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Estado de Minas INCÊNDIOS

Incêndios em Minas: animais morrem carbonizados pelas chamas

Fauna mineira é composta, em parte, por animais pequenos, com baixa mobilidade. Eles não conseguem fugir e são atingidos pelo fogo, antes mesmo chegar o resgate


27/09/2021 17:07 - atualizado 27/09/2021 18:40

Focos de incêndio em Minas chegaram a ser um a cada 6 minutos, segundo o Inpe
Focos de incêndio em Minas chegaram a ser um a cada 6 minutos, segundo o Inpe (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Setembro de 2021 está surpreendendo os mineiros com a quantidade de incêndios. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), neste mês há, em média, um foco ativo a cada seis minutos. Entre os diversos problemas gerados pelo fogo, está a morte de incontáveis animais, que acabam sendo carbonizados e desconfigurados pelas chamas, enquanto tentam fugir. 
 
Segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), as espécies de baixa mobilidade e que ficam expostas às chamas são as mais afetadas pelo efeito direto do fogo, como répteis (serpentes, lagartos), anfíbios (sapos), invertebrados e filhotes em geral. 

Porém, não há maneiras de saber, exatamente, quais animais são os mais afetados, com um dado além da classe que pertencem. "Não se sabe quais as espécies que mais fogem, mais morrem ou mais param nas estradas, isso porque existem muitas variáveis e não há um estudo sobre", disse Thiago Stehling, médico veterinário do Instituto Estadual de Florestas (IEF), que atua no Centro de Triagem de Animais Silvestres do IBAMA em Belo Horizonte (Cetas/BH).

O veterinário explica que apesar da quantidade de incêndios em todo o estado, poucos animais conseguem ser resgatados com vida e levados para tratamento. "Muita gente acha que, por causa dessas queimadas, devem chegar vários animais queimados para tratamento. Na verdade, não e são muitos fatores que levam à essa situação".

"As características no nosso relevo, vegetação e fauna são alguns exemplos. Os animais silvestres ou são carbonizados e nem encontramos os restos mortais, pensando que a maioria da nossa fauna são de animais pequenos. Ou eles conseguem escapar. Poucos vão ser encontrados agonizando, com ferimentos ou queimados."

"Muitas vezes acontece de os animais estarem fugindo do fogo e serem atropelados nas estradas. Isso também é uma consequência do fogo. Mas não temos informações detalhadas do histórico dos animais que chegam de atropelamento."

Complexidade de acesso aos locais


Diferente de outros estados, em Minas Gerais, o relevo não apresenta planícies e para acessar os locais de incêndio, há uma maior exigência de preparo e conhecimento das matas.

"É diferente, por exemplo, do Pantanal, que diversas pessoas falam dos animais resgatados. É cobra, onça, jacaré, sucuri. Em Minas é diferente, nosso relevo é muito acidentado. Quem consegue chegar, por vezes, são só profissionais altamente treinados para combate de incêndio florestal", explica o veterinário.

"Lá (Pantanal), os biólogos ou veterinários conseguem acessar alguns lugares, a composição da fauna é diferente, com muitos grandes mamíferos e répteis, formando uma concentração bem maior de animais, isso devido as características do próprio ambiente", continua. 

Segundo o sargento Aloisio Henrique Souza, que trabalha do pelotão de combate à incêndios florestais do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG), algumas circunstâncias realmente complicam, ainda mais, o trabalho dos militares.
 
"Um elemento favorável ao combate ao incêndio é quando o terreno é plano, levemente acidentado e há existência de estradas, que permitem uma resposta rápida. Porque, quanto mais rápido o incêndio for debelado, menos estragos trará. Agora, a ausência de estradas, aclives e declives, regiões montanhosas, mata densa e fechada, terrenos alagados e pântanos, são elementos desfavoráveis, que geram um tempo de resposta demorado", explica.
 
Em Minas Gerais, o relevo é mais acidentado em diversas áreas e o clima seco das últimas semanas têm dificultado o combate às chamas. "A cobertura vegetal de Minas Gerais pode ser resumida em quatro tipos de biomas principais, a Mata Atlântica, Cerrado, Campos de Altitude e Mata Seca", diz o sargento.
 
