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Estado de Minas Europa se fecha

Lockdown na França pode servir de exemplo contra 2ª onda da COVID-19

Com média diária de até 50 mil novos diagnósticos, confinamento mais duro foi decretado pelo presidente francês Emmanuel Macron de amanhã a 1º de dezembro, enquanto Irlanda, República Tcheca e País de Gales tomaram o mesmo caminho e Alemanha impôs fechamento parcial


29/10/2020 06:00 - atualizado 29/10/2020 07:35

Em cadeia nacional de televisão, o presidente francês, Emmanuel Macron, justificou dura restrição para salvar o Natal (foto: Martin Bureau/AFP)
Em cadeia nacional de televisão, o presidente francês, Emmanuel Macron, justificou dura restrição para salvar o Natal (foto: Martin Bureau/AFP)

Avignon (França) – A medida que foi evitada a todo custo cobrou preço alto demais. Na sexta-feira, a França se lança como a primeira grande economia do mundo a confinar novamente toda a sua população diante da brutalidade da segunda onda da COVID-19. Além de combater a doença, está em jogo salvar o Natal. O anúncio foi feito na noite de ontem (16h no horário de Brasília) pelo presidente Emmanuel Macron, depois de dois dias de reunião entre representantes do governo, Parlamento e conselho científico. Outros três países europeus – Irlanda, República Tcheca e País de Gales – tomaram o mesmo rumo há alguns dias e a expectativa é de que a decisão francesa impulsione reação em cadeia entre outras potências do Velho Continente.

Na Alemanha, embora fosse também esperado o lockdown, a chancelar Ângela Merkel optou por um fechamento parcial, envolvendo bares, restaurantes e centros de lazer e cultura. O mundo registrou na terça-feira recorde de mais de 500 mil novos casos de contaminação pelo novo coronavírus, segundo balanço da agência de notícias AFP com base nos números divulgados pelas autoridades de saúde.

Ao todo, foram notificados 516.898 novos diagnósticos e registradas 7.723 mortes. De acordo com especialistas, o avanço não pode ser explicado apenas em decorrência do aumento dos testes realizados desde a primeira onda mundial da epidemia, entre março e abril. Passa de metade o número de casos registrados em 24 horas nos 10 países mais afetados pela doença respiratória: Estados Unidos, Índia, Brasil, Rússia, França, Espanha, Argentina, Colômbia, Reino Unido e México.

Na França, o reconfinamento anunciado pelo presidente Emmanuel Macron é mais “leve” do que aquele adotado no início do ano e está previsto para durar até 1º de dezembro. Em março, o fechamento foi desencadeado inicialmente por 15 dias e durou 56. Mais um esforço para enfrentar situação longe do fim. Na Europa, o assunto vacina é tratado com prudência.



Segundo Macron, cientistas apostam na imunização apenas para o próximo verão europeu. A boa notícia para os franceses é que, desta vez, a educação será, mais do que nunca, priorizada. Escolas da educação infantil ao ensino médio continuarão abertas. Apenas o ensino superior seguirá com aulas remotas. Serviços públicos também manterão as portas abertas. O teletrabalho, quando possível, volta a ser regra. Obras públicas e atividades agrícolas também não vão parar.

A ordem, como antes, é ficar em casa, o que é bem respeitado na França. As pessoas só devem sair de casa par ir o médico, fazer compras, tomar ar perto do domicílio e trabalhar, mediante atestado comprovando o motivo e assinado “sob a honra”. Os deslocamentos entre cidades e regiões também está proibido. Multas serão aplicadas em caso de desrespeito. Haverá tolerância apenas neste fim de semana, na volta das férias de 15 dias de finados. Estão permitidas, ainda, visitas às casas de repouso e estabelecimentos dedicados a idosos, mediante protocolos estritos. Cemitérios também continuarão abertos para as pessoas poderem “enterrar com dignidade seus próximos”, nas palavras do presidente.

Para todas as outras atividades, o que inclui bares, restaurantes e todo o comércio não essencial, vale o mesmo princípio da primeira onda: portas fechadas. Decisão difícil para um chefe de Estado faltando tão pouco para a época mais importante do ano, o Natal, adotar o lockdown é também um golpe duro para bares e restaurantes, que, mesmo depois de sua reabertura, em junho, não conseguiram recuperar o movimento habitual. “Não creio na oposição entre saúde e economia. Não tem economia próspera diante de uma situação sanitária degradada e não tem saúde, no sentido de hospitais e meios de tratamento, se não houver, se não tiver economia para bancá-la”, disse Emmanuel Macron.

Na Alemanha, a opção foi pelo bloqueio parcial, envolvendo fechamento de bares e restaurantes, centros de lazer e cultura(foto: Christof Stache/AFP)
Na Alemanha, a opção foi pelo bloqueio parcial, envolvendo fechamento de bares e restaurantes, centros de lazer e cultura (foto: Christof Stache/AFP)


A França alcançou anteontem a marca de 527 mortes em 24 horas e média diária de 40 mil a 50 mil novas contaminações. Isso é o que foi testado. “É, certamente, o dobro”, informou o presidente francês. Até ontem, mais de 35.785 franceses perderam a vida por causa do Sars-Cov-2.

