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Estado de Minas

Mineiro retido no Equador compara situação do país com Chernobyl

O digital influencer Ricardo Bueno estava entre os 150 brasileiros retidos no país vizinho; grupo chegou ao Brasil nesta semana


postado em 03/04/2020 16:27 / atualizado em 03/04/2020 20:48

Brasileiros voltaram nessa terça-feira(foto: Reprodução/ @ossaboreamundo )
Brasileiros voltaram nessa terça-feira (foto: Reprodução/ @ossaboreamundo )

Depois de quase um mês, acabou a saga dos brasileiros que estavam retidos no Equador devido à pandemia do novo coronavírus. Cerca de 150 pessoas chegaram a São Paulo nesta semana depois de viverem dias de insegurança, sem saber o que fazer e de onde tirar dinheiro para sobreviver em um lugar a quilômetros de casa, com uma outra língua e com o dólar como a moeda local.

Em conversa com o Estado de Minas, um desses turistas relatou como é a vida atual do segundo país da América Latina que mais registra casos e comparou a situação de lá com o Brasil

O mineiro Ricardo Bueno, de 38 anos, estava retido em Quito, capital do país, desde o início do mês passado, quando viajou com seu namorado para as ilhas de Galápagos.

Por lá, tudo ocorria normalmente, até que no último dia 15,  o Peru (país em o casal faria escala para volta ao Brasil) resolveu fechar seus aeroportos, para evitar a intensa propagação do vírus.

Com a medida, eles e mais outras dezenas de brasileiros não conseguiram embarcar e ficaram retidos no Equador. Desde então, eles vinham sendo obrigados a bancar hospedagem e comida em dólar, moeda oficial do país vizinho - toda a trama foi relatada e registrada no perfil @ossaboresdomundo.

A situação começou a melhorar quando a embaixada brasileira mapeou o grupo e fez um plano para tirá-los do país. 

“O governo do Equador decretou estado de exceção, então as ruas estavam perigosas, inclusive brasileiros foram assaltados lá e teve um outro hotel que chegou a ser invadido e roubado. A gente só podia sair nas ruas até as 14h, mesmo assim com máscaras e luvas e apenas para ir a supermercados e farmácias", conta.

"Quando chegávamos aos estabelecimentos, eles nos obrigavam a pisar em uma poça com algum desinfetante e depois aplicavam álcool em gel em nossa luva. Quando retornávamos para o hotel era a mesma coisa.”

A situação no Equador é drástica. De acordo com o site WorldMeters, plataforma que mede o número de casos no mundo, o país já registra 3.368 pessoas diagnosticadas com o vírus e outras 145 já morreram.

Na cidade portuária de Guayaquil, a 425 quilômetros da capital, familiares já são obrigados a deixar os corpos de vítimas nas ruas. Isso porque os serviços funerário e sanitários já estão em colapso, além do medo de contágio. Desde domingo, uma força-tarefa montada pelo Exército e pela polícia removeu 150 cadáveres das residências – não há confirmação de que todos os mortos estejam diagnosticados com a COVID-19.

A situação do Equador é comparada por Ricardo à Chernobyl, cidade ucraniana que foi palco de um dos maiores acidentes nucleares do mundo e deixou milhares de mortos : “Parecia que a gente estava em Chernobyl lá, todo mundo usando máscara, aquele medo danado. Lá em Guayaquil, as pessoas estão jogando corpos nas ruas e colocando fogo , é um cenário apocalíptico”.

No dia de irem embora, outra cena chamou a atenção: a forma como as autoridades equatorianas se protegiam de uma possível contaminação. “No dia 29, fomos informados que iríamos conseguir ir embora. Aí, fomos a uma praça e, chegando lá, mantidos à distância de 2 metros dos outros. Estava todo mundo usando luva e máscaras. Além disso, havia dezenas de policiais, militares e até caminhões do Exército. Os policiais estavam armados com escopeta, foi tenso”, relembra.

EQUADOR X BRASIL

Na última terça-feira, quando os brasileiros desembarcaram em São Paulo, os então ex-turistas perceberam a diferença da terra natal para o país vizinho, quanto às medidas de contenção. “A única coisa que fizemos aqui no Brasil foi medir a temperatura. Mediram de cada um, mas depois disso, em nenhum momento, aplicaram álcool em gel em nossas mãos. Também não deram nenhuma orientação para fazer quarentena ou ir direto para casa, nada disso. Eu fiquei impressionado.”

Segundo Ricardo, as próprias pessoas decidiram se isolar, sem nenhuma medida da administração pública. A orientação foi feita por médicos e outros profissionais de saúde que faziam parte do grupo de brasileiros repatriados. “Não tinha ninguém com sintoma, inclusive tinha gente que não estava concordando muito em se isolar, mas tentamos convencê-los”, conta.

Agora, Ricardo decidiu se isolar por sete dias no apartamento do namorado, em Santos, cidade litorânea de São Paulo. Caso apresente sintomas da doença, a previsão é de que ele fique mais uma semana confinado. “Minha preocupação maior é que eu olho aqui da janela e vejo obras acontecendo e pessoas assando churrasco na rua. Não vejo ninguém usando máscara, parece que a vida está normal”, diz o brasileiro.

Depois de ser obrigado a aumentar os gastos com a viagem estendida, o casal ainda sofreu com outro problema na chegada ao Brasil. Com o isolamento proposto pelo próprio grupo, eles evitam, ao máximo, sair de casa, o que aumentam as despesas com serviços de delivery. Além disso, a única fonte de renda da dupla é um perfil de viagens no Instagram, um dos setores que foram mais afetados pela pandemia. 

“Está difícil não sair, estamos tendo que pedir tudo e acaba encarecendo, ainda mais que já gastamos tudo em dólar lá no Equador. Uma viagem que era pra ter durado uma semana e pouco, acabou durando quase um mês”, lamenta.

* Estagiário sob a supervisão da editora Teresa Caram

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