"Assim como numa batalha, no combate ao incêndio florestal também são analisadas algumas variáveis que podem ser de fundamental importância à operação no combate direto ao incêndio e o resgate de animais encontrados", continua.
 
"Tem que ficar bem claro que combater os incêndios florestais no combate direto não e fácil, além de se tratar de uma atividade desgastante, requer atenção e uma visão constante de tudo, já que o incêndio possui comportamento, até certo ponto, previsível".
 
"Por isso é comum nós vermos planos sendo adequados durante a ação e equipamentos sendo exigidos de última hora. O incêndio, literalmente, age ao sabor dos ventos. Aqui nós temos alguns problemas. São dias sem chover, temperatura acima de 30°C, umidade relativa do ar abaixo de 30% e a velocidade do vento acima de 30km/h", finaliza.
 
O resgate dos animais
 
No cansativo trabalho de combater as chamas e impedir que elas se alastrem ainda mais pela vegetação, o resgate dos animais é feito na medida que os militares os encontram com vida. O problema é que, a maioria dos bichos acaba morrendo, antes mesmo de serem vistos pela equipe. 
 
De acordo com o sargento Henrique, o pelotão que faz o combate ao incêndio também resgata os animais e as diferentes espécies são afetadas de algumas formas. Entretanto, todas sofrem com dois pontos principais, a falta de comida e abrigo.
 
"Os efeitos do fogo, no geral, estão na eliminação da fonte de alimento e abrigo. Animais maiores, como mamíferos e aves, sentem a chegada do fogo por meio das ondas emanadas pelas chamas e do cheiro da fumaça, por isso partem em fuga. Mas aqui há um grande problema, que parte da fauna não consegue fugir, por conta de sua baixa mobilidade. Quando o incêndio se torna de grandes proporções, ele espalha animais carbonizados por toda extensão de área queimada", disse.
 
Muitos animais morrem no local dos incêndios
Muitos animais morrem no local dos incêndios (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press- 26/10/2017)
 
 
A médica veterinária e soldado do CBMMG, Luana Maressa explica que não há uma equipe especializada para resgate de animais. "Não existe uma equipe especializada em resgatá-los. A própria equipe no combate ao incêndio, que se deparar com um animal ferido, vai pegá-lo e encaminhar para atendimento. Há recomendação de usar um pano limpo, para não agarrar a pele do animal no equipamento, em seguida eles são levados para o IBAMA, em horário comercial, ou para as clínicas veterinárias mais próximas", explica.
 
Alguns animais conseguem fugir das chamas e na tentativa de se proteger, acabam chegando em áreas urbanas e entram em casas. Nesses casos, a soldado dá algumas orientações. "Muitas vezes os parques atingidos pelos incêndios estão próximos à áreas urbanizadas e para fugir do fogo, o animal pode ir parar numa casa, garagem, buscando refúgio em locais públicos e urbanizados", disse.
 
"E na tentativa de ajudar o animal, uma pessoa pode até ser ferida, porque o animal com dor está propenso a atacar. Recomendamos sempre ligar para o 193 para fazermos o resgate. Algumas pessoas fazem receitas caseiras para tentar melhorar a queimadura, mas não algo aconselhado". 

"Se o animal estiver na garagem, por exemplo, também é possível fechar o ambiente, com segurança, e ligar para o 193. Se ele estiver no recinto fechado, dá tempo de os bombeiros chegarem para realizar o resgate, sem que o animal fuja ou as pessoas corram risco de serem atacadas", finaliza a soldado Maressa.

Para onde vão os animais resgatados?

Quando conseguem sobreviver ao caos do incêndio e são resgatados, os animais podem ser levados para atendimento emergencial em clínicas ou hospitais veterinários mais próximos. Porém, segundo a Semad, o ideal é que esses animais sejam entregues nos Centros de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestre do IEF, localizados em Belo Horizonte, Juiz de Fora, Montes Claros, Patos de Minas e Divinópolis. Nestas estruturas, os animais serão tratados e quando possível, reabilitados.  

De acordo com o veterinário Thiago Stehling, do Cetas/BH, entre a chegada dos animais no Centