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Estado de Minas

Oscar Niemeyer comemora 104 anos

É dentro de suas obras, monumentais ou intimistas, que pessoas trabalham, pedem a Deus, dormem e decidem


postado em 15/12/2011 08:15 / atualizado em 03/05/2012 10:38

O arquiteto na varanda do Palácio da Alvorada antes da inauguração da capital federal: pose ilustre(foto: Arquivo/ArPDF)
O arquiteto na varanda do Palácio da Alvorada antes da inauguração da capital federal: pose ilustre (foto: Arquivo/ArPDF)


É uma catedral. Uma casa. Um prédio. Um palácio. Um ministério. Uma igreja. Um complexo administrativo. Um Congresso Nacional. Em 27 países e em 124 cidades. Oscar Niemeyer está mais próximo da onipresença do que qualquer outro arquiteto. É dentro de suas obras, monumentais ou intimistas, que pessoas trabalham, pedem a Deus, dormem e decidem. Mesmo quem nunca explorou os espaços, por trabalho ou por lazer, dificilmente vê com indiferença as invenções do homem que hoje completa 104 anos. Desde a década de 1930, quando Niemeyer executou os primeiros projetos, ele entusiasma gerações e agrega fãs e críticos de todas as partes do mundo.

O Correio entrevistou brasilienses que têm relação com o arquiteto ou com a sua obra. Se há contestação sobre a estética de um projeto ou a funcionalidade de um prédio, quase não têm voz os que negam a posição de Niemeyer na história da arquitetura e da relevância da contribuição dele ao Brasil. A Brasília, então, nem se fala. “O Oscar conduziu os principais momentos da arquitetura brasileira nos últimos anos e esteve em todos os momentos históricos do país. Ele e as suas obras, definitivamente, vão ficar na história”, afirma Andrey Schlee, diretor de Patrimônio Material e Fiscalização do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Avesso a exageros, não é de hoje que Niemeyer evita homenagens pomposas. Em 1987, quando completou 80 anos, dispensou vir a Brasília para a festa que aqui se preparava. Explicou, em carta ao então governador do DF, José Aparecido de Oliveira, que desejava passar o aniversário “em completo anonimato. Data que, a meu ver, não deve entusiasmar ninguém”. Aos 104 anos, ele diz que quer ser lembrado como um homem qualquer. Esse, talvez, seja o principal desafio dele.

Niemeyer observa maquete do Palácio do Planalto, entre 1959 e 1960 (foto: Arquivo Publico do DF)
Niemeyer observa maquete do Palácio do Planalto, entre 1959 e 1960 (foto: Arquivo Publico do DF)


De fã a estudioso


Aos 48 anos, Andrey Schlee já foi fã, estudioso e hoje é o responsável pela conservação de algumas das mais importantes edificações de Oscar Niemeyer. Ele é o diretor do Departamento do Patrimônio Material e Fiscalização do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A força dos traços do Cassino da Pampulha, em Belo Horizonte, e da Casa das Canoas, no Rio de Janeiro, contribuiu para que Schlee escolhesse a arquitetura como profissão.

Ele tem aquele que deve ser o mais autografado dos livros de Oscar Niemeyer. Uma mescla de azar e sorte colocou o exemplar de Rio — De província a metrópole, de 1980, nas mãos do então estudante de arquitetura de Pelotas (RS). Schlee fora ao Rio de Janeiro para o segundo encontro com o arquiteto e perguntou a algum funcionário do escritório se poderia comprar a obra. “Está esgotado”, responderam. “Restou apenas um, no qual o Oscar treinou a assinatura.” O estudante não poderia pedir nada melhor.

Andrey Schlee, diretor do Depan(foto: Gustavo Moreno/CB/DA PRESS)
Andrey Schlee, diretor do Depan (foto: Gustavo Moreno/CB/DA PRESS)


Os anos 1980 foram particularmente difíceis para Niemeyer. É possível que tenha sido o período de menor prestígio no cenário nacional. Em faculdades de todo o país, as suas obras ficaram às margens dos programas de estudos.
Schlee explorou os trabalhos de Niemeyer sozinho. Com alguns colegas de curso, arriscou uma ida ao Rio para encontrar o mestre. Convencida com a ajuda de uma caixa de chocolates, a secretária marcou um encontro entre o chefe e os jovens. “Ele nos recebeu, perguntou o que andávamos lendo, mostrou uma preocupação grande com a leitura. Perdeu um tempo enorme para receber os estudantes”, relembra.

Ao longo da vida, os dois se encontraram outras vezes. Schlee passou de fã a estudioso. Para ter mais acesso ao maior conjunto de obras do arquiteto, ele se mudou para Brasília em 2003. “Honestidade acadêmica”, justifica. Na capital, deu aulas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) e, ao contrário da época de aluno, hoje em dia muito se fala de Niemeyer nas escolas.

Ao lado de 40 estudantes, ele teve outro encontro memorável com Niemeyer no Rio de Janeiro, para uma aula. Schlee pediu aos estudantes que evitassem tietagem, pedir autógrafos e tirar fotografias, conselho não seguido por ele próprio. A foto da reunião fica na mesa de trabalho. “Assim como outros gênios, ele não acerta sempre. Mas ele esteve nos momentos mais importantes da história recente do Brasil. Você pode não gostar dele ou da arquitetura dele, mas tem que respeitá-lo”, acredita.

