Atentados terroristas não são comuns no Brasil. Se fossem, o país estaria em apuros, pois não há controle rigoroso por parte do Exército e das polícias civis sobre a fabricação, venda e armazenamento de material explosivo de todasorte. Um reflexo disso é o aumento sem precedentes de casos de explosões de caixas eletrônicos e agências bancárias por todo o Brasil. Os principais alvos são cidades do interior, principalmente no Nordeste, onde o número de atentados dessa natureza não para de crescer, levando terror para a população. Levantamento feito pelo Estado de Minas com base em informações sobre ataques a caixas com uso de explosivos, principalmente dinamite, publicadas em agências de notícias revela a ocorrência de pelo menos 112 casos nos últimos noves meses.
Esse número seria bem maior se houvesse uma estatística centralizada sobre os ataques, mas, como a investigação é de responsabilidade das polícias dos estados, não há um balanço consolidado sobre as ocorrências pelo país. O avanço do uso de explosivos para a prática de roubos já preocupa a Polícia Federal, que teme que o know-how no uso desse material se expanda e passe a ser usado com outros fins, como assassinatos e invasões de presídios.
A situação é assustadora e pode piorar. Se boa parte dos explosivos roubados de pedreiras e fábricas no ano passado tiverem como destino assaltos a agências bancárias, os casos devem aumentar de maneira exponencial. Somente em 2010, foi furtada mais de uma tonelada de explosivos em todo o Brasil.
“Isso virou uma bola de neve”, adverte o delegado da Polícia Federal do Rio Grande do Norte Francisco Martins da Silva, que investiga a atuação de quadrilhas especializadas em roubo de dinamite e assaltos com explosivos a caixas eletrônicos no Nordeste. Segundo ele, é grande a facilidade de acesso a artefatos explosivos. Com isso, também há um aprimoramento das técnicas usadas pelas quadrilhas e bandos responsáveis pela expansão das explosões de caixas eletrônicos por todo o país.
“O sucesso do uso em roubos de banco pode estimular os bandidos a usarem esse método em outras situações. Daí o perigo que corremos será muito grande”, afirma o delegado, que defende a criação de um grupo especial com a participação das polícias de todos os estados, inclusive a PF, para impedir essas ações. Somente este ano, em sete dos nove estados nordestinos, foram registrados 35 casos de arrombamentos com uso de explosivos, mais da metade das ocorrências do ano passado (64). Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte são os estados com maior número de registros.
Mas o Sudeste também tem sido alvo desse tipo de crime. Em Minas Gerais, já foram dois casos este ano, nas cidades de São João da Barra (Sul de Minas) e João Monlevade (Região Central). Na região de Campinas, no interior de São Paulo, até março foi registrado um caso de caixa eletrônico roubado com o uso de explosivos a cada quatro dias. No início deste mês, Holambra, cidade turística próxima a Campinas, foi alvo de mais uma ocorrência. Quatro caixas eletrônicos da cidade, de pouco mais de 10 mil habitantes e conhecida pelas suas belas plantações de flores, foram destruídos com explosivos.
Rotina
Na Região Sul e no Centro-Oeste a rotina de explosões se repete. No Rio Grande do Sul foram 11 atentados a caixas eletrônicos com explosivos. Este ano, a cidade de Nova Roma, no interior do estado, foi o mais recente alvo. A polícia acredita que novos ataques devem acontecer, pois no fim do ano passado, em novembro, cinco homens armados invadiram uma pedreira em Gravataí (RS) e roubaram 273 quilos de dinamite. Quantidade suficiente para a prática de pelo menos 273 ataques, segundo afirma o delegado do Departamento Especializado em Investigação Criminal da polícia gaúcha, Juliano Ferreira.
O delegado não quis dar detalhes da investigação, mas alertou para a precariedade no controle de material explosivo e disse estar preocupado com essa nova modalidade de roubos. “Começou com assalto a banco. Logo, logo vão explodir lojas, presídios, prédios e por aí vai. “Para ele, ainda não ocorreu nenhuma morte por sorte, pois nas cidades do interior, alvo preferencial dos bandidos, a maioria das agências bancárias está instalada no andar térreo de prédios residenciais. “Esse é o novo cangaço brasileiro. No lugar de armas, explosivos.”
Relato de terror
Gerente de banco do interior da Bahia, J., de 44 anos, conta que um caixa eletrônico da sua agência foi alvo ano passado de um atentado que quase jogou ao chão todo o prédio. Segundo ele, os bandidos “erraram a mão” na quantidade de explosivos e danificaram grande parte da agência. “Por sorte, ninguém ficou ferido.” Mas esse não foi o único atentado. Ele conta que depois disso um novo ataque estava programado. Só não se concretizou porque o plano foi abortado pela PM, que interceptou o carro dos bandidos cheio de dinamites. “Ser gerente de banco em cidades do interior do Brasil virou profissão de risco”, diz.
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Cresce o uso de dinamite em assaltos a bancos
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