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Estado de Minas PANDEMIA

Tripulantes conseguem deixar navios e voltar ao Brasil

Cerca de 180 brasileiros foram repatriados no último fim de semana e torcem para os que ainda permanecem retidos no mar tenham a mesma sorte


postado em 26/05/2020 13:47 / atualizado em 26/05/2020 15:17

Daniel Silva e a noiva, Luciana Moraes, comemoram a volta ao Brasil, mas não descartam voltar a bordo(foto: Arquivo pessoal)
Daniel Silva e a noiva, Luciana Moraes, comemoram a volta ao Brasil, mas não descartam voltar a bordo (foto: Arquivo pessoal)
Cerca de 180 brasileiros tripulantes de navios de cruzeiro que estavam retidos no mar conseguiram retornar ao Brasil no último fim de semana. Dois voos, um vindo de Puerto Vallarta, no México, e outro de Bridgetown, em Barbados, aterrisaram no sábado no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, trazendo alívio para quem chegou e esperança para quem ainda sofre com a distância da terra natal e os familiares.

Do aeroporto mexicano vieram 52 brasileiros, que tiveram a companhia de argentinos, chilenos e uruguaios. Já da ex-colônia britânica no mar do Caribe foram 127 portadores do passaporte verde amarelo, que mais uma vez tiveram a companhia de vizinhos sul-americanos.

“Estou em casa, com a família, em volta da lareira, comendo pinhão e tomando chimarrão”, afirma o gaúcho Daniel Silva, de 41 anos, cujo último porto foi em Barbados e que chegou ao lado da noiva, Luciana Moraes, também tripulante.

Há cinco anos na profissão, ele ainda teve de superar mais uma dificuldade: rompeu tendão de Aquiles jogando futebol há duas semanas e passou por cirurgia pouco antes de embarcar de volta ao Brasil. “Agora é hora de descansar e repensar. Acho que o único mercado que não está sofrendo é o de vendas on-line. Então, vamos ver, temos alguns estudos que talvez nos salve financeiramente. O próprio público dos cruzeiros vai mudar o comportamento. Pensamos em abrir uma empresa para ajudar no embarque de pessoas”, diz o gaúcho de 41 anos, que não descarta voltar a bordo quando a crise provocada pelo novo coronavírus passar. “Eu vou voltar a bordo, pois amo o que faço, amo turismo, gastronomia. E só tenho a agradecer tudo que a empresa fez por mim.”

Outros dois brasileiros contatados pela reportagem voltaram via México e pensam um pouco diferente. Para evitar retaliações, eles preferem não se identificar, mas acusam a companhia de uma série de condutas prejudicias, de corte de salários à falta de informações, aumentando a ansiedade.

“É complicado, mas tenho duas teses para eles estarem demorando a repatriar todo mundo: primeiro porque é caro, depois que estão ganhando dinheiro com os tripulantes. Muita gente compra 30 cervejas por dia, três garrafas de vinho, duas garrafas de whisky, maços de cigarro. Em situações assim, as pessoas acabam se entregando mais ao vício. A intenet também é caríssima, fora produtos de higiene, como shampoo, pasta de dente”, diz um carioca de 49 anos, que há quatro vem trabalhando com entretenimento em navios.

Já uma paulistana sabe que havia segurança em relação à COVID-19, mas faltou respeito. “Eles não se preocupam com a saúde mental da tripulação. Conheci várias pessoas que garantiram que não voltam mais a navios de tão traumatizadas que ficaram”, declara ela, que tem 31 anos e que trabalhou no mar entre 2010 e 2014 e desde 2017 voltou a bordo. “ Não podíamos fazer yoga, mas todo dia tinha festa. Não dava para entender. Isso desgasta.”
Se já estão em casa, eles agora torcem para que todos os demais tripulantes consigam ser repatriados, não só os brasileiros. Até porque muitos não têm reagido bem, já tendo sido registrados até suicídios. 

“É uma situação dramática. Todo mundo preso, deprimido, já teve gente fazendo greve de fome, capitão ameaçado porque não dá resposta aos questionamentos. O que precisam é de apoio, que alguém tome providências”, diz o carioca entrevistado.

Daniel reconhece que a situação não é fácil. Por isso, aconselha todos que ainda não pudera desembarcar a buscarem auxílio psicológico e também se ajudem mutuamente. 

“Eu trabalhei com uma ucraniana que suicidou, era educada, mas muito quieta. Talvez tenha faltado se abrir com alguém, falar o que estava sentindo. Não dá para identificar quem está com problema entre 1,2 mil tripulantes (em cada embarcação”. Existe uma assistência, não precisa se identificar, mas você tem de procurar. Eu fiquei muito chateado com o que ocorreu. Se você fica dois meses a bordo sem socializar, é um peso muito grande. Mas  nada justifica tirar a própria vida”, argumenta o gaúcho.

Ainda há brasileiros e tripulantes de outras naconalidades retidos e várias partes do mundo, como nos EUA e nas Filipinas. Muitos estão há mais de dois meses se poder pisar em terra firme.


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