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Estado de Minas RIO DE JANEIRO

Ação policial deixa 25 mortos em comunidade do Rio de Janeiro


06/05/2021 21:23 - atualizado 06/05/2021 21:26

Uma operação contra o narcotráfico em uma comunidade da zona norte do Rio de Janeiro deixou 25 mortos, entre eles um policial, nesta quinta-feira (6), informou a Polícia Civil, que negou acusações de execuções sumárias.

O balanço da ação na favela do Jacarezinho é o mais letal de uma operação policial na história do Rio, segundo pesquisadores.

A comunidade se transformou desde as primeiras horas do dia em um verdadeiro campo de batalha, com intensos tiroteios e helicópteros sobrevoando as casas.

Moradores encontraram pessoas mortas nos terraços e vielas e muitos corpos foram carregados por caminhões blindados da polícia, informou à AFP um líder comunitário, que pediu para não ser identificado por motivos de segurança.

Em entrevista coletiva no final da tarde, a Polícia Civil confirmou o balanço inicialmente informado pela imprensa de "24 suspeitos" e um agente morto, e garantiu que "todos os protocolos" da corporação "foram atendidos, sem exceção", antes de abrir fogo.

"Lamentavelmente teve muito confronto na comunidade. Não há de se comemorar esse resultado", afirmou um responsável da Polícia Civil. O agente morto foi baleado na cabeça "no início da operação", acrescentou.

A operação policial foi deflagrada por causa de uma investigação sobre uma quadrilha que recrutava crianças e adolescentes para o tráfico de drogas, roubos, sequestros e homicídios.

Para Silvia Ramos, coordenadora da Rede de Observatórios de Segurança Pública, tratou-se de "uma operação mal planejada e com um policial morto, se tornou abertamente uma operação de vingança".

"Quem são esses mortos? Jovens negros. É por isso que a Polícia fala que são 24 suspeitos. Basta ser jovem, negro, morador de favela, para ser suspeito para a Polícia", disse Ramos à AFP.

Integrantes de ONGs de defesa dos direitos humanos foram à favela e, junto com os moradores, fiscalizaram as casas que foram invadidas durante a ação policial, algumas com vestígios de sangue e destruição.

Uma moradora contou à AFP que um jovem foi morto em sua casa, onde tentou se abrigar, ferido.

"O menino entrou baleado, como a gente mora na comunidade ninguém pode jogar alguém fora, ele ficou aqui e quando os policiais viram o sangue, eles entraram gritando 'cadê ele, cadê ele?'. Só tive tempo de botar meus filhos para atrás de mim e eles assassinaram o garoto no quarto", relatou a mulher.

O Jacarezinho é considerado a base do Comando Vermelho, principal organização do narcotráfico do Rio.

- Operação mais letal -

"Se pensar em chacinas com participação de policiais fora de serviço (operações de vingança ilegais) temos Vigário Geral com 22 (mortos) e Candelária com 7 (mortos), ambas em 1993", disse Silvia Ramos à AFP.

"Mas mortos em operações legais, essa de hoje do Jacarezinho bateu todos os recordes", acrescentou.

A ONG Human Rights Watch (HEW) informou que já comprovou em outros casos "falhas graves nas investigações de mortes causadas pela polícia do Rio" e urgiu o Ministério Público a assegurar que "a polícia preserve o lugar dos fatos, sem mover nos corpos, até a conclusão da investigação".

O dispositivo foi realizado apesar de uma decisão do Supremo Tribunal Federal que impede a polícia de fazer operações nos bairros das periferias enquanto durar a pandemia do coronavírus, exceto em "circunstâncias absolutamente excepcionais".

O Instituto Igarapé, especializado em questões de segurança e desenvolvimento, considerou "inaceitável que a política de segurança pública do estado continue apostando na letalidade como principal estratégia, sobretudo em áreas vulneráveis".

Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), citados pelo Igarapé, a polícia do Rio "foi responsável pela morte de 453 pessoas entre janeiro e março deste ano", número que já representou "36% do total registrado em 2020", quando 1.245 pessoas foram mortas.


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