Donald Trump anunciou nesta terça-feira (13) a nomeação de Rex Tillerson, CEO da ExxonMobil e empresário de laços fortes com a Rússia, para conduzir o Departamento de Estado, em meio à polêmica sobre a interferência russa nas recentes eleições presidenciais.
Tillerson, de 64 anos, fez toda sua carreira no gigante petrolífero e é considerado um dos empresários com melhores vínculos entre as autoridades russas desde que administrou um consórcio de exploração de petróleo na ilha Sakhalin, no leste da Rússia.
Em 2013, o presidente russo, Vladimir Putin, condecorou Tillerson com a Ordem da Amizade. Nos últimos anos, Tillerson também foi um aberto opositor das sanções econômicas impostas por Washington a Moscou.
O nome de Tillerson passou a ser considerado na segunda-feira (12) como o candidato mais firme para conduzir a diplomacia americana, cargo pelo qual se enfrentaram verdadeiros pesos-pesados da política e dos negócios.
Em uma nota oficial, Trump destacou que, com a nomeação de Tillerson, "os americanos voltam a ter um líder de classe mundial trabalhando por eles".
Trump elogiou Tillerson como "um grande diplomata" e "um dos maiores e mais competentes líderes empresariais globais de nosso tempo", em um discurso de agradecimento por sua vitória na terça-feira à noite em Wisconsin, um tradicional estado democrata que o ajudou a ser eleito.
À frente da imensa máquina diplomática que é o Departamento de Estado, Tillerson terá como prioridade a defesa "dos interesses americanos" e ajudará a "reverter anos de Política Externa equivocada que enfraqueceram a segurança e a posição dos Estados Unidos no mundo". afirmou Trump.
Tillerson - disse Trump - "sabe como administrar uma organização global e como navegar de forma bem-sucedida pela complexa arquitetura dos negócios mundiais e pelos diversos líderes estrangeiros".
Relações problemáticas
Instantes depois de saber da nomeação, a Chancelaria russa reagiu, afirmando que o futuro secretário tem "boas relações de trabalho" com Putin.
Para o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, Tillerson é um "pragmático", enquanto o porta-voz da pasta, Yuri Uchakov, definiu-o como "uma personalidade sólida".
Já o secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), Mohamed Barkindo, celebrou a nomeação de Tillerson, avaliando que ele é "mais do que qualificado" para o cargo.
"Há muito poucas diferenças entre o petróleo, a geopolítica e a diplomacia", afirmou o nigeriano, em um seminário em Washington organizado pelo "think tank" Center for Strategic and International Studies (CSIS).
Nos Estados Unidos, porém, a proximidade de Tillerson com a Rússia pode se transformar em um enorme problema para Trump, já que o novo secretário de Estado ainda deverá ser confirmado pelo Senado.
O influente senador conservador John McCain disse ontem à rede de televisão CNN que Putin "é um tirano e um assassino, não vejo como (Tillerson) pode ser amigo de um ex-agente da KGB".
O também senador republicano Marco Rubio afirmou, por sua vez, que "ser um amigo de Vladimir não é uma característica que eu espero de um secretário de Estado".
O senador democrata Ben Cardin foi outro que questionou o anúncio, sugerindo que sua confirmação pode enfrentar resistência de ambos os partidos.
Cardin disse se sentir "profundamente perturbado com a oposição do senhor Tillerson às sanções dos Estados Unidos contra a Rússia".
Três ex-funcionários de alto perfil do governo de George W. Bush - o vice-presidente Dick Cheney, a secretária de Estado Condoleezza Rice e o secretário da Defesa Robert Gates - defenderam o nome de Tillerson.
Em nota, Rice disse que se trata de "uma opção excelente" para conduzir a diplomacia por "sua incrível e ampla experiência internacional" e por sua convicção do "papel especial dos Estados Unidos no mundo".
Nesse contexto, o Congresso se prepara para investigar os ataques cibernéticos e as interferências russas na eleição americana. O movimento acentua a pressão sobre Moscou, embora Trump busque uma aproximação com os russos.
De acordo com o jornal The Washington Post, a CIA (a agência de Inteligência americana) concluiu, em um relatório secreto, que a Rússia atuou nos ciberataques durante a campanha eleitoral para ajudar na eleição de Trump, e não com o objetivo mais generalizado de minar o bom desenvolvimento das eleições.
O sucessor de Barack Obama rejeitou essas conclusões, as quais classificou como "ridículas" em uma entrevista à Fox News.
"A menos que você surpreenda em flagrante delito os hackers, é muito difícil determinar quem esteve por trás da pirataria", tuitou Trump na segunda-feira.
Em outubro, os serviços de Inteligência americanos acusaram a Rússia de ter hackeado os partidos políticos dos EUA com o objetivo de interferir no processo eleitoral.
"Os russos não são nossos amigos", advertiu ontem o chefe da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, durante uma coletiva de imprensa.
Primeira advertência chinesa
Além da polêmica com a Rússia, Tillerson terá outro tema delicado a tratar quando assumir seu cargo, em 20 de janeiro: as relações com a China.
Desde o início deste mês, Trump multiplicou suas críticas declarações sobre Pequim, que pareceu, no entanto, ter recebido com benevolência sua eleição em 8 de novembro.
O regime chinês lançou uma primeira advertência na segunda-feira, em nome da defesa de seu "princípio de uma China única", ameaçado por Trump no domingo.
"Não entendo por que devemos estar ligados à política de uma China única, a não ser que cheguemos a um acordo para obter outras coisas, inclusive no comércio", declarou Trump no domingo.
O presidente eleito já havia ignorado o princípio de "uma China única" no início de dezembro ao atender a um telefonema da presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, para irritação do governo chinês.
"Tomamos nota dessas informações e estamos gravemente preocupados", advertiu em uma coletiva de imprensa o porta-voz do Ministério chinês das Relações Exteriores, Geng Shuang, em alusão às declarações de Trump.