Transferências O próprio governo reconhece que, hoje, é impossível saber a origem dos casos e, logo, definir com quem os doentes tiveram contato. Com a doença explodindo em todo o país, está cada vez mais difícil transferir pacientes. Ontem, no aeroporto de Avignon, no Sul da França, pacientes foram transferidos para outras regiões em avião militar. Atualmente, 3 mil pessoas estão em reanimação, mais da metade da capacidade nacional (58%).

Na primeira onda, o país chegou a 7,5 mil internações no pico da doença. Para dar conta da COVID-19, os hospitais já começaram a cancelar outras cirurgias, como as de coração e câncer, muitas delas que já haviam sido suspensas no primeiro semestre. De acordo com Macron, até meados de novembro, 9 mil pacientes lotarão as unidades de terapia intensiva (UTIs) do país. “Nesse ritmo, daqui a pouco, médicos terão de escolher entre um paciente com COVID-19 e uma pessoa ferida em acidente em rodovia ou entre dois pacientes de COVID-19. Num país como a França, isso é inaceitável”, afirmou Macron.

A segunda onda já é considerada mais brutal e letal que a primeira. Na França, 35% dos pacientes em UTI têm menos de 65 anos. Os leitos de UTIs em hospitais públicos passaram de 5 mil para 6 mil e chegarão a 10 mil. Sete mil enfermeiros e médicos foram formados para trabalhar nas unidades intensivas. “Veremos se poderemos cultivar este momento de Natal e festa de fim de ano ”, disse em seu pronunciamento.

Em Barcelona, manifestantes protestam contra a retomada de medidas rígidas que impactam o comércio(foto: Josep Lago/AFP)
Em Barcelona, manifestantes protestam contra a retomada de medidas rígidas que impactam o comércio (foto: Josep Lago/AFP)

Bloco europeu revê saídas


Representantes dos 27 países-membros da União Europeia se reúnem, hoje, por videoconferência para avaliar os rumos da doença respiratória no Velho Continente e as decisões que podem ser tomadas. No total, 100 milhões de euros (cerca de R$ 600 milhões) foram desbloqueados para financiar testes na população do bloco. A França foi a primeira nação a reconfinar toda a sua população, possibilidade evocada ontem pela Itália e pela Bélgica.

A expectativa era de que Alemanha seguisse o mesmo caminho, mas preferiu um lockdown limitado. A partir de segunda-feira e por um período de um mês, estarão fechados cafés, bares, restaurantes, instituições esportivas e centros culturais e de lazer, como teatros, piscinas e academias. Os encontros privados estão limitados a 10 pessoas. Os deslocamentos só são autorizados por motivo de força maior. As competições esportivas, incluindo os jogos do Campeonato Alemão, só poderão ocorrer sem público.

Por outro lado, as competições amadoras estão proibidas. Hotéis estão reservados aos deslocamentos profissionais indispensáveis. Com a missão de reduzir ao máximo o impacto econômico, mais uma vez a prioridade é a educação, com ordem de manter as escolas abertas.
Nos últimos dias, a Itália, que verifica média de 20 mil novos casos de contaminação diários, enfrenta uma série de protestos violentos contra as medidas impostas pelo governo para deter o coronavírus. Bares, restaurantes, teatros, cinemas e salas de esportes são obrigados a fechar as portas às 18h durante um mês. Escolas, faculdades e universidades devem assegurar 75% de suas aulas de forma remota.

Na Espanha, o estado de urgência sanitário foi decretado novamente no último dia 25, inicialmente por 15 dias, mas o governo dá sinais de que poderá prolongá-lo até maio. Um “toque de recolher” entre as 23h e as 6h foi imposto a todo o país, com exceção das Ilhas Canárias. As comunidades autônomas (equivalente aos estados brasileiros) vão decidir o que cada uma fará no próximo dia 9. Algumas regiões já adotaram confinamento parcial e, na Catalunha, há expectativa de um toque de recolher durante todo o fim de semana.

Portugal, por enquanto, recusa o confinamento. O uso de máscaras também não é obrigatório nas ruas. O país sofre com a falta de turistas e aposta num público que, até antes dessa enxurrada de medidas duras tomadas por seus vizinhos, continuava a viajar: os jovens. Sem os viajantes mais maduros, que sumiram do território, os preços de hotéis despencaram. Mas, com a situação piorando, governo prepara reunião de emergência para também fazer face à pandemia.

Na Bélgica, o rumor de um novo confinamento também ganha força. Por enquanto, o país adotou o toque de recolher a partir das 22h. Lojas devem fechar às 20h. No entanto, no Norte do país a partir de sexta-feira à noite, todas as salas de espetáculos e centros culturais fecharão as portas.

Fora da União Europeia, na Inglaterra (Reino Unido), pubs e restaurantes fecham às 22h e, desde setembro, está em vigor a regra dos seis: máximo de seis pessoas aglomeradas em lugares fechados ou abertos. Com o sistema hospitalar pedindo socorro, a Irlanda foi o primeiro país europeu a se reconfinar, no último dia 21, seguido pela República Tcheca (22) e País de Gales (23). (JO)


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