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Estado de Minas

Polícia turca acredita que jornalista Khashoggi foi morto no consulado saudita


postado em 07/10/2018 09:00

A polícia turca acredita que o jornalista saudita Jamal Khashoggi, crítico do poder de Riad e que desapareceu na terça-feira em Istambul, foi assassinado no consulado de seu país, segundo uma fonte próxima ao governo, uma informação negada pela Arábia Saudita.

"A polícia turca considera, em suas primeiras conclusões, que o jornalista foi morto no consulado por uma equipe que veio a Istambul para esta finalidade e que partiu no mesmo dia", declarou a fonte à AFP.

As autoridades tinham informado um pouco antes que um grupo de sauditas havia ido ao consulado de seu país em Istambul enquanto Khashoggi se encontrava no edifício.

A polícia, citada pela agência estatal Anadolu, acrescentou que o jornalista não deixou a representação diplomática, aonde tinha ido para resolver trâmites administrativos.

A agência oficial de notícias saudita SPA relatou neste domingo que um funcionário do consulado da Arábia Saudita negou, anonimamente, as informações de que o jornalista foi morto.

"O funcionário negou veementemente estas acusações infundadas", segundo a SPA. A agência acrescentou que uma equipe de investigadores sauditas estava na Turquia e trabalhava com as autoridades locais.

"Estou à espera de uma confirmação oficial do governo turco para acreditar", reagiu no Twitter a noiva turca do jornalista, Hatice Cengiz.

Riad assegura que Khashoggi, um jornalista crítico ao regime saudita que colaborava com veículos como o jornal americano Washington Post, deixou o consulado na terça-feira.

Em uma entrevista à agência Bloomberg na sexta-feira, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman disse que Jamal Khashoggi realmente "entrou" no consulado, mas partiu logo em seguida. Ele convidou as autoridades turcas a "procurar" no consulado. "Não temos nada a esconder".

Khashoggi se exilou nos Estados Unidos no ano passado, temendo ser preso após criticar algumas das decisões de Mohammed bin Salman e a intervenção militar de Riad no Iêmen.

Segundo sua noiva, ele foi ao consulado para tomar as providências para o casamento.

"Ele foi ao consulado com hora marcada, então eles sabiam quando ele estaria lá", explicou à AFP um jornalista próximo, Yasin Aktay, também uma figura do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, no poder).

"Ele ligou para o consulado um pouco antes para ver se seus documentos estavam prontos, eles disseram 'sim, estão prontos, você pode vir'", acrescentou ele.

"Seus amigos o alertaram, falaram que era melhor que ele não fosse, porque não era seguro. Mas ele estava confiante de que tal coisa era impossível na Turquia", acrescentou Aktay.

O embaixador saudita na Turquia foi convocado por Ancara na quarta-feira. Um inquérito judicial também foi aberto.

Neste domingo, a diplomacia britânica considerou como "extremamente graves as alegações" de que o jornalista foi assassinado no consulado.

"Estamos a par das últimas informações e trabalhamos para estabelecer os fato", declarou à AFP um porta-voz do ministério das Relações Exteriores britânico.

- "Crime de Estado" -

O departamento de Estado americano indicou no sábado que "não poderia confirmar" o destino de Jamal Kashoggi, mas afirmou que "acompanha a situação de perto".

A representante da OSCE Harlem Désir fez um apelo no Twitter para que as autoridades turcas revelem os detalhes do caso, estimando que os "responsáveis por este crime horrível devem prestar contas à Justiça".

Em sinal de apoio, o Washington Post decidiu deixar em aberto o espaço em que deveria ter publicado a coluna do jornalista saudita em sua edição de sexta-feira.

Em comentário na Al Yazeera em inglês, o jornalista e analista Bill Law diz conhecer Khashoggi há 16 anos e o descreve como "um jornalista brilhante, dotado de uma mente ferozmente independente e de bastante pragmatismo para saber até onde pode se aproximar das linhas vermelhas".

A Arábia Saudita está na posição 169 de 180 no ranking mundial de liberdade de imprensa da organização Repórteres sem Fronteiras.

Riad promove uma campanha de modernização desde que o príncipe Mohamed bin Salman foi designado herdeiro ao trono, em 2017. Mas a repressão aos dissidentes, com detenções de religiosos, personalidades liberais e de ativistas feministas, se acentuou desde então.

Khashoggi, que fará 60 anos em 13 de outubro, é um dos poucos jornalistas que têm criticado esta repressão.

Em 6 de março, em editorial escrito com Robert Lacey no jornal britânico The Guardian, escreveu que o príncipe Mohamed bin Salman "parece conduzir o país de um extremismo religioso de outra época ao seu próprio extremismo de 'Tem que aceitar minhas reformas', sem nenhuma consulta e com detenções e desaparecimentos de seus detratores. Ignora seu programa uma das reformas mais importantes, a democracia?".

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