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Estado de Minas

Investigações revelam que PCC comprou apoio das forças de segurança de países vizinhos

Pelo menos 30 homens com armamento de guerra, como metralhadoras, fuzis e explosivos, roubaram US$ 40 milhões de uma empresa de transporte no Paraguai


postado em 25/06/2017 06:00 / atualizado em 25/06/2017 08:35

Roubo a empresa de seguro no Paraguai, em abril, contou com a ajuda de policiais de outros países para encobrir ataque feito pela organização(foto: KIKO SIERICH/FUTURA PRESS/ESTADAO CONTEUDO )
Roubo a empresa de seguro no Paraguai, em abril, contou com a ajuda de policiais de outros países para encobrir ataque feito pela organização (foto: KIKO SIERICH/FUTURA PRESS/ESTADAO CONTEUDO )

Brasília – Fundado ainda em 1993, o grupo paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) foi o responsável pelo maior assalto da história do Paraguai em abril deste ano. Ali, atuou a 1044km de São Paulo, mais precisamente na Cidad del Este. Pelo menos 30 homens com armamento de guerra, como metralhadoras, fuzis e explosivos, roubaram US$ 40 milhões de uma empresa de transporte. Isso foi a parte exposta até aqui. O que não se sabia até agora é que a facção — que, dentro de prisões, desafia autoridades brasileiras com execuções a sangue frio e rebeliões cada vez mais violentas — também passou a comprar o apoio de policiais e militares de outros países vizinhos para garantir o sucesso das violentas ações.

“A maior dificuldade da Polícia Federal no Paraguai é com o exército local, porque o PCC corrompeu boa parte desses militares”, revelou fonte de alta patente do Ministério da Defesa ao Estado de Minas. A maior vulnerabilidade na fronteira do Brasil está nos estados do Rio Grande do Sul até o Mato Grosso, em que a divisa é com países como o Uruguai, Paraguai e Bolívia. “Nessas regiões, os países se confundem. As cidades viram uma só, são muito vivas e mescladas. Nesse cenário, as atividades criminosas têm facilidade em ultrapassar a fronteira e se associar com outros grupos”, explicou o general Santos Cruz, da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp).

O crescimento dessas facções tem uma simples e única explicação: o lucro. “O crime organizado, principalmente as duas maiores facções do país, o PCC e o Comando Vermelho (CV), nada mais são do que uma empresa”, classificou o diretor-geral do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), Marco Antônio Severo. O diretor explica que o objetivo dessas facções não é acabar com rivais. “O conflito começa quando alguém oferece resistência para que ele estabeleça comércio de droga no local, por exemplo.”

Severo relembra a morte do traficante paraguaio Jorge Rafaat no ano passado na região de fronteira no Mato Grosso do Sul. Rafaat morreu com tiros de fuzil, em uma emboscada, em decorrência de uma guerra do tráfico na região com o PCC e o CV. “Isso aí é uma evolução comercial, se vermos isso pela ótica empresarial. O PCC só vendia, mas depois passou a ser o primeiro recebedor da droga para distribuir para o Brasil, e para Europa”, destacou.

“Existe essa tentativa de expansão, de domínio territorial. Assim como o combate tem que ser permanente, eles também têm essa tendência de expansão permanente. Se sabe que uma parte da droga entra pela fronteira, assim como armamento. Em todo esse ambiente criminoso, eles têm tentativa de domínio”, exemplificou o general Santos Cruz.

PRESÍDIOS
Atualmente, o sistema penitenciário federal hospeda a grande maioria das lideranças de facções criminosas. Mas isso não impede que esses grupos crescem. “Porque é aquela história: Não tem vácuo no poder. Quando se tira de circulação o líder de uma facção de alto nível, logicamente outro vai assumir o lugar dele do lado de fora”, argumentou Marco Antônio. “Sem dúvida nenhuma o crime organizado tem ligação com a violência externa e as atividades dentro de presídios. Existe uma disputa territorial. Se tem conhecimento nítido disso. Tem que haver integração de inteligência de todos os órgãos”, defendeu Santos Cruz. Para ele, é necessária uma integração entre o governo federal, estados e municípios para que essas facções não interferiam na segurança dos grandes centros urbanos. “O governo federal precisa participar de maneira mais intensa em segurança pública. Há uns anos, o crime não era tão organizado. Precisamos evoluir principalmente em tecnologia e criar uma base nacional de dados”, defendeu.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que 80% das armas usadas nos homicídios são de fabricação nacional. O que revela uma violência generalizada, entre a população, integrantes de gangues e de pequenos núcleos de crime. Facções costumam importar armas ilegais do exterior e usam armamento de grosso calibre, como fuzis e submetralhadoras. Já pistolas e revólveres de fabricação nacional caem nas mãos de criminosos por meio de assaltos a empresas, seguranças particulares, a policiais e cidadãos que têm porte de arma e acabam perdendo seu armamento para o crime.

Comando confinado

“Lúcido, determinado em seus objetivos e assertivo”. Essas são as características que o psicólogo Augusto Sá, da Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo usa para descrever Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. Augusto ficou frente a frente com o líder da maior facção criminosa do país quando precisou negociar o fim de ataques que ocorreram na capital paulista, em 2006. As palavras do profissional de saúde psicológica não se tratam de um elogio, mas de um alerta para o poder público e para a sociedade.

Foi a frente do Primeiro Comando Capital (PCC) que Marcola organizou o domínio dos presídios no maior estado brasileiro. A facção reina entre as unidades prisionais de São Paulo, que possui 231 mil detentos, maior contingente de pessoas reclusas em todo o país. Aos 18 anos, o chefe do PCC foi preso por roubo a banco e foi para no Complexo do Carandiru, onde se juntou aos primeiros integrantes do grupo que estava no começo, mas se tornaria um negócio do crime, alcançando praticamente todos os estados do país e 25 anos depois, partido para além das fronteiras brasileiras. Atualmente condenado a 232 anos e 11 meses por formação de quadrilha, roubo, tráfico de drogas e homicídio, Marcola rebate as afirmações de que comanda o PCC.

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