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Estado de Minas

Família de Marielle terá encontro com a polícia; crime completa um mês

Manifestações neste sábado lembraram os 30 dias do crime contra a vereadora e o motorista Anderson Gomes


postado em 14/04/2018 13:36 / atualizado em 14/04/2018 16:16

Homenagem a Marielle Franco durante ato público no Rio de Janeiro neste sábado(foto: Reprodução da internet/Facebook/Marcelo Freixo)
Homenagem a Marielle Franco durante ato público no Rio de Janeiro neste sábado (foto: Reprodução da internet/Facebook/Marcelo Freixo)

Rio, 14 - A família da vereadora Marielle Franco (Psol), assassinada há um mês no Rio de Janeiro, deve se reunir com a polícia na segunda-feira, 16, para ter informações sobre as investigações. Neste sábado, 14, durante as manifestações para marcar um mês do crime, tanto a irmã da vereadora, Anielle Franco, quanto o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol) disseram que não há prazo mas que é importante fazer justiça e informar a família sobre o que está sendo feita.


“Quanto mais sigilosa for a investigação, melhor, mas é importante ter um diálogo permanente entre a chefia da polícia e a família, até para que eles possam ter mais tranquilidade de que o crime será desvendado”, afirmou Freixo, que disse se reunir constantemente com a polícia.

O deputado lembrou que o assassinato da juíza Patrícia Acioly, que tinha muito mais indícios para pautar a linha de investigação, foi elucidado em dois meses. Então, as investigações da morte da vereadora ainda estão correndo dentro do previsto.

Neste sábado pela manhã, Freixo e a família participaram da missa de um mês da vereadora, na antiga Sé, no Centro do Rio. Além da irmã, que já havia participado do "Amanhecer com Marielle", no Largo do Machado, o pai Antonio Francisco da Silva, a mãe Marinete Franco e a filha Luyara Santos, além de parentes e vizinhos.

 

"Quem matou e quem mandou matar Marielle?"

(foto: Reprodução da internet/Facebook)
(foto: Reprodução da internet/Facebook)


Um mês depois de Marielle Franco ser assassinada, com quatro tiros, aos 38 anos, em uma rua do Estácio, perto do centro carioca, sua memória é cultivada por sua família em um apartamento em Bonsucesso, na zona norte do Rio. Ali, é possível ver os vestígios da curta vida da parlamentar, das brincadeiras da afilhada, Mariah, de 2 anos, muito jovem para entender o que aconteceu à madrinha, aos porta-retratos com as fotos em que a ativista aparece sorridente, espalhados pelas estantes. Sua família continua sem a resposta que espera desde 14 de março. Querem saber quem matou Marielle.

"A gente precisa saber quem foi. Faz um mês, dá muita angústia e preocupação. A família quer essa resposta e a sociedade também", diz o pai, seu Antônio. Ele ainda está voltando à rotina na vendinha na Baixa do Sapateiro, no Complexo de Favelas da Maré, perto dali, onde vende doces, cerveja e refrigerantes para se manter ocupado.

O ataque também matou o motorista do carro em que Marielle estava, Anderson Gomes, de 39 anos. Única sobrevivente, a assessora que acompanhava a vereadora deixou o País. Segundo integrantes do PSOL, ela tomou a decisão com receio de sofrer retaliações de criminosos.

Em depoimento, ela relatou não ter notado a aproximação dos atiradores. A sobrevivente se abaixou para tentar se proteger e Marielle, que usava cinto de segurança, tombou sobre ela. O veículo, que trafegava devagar, seguiu desgovernado até que a própria assessora conseguiu se esticar e acionar o freio de mão.

"Quem fez isso não imaginou a repercussão que teria e planejou tão bem que a polícia está tendo muita dificuldade para resolver. Se foi milícia (principal linha de investigação atualmente), cria muita revolta. Se não tiver medida de contenção, eles vão dominar o Rio futuramente", acrescenta seu Antônio.

A quarta-feira (quando o jornal O Estado de S. Paulo esteve na residência) é o momento mais dolorido da semana, aponta a irmã, Anielle. Foi o dia em que, de caçula, ela passou a filha única. Professora, Anielle estaria com Marielle no evento na Casa das Pretas, depois do qual, no caminho para casa, ocorreu o assassinato. Luyara, a filha da vereadora, de 19 anos, também iria.

"Só não fomos porque estávamos as duas com conjuntivite e não queríamos passar para ela, que iria para (a universidade norte-americana de) Harvard para uma palestra em abril.

Poderíamos ter morrido também", lembra Anielle. "Eu e minha mãe fomos depor semana passada, e me pareceu que a polícia está fazendo um trabalho sério. Ninguém imaginava o que aconteceu. Uma bala que matasse o (deputado Marcelo) Freixo (PSOL) seria esperada. A luta tem sido o meu luto."

Freixo está jurado de morte há dez anos - desde que presidiu a CPI da Assembleia Legislativa do Rio sobre as milícias, que resultou em mais de 200 indiciados e na prisão de algumas das principais lideranças milicianas. Trabalhou com Marielle depois, em seu gabinete e na Comissão de Direitos Humanos da Alerj, que preside. Socióloga, ela nunca fora ameaçada, nem antes nem depois de se eleger vereadora, em 2016. Foi a quinta mais votada (com 46 mil votos) da Câmara Municipal, que agora vai aprovar seus projetos pendentes, uma homenagem póstuma.

"Foi uma ação muito bem planejada. Um dos crimes contra a democracia mais graves da história do Rio, é impossível não ser solucionado", acredita Freixo. Ele perdeu, além de um quadro importante para seu partido, que seria candidata a vice-governadora em outubro, uma amiga próxima, a quem tinha como filha. "Hoje (anteontem) é meu aniversário, e Marielle planejou todas as minhas últimas festas. O tempo da nossa angústia não é o da investigação, da razão. Talvez não seja esclarecido nem em dois meses."

O vereador Tarcísio Motta (PSOL), cujo gabinete fica ao lado do que era ocupado por Marielle, diz que o clima entre os vereadores também é de muita angústia. "Quem matou Marielle? Quem mandou matar e por quê? Essas perguntas não saem da nossa cabeça e essa falta de respostas é de uma angústia dilacerante; essas indefinições nos deixam todos com medo", diz.

A família não pensa em processar o Estado, até por não saber de quem partiram os tiros. Ainda está retomando a vida, paralisada há um mês. "É muito pouco tempo e, ao mesmo tempo, mudou tudo. Catorze de março parece que vai ser sempre o dia anterior. Não consigo pensar no próximo passo, não sei dizer 'sim' ou 'não' para nada, tudo é 'não sei'", conta Anielle.

A irmã da vereadora vem se mantendo à frente da tomada de decisões, com a viúva, a arquiteta Monica Benício, para poupar os pais e a sobrinha. O domingo de Páscoa foi um dia especialmente penoso. Era um hábito da família toda ir - todos juntos - à missa na Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso, perto da casa dos pais, ou na Santa Afonso, mais próxima de onde Marielle morava com Monica e Luyara. "Já estávamos pensando onde iríamos almoçar depois", rememora seu Antônio. "Fomos aqui perto mesmo e rezamos por ela." (Renata Batista, Roberta Pennafort e Roberta Jansen)

 

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