem como a campanha difamatória propagada por diversos veículos de comunicação. Afirmamos veementemente que nossas tradições não têm relação com atos criminosos e, mesmo que fossem praticados por alguma pessoa que pertencesse a uma tradição afro, não nos vincularia de maneira coletiva a atos e ações criminosas e desumanas. Estes atos devem ser sempre atribuídos pela lei à pessoa civil”, declara parte do texto.


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