A quadra de Oscar


A Superquadra Sul (SQS) 107 foi inteiramente projetada por Oscar Niemeyer e, assim como a SQS 108, deveria servir de modelo para as demais quadras. Num apartamento do Bloco H, mora o arquiteto Marcelo Savio, 38 anos. O prédio conserva parte do acabamento original, marcado pelo mármore branco e o cobogó (elemento vazado). Um ou outro granito preto ladeando a porta do elevador parece um intruso no mundo concebido por Oscar. As janelas são amplas, ideais para a entrada de luz e ventilação. O mundo visto por elas é carpetado pela copa das árvores da quadra, como Niemeyer planejou. Savio escolheu o apartamento e a profissão por causa da admiração pelo mestre.

(foto: Gustavo Moreno/CB/DA PRESS)
(foto: Gustavo Moreno/CB/DA PRESS)


Filho de militar, Savio morou em várias regiões do Brasil. Em São Paulo, em Minas Gerais e no DF ou ele viveu em uma casa projetada por Oscar, ou tinha uma de suas construções à vista. Quando ele tinha 8 anos, o pai foi transferido para o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, em São José dos Campos (SP). “Todos os prédios eram dele, inclusive a casa em que a gente morou. Me lembro dos vãos amplos. Da garagem, você conseguia ver até a cozinha. Aquilo já me impressionava. Era como se eu estivesse em um grande câmpus da UnB”, conta.

Alguns anos depois, a família aportou em Belo Horizonte. A casa era em frente ao Cassino da Pampulha. Engenheiro, o pai de Savio trabalhava na construção do Aeroporto de Confins, desenhado por Milton Ramos, arquiteto parceiro de Niemeyer em obras memoráveis de Brasília, como o Palácio do Itamaraty.

Um tempo depois, veio a mudança para Brasília. Ele decidiu cursar arquitetura na UnB, cujo departamento havia sido fundado por Niemeyer. Ao longo da faculdade e da vida adulta, fez trabalhos sobre o artista, conseguiu cópias das plantas, edições especiais de revistas sobre Brasília e conheceu o arquiteto, em uma palestra. As lições que mais guarda são a limpeza e a economia de traços de Niemeyer. Ele gostaria de ver as obras do mestre respeitadas e restauradas conforme o original. “É uma falha de interpretação, de educação. Em Berlim, um prédio dos anos 1930 desenhado por um arquiteto da Bauhaus, bem-conservado, vale três vezes mais do que um constantemente modificado, como o que acontece no Brasil”, critica.

Aulas sobre o cosmo

Se Silvestre Gorgulho, 65 anos, tivesse de descrever a amizade que tem com Oscar Niemeyer em poucas palavras, uma delas provavelmente seria honra. Ele a utiliza com frequência para falar sobre o amigo. Os dois se conheceram na década de 1970, quando Gorgulho era secretário de Comunicação do governo de José Aparecido de Oliveira. Niemeyer tinha uma sala ao lado da dele. Não era raro que todos almoçassem juntos no Palácio do Buriti. “Nessa época, saíram projetos importantes, como o Panteão da Pátria e o Museu do Índio”, relembra Gorgulho.

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)


O jeito simples e bem-humorado de Niemeyer — exceto se alguém elogiasse os Estados Unidos — contribuíram para que eles se tornassem grandes amigos. O retorno de Oscar para o Rio não afetou os laços afetivos. Pelo menos uma vez por ano, Gorgulho vai ao Rio visitar o amigo. Eles falam com assiduidade por telefone. O ex-secretário é, na verdade, um dos principais portos seguros de Niemeyer em Brasília. Até hoje, por exemplo, o título de eleitor de Niemeyer está com Gorgulho.

“Para mim, é um privilégio estar ao lado dele. Tem gente que o critica por ele estar com 104 e ainda desenhar e pensar em novos projetos. Mas ele é de uma lucidez incrível. Todas as terças-feiras, ele fica até as 21h no escritório para ter aulas com um físico que o ensina sobre o cosmo. Ver um homem de 104 anos se propor a isso é incrível”, defende.

"É uma paz trabalhar aqui"

Jennifer Assis de Oliveira trabalha há pouco menos de um ano no ponto turístico mais visitado de Brasília. A Catedral Metropolitana de Brasília reúne fé, beleza e projeto assinado por Oscar Niemeyer. O arquiteto sabia, desde a construção da cidade, que a nova capital deveria ter uma catedral singular. Ao desafio, ele respondeu com elegante e surpreendente simplicidade. O conjunto da obra completou-se com os vitrais de Marianne Peretti e com os anjos de Alfredo Ceschiatti.

Antes de ser contratada como secretária, há muitos anos Jennifer não entrava no espaço religioso. Hoje, o esplendor é o local de trabalho. A missão é receber turistas, organizar a agenda dos padres e dos casamentos. A Catedral é uma das igrejas mais disputadas pelas noivas. “Um dia antes de abrir a agenda, elas dormem na porta”, conta. O motivo de tanta procura, supõe Jennifer, é a relevância do espaço.

(foto: ED. ALVES/ESP. CB/D.A PRESS)
(foto: ED. ALVES/ESP. CB/D.A PRESS)


Todos os dias, ela vê a expressão de fascínio dos turistas. “Eles se espantam com tamanha beleza.” Um hábito comum entre os visitantes é testar a acústica da igreja. “Mal entram, já vão falar com a parede para ver se o outro que está do lado de lá escuta”, descreve. Antes de ser contratada, Jennifer, 21 anos, estava desempregada. Agora, ela quer ficar lá por muitos anos. “É uma paz trabalhar aqui”, explica. A observação que ela e muitos visitantes fazem é de ordem funcional. Os banheiros são pequenos, as salas, um tanto escuras e mal ventiladas. “Vão reformar. Mas tem que preservar o original. É bonito demais.”

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