Renata Mariz e Tiago De Holanda
Separados por quilômetros de distância e décadas de anos vividos, Lenir Ferreira de Queiroz Siqueira e Alan Silvério Simões têm uma dor em comum. Vítimas de dois grandes incêndios ocorridos no Brasil, eles reviveram na última semana, de maneira mais intensa, acontecimentos que deixaram marcas na pele e na alma. O fogo na Boate Kiss, que matou 236 jovens e deixou muitos feridos em Santa Maria (RS), trouxe à memória de Lenir os últimos momentos passados com os dois filhos e o marido, no espetáculo do Gran Circus, em 17 de dezembro de 1961, em Niterói (RJ). “A girafa tinha o mesmo nome da minha filha, Regina. Eles acharam o máximo”, lembra a mulher. Depois de anunciado o último número, o salto triplo dos trapezistas, uma labareda lambeu a lona, destruindo em poucos minutos tudo ao redor. Considerado o pior incêndio do país, o episódio deixou 503 mortos, entre os quais a família de Lenir, hoje com 76 anos. Morador de Belo Horizonte, Alan se viu na tragédia do Sul do país. Ele também era um jovem de 23 anos que só queria se divertir no Canecão Mineiro, em uma noite de sábado de 2001. Por pouco não foi engolido pelas chamas. Anos depois das tragédias, Alan e Lenir mostram que é possível seguir em frente.
O custo anual de R$ 20 milhões no atendimento às vítimas de incêndio é subestimado. Se fosse considerada a manutenção de estruturas importantes envolvidas na assistência aos feridos, a cifra seria bem maior. O serviço de transplante de pele é um item crucial para grande parte das vítimas. Apesar disso, o Brasil ainda engatinha no que diz respeito a bancos com tecidos disponíveis. Não foi surpresa que o país tenha recorrido a doações feitas por Argentina e Chile após a tragédia no Sul.
“A demanda é maior que a oferta. Já chegamos a pedir pele de outros estados”, afirma David Gomes, chefe da Unidade de Queimaduras do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Além do banco paulista, há um em Porto Alegre e outro no Recife, de acordo com a Sociedade Brasileira de Queimaduras. “São pouquíssimos para uma população do tamanho do Brasil”, afirma Maria Cristina Serra, presidente da entidade.
Segundo ele, seria necessária uma campanha que estimulasse a doação. O médico destaca que o Brasil precisa investir em alternativas aos bancos de tecidos retirados de cadáveres: os laboratórios de pele. Enquanto outros países estão avançados na produção do insumo, que pode salvar a vida de um paciente gravemente queimado, aqui as iniciativas ainda são tímidas. (RM)
PERDEU MARIDO E DOIS FILHOS
Lenir Ferreira de Queiroz Siqueira
Sobrevivente do incêndio no Gran Circus Norte-Americano, em 1961, em Niterói (RJ)

Para se reinventar, Lenir recorreu à fé e aos parentes. “Sei pelo que essas famílias do Sul estão passando, é uma dor insuportável. A gente sempre fica se perguntando o porquê. Está fora da nossa compreensão. Eu decidi acreditar que são os desígnios de Deus e passei a viver para os meus sobrinhos, meus irmãos”, diz. Em vez de ficar concentrada na própria dor, ela começou a prestar atenção ao seu redor. Já recuperada, trabalhou por décadas como atendente e datilógrafa do centro de reabilitação onde se tratou. “Pude acompanhar o sofrimento de uma mãe durante dias ao lado de um filho doente. Por isso, eu nunca passei.”
Das recordações da família, Lenir só tem três retratos. O restante foi queimado em outro incêndio, ocorrido há seis anos, no apartamento vizinho ao seu. As chamas consumiram praticamente todos os objetos pessoais. “De novo, tive a solidariedade das pessoas, que me ajudaram. Isso tem que ser valorizado. Prefiro me prender a isso, levo a vida com alegria, em vez de lamentar. A saudade é eterna. Mas temos que nos resignar”, diz Lenir. Nos últimos dias, porém, foi impossível não recordar a tristeza daquela matinê no circo.
Com cerca de 3 mil pessoas, o Gran Circus Norte-Americano enchia os olhos da população acostumada com espetáculos menores. “Nós sentamos bem perto do picadeiro. Quando de repente começou o fogo, as pessoas foram caindo umas em cima das outras. Fiquei caída de bruços, agarrada ao meu filho. Os bombeiros chegaram perguntando quem estava vivo. Consegui levantar o braço”, recorda Lenir. Lá também, como em Santa Maria, só havia uma porta de entrada e saída. A cena trágica do que restou do circo rodou o mundo, atraindo atenção e ajuda de outros países. Pressionado, o governo apontou um ex-funcionário do circo como responsável, versão na qual poucos acreditaram.
Enquanto isso, a mineira criada em Caetés, mas radicada em Niterói, lutava contra a morte na unidade de terapia intensiva (UTI). Quando a mãe, que saiu de Minas Gerais, chegou, não a reconheceu. “Ela disse: ‘Essa não é minha filha’. Respondi: ‘Sou eu, sim, mãe’”, conta Lenir. As marcas do fogo estão na cabeça, braço e costas. Mas a mulher, mais uma vez, não reclama. “Vivo sem complexo. Como nasceu pouco cabelo, na rua uso peruca. Em casa, fico com a cabeça descoberta mesmo por causa do calor”, explica.
Lenir nunca se casou de novo. “Meu marido era muito especial. Eu não iria encontrar ninguém como ele. Não quis tentar”, afirma. Ela gosta da casa cheia. Sobrinhos com os filhos, irmãos e amigos sempre são bem-vindos. O único programa que nunca mais fez foi ir ao circo. “Passo longe. Não suportaria”, diz. Lenir simplesmente não para. Depois de um longo papo, agradece e pede desculpas por ter que desligar. “Meu irmão está no hospital, precisa de mim. Vou para lá”, despede-se. (RM)
MEDO FOI VENCIDO COM AJUDA PSICOLÓGICA
Alan Silvério Simões
Sobrevivente do incêndio no Canecão Mineiro, em 2001, Belo Horizonte

“Na hora em que soube do que houve no Rio Grande do Sul, já liguei uma coisa à outra. Infelizmente, vieram as lembranças. Não dá para esquecer”, diz o técnico em manutenção Alan Silvério Simões, de 34 anos. Por volta das 22h30, acompanhado por um amigo, Alan entrou na casa de shows Canecão Mineiro, que funcionava sem alvará na Avenida Tereza Cristina, no Barro Preto, Região Centro-Sul de BH. .
Do ponto onde se sentou, Alan não conseguiu ver muito bem o pequeno espetáculo pirotécnico realizado por uma das atrações da noite, a banda Armadilha do Samba, que soltou uma cascata de fogos de artifício. As chamas se espalharam rapidamente. “Ouvi o pessoal gritando: ‘Está pegando fogo’. Olhei para cima e vi a fumaça”, relata Alan.
Não havia saídas de emergência. Em pânico, as pessoas – mais de mil em uma boate com capacidade para cerca de 300 – passaram a correr todas na mesma direção: a única porta que dava para a rua..
Derretido pelo fogo, o forro do teto começou a cair e arder sobre a pele dos presentes. No meio do empurra-empurra, muitos caíram e acabaram sendo pisoteados. “Para sair, tive de passar por cima do pessoal”, admite Alan. Ele sofreu queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus nos braços, pernas, ombro direito e tórax. Ficou internado por 19 dias e se submeteu a cirurgias para enxerto de pele. Passou 13 meses afastado do trabalho e outros seis em tratamento psicológico. “Demorou para eu voltar a ir a boates e casas de festa fechadas. Sempre olho se tem saída de emergência”, comenta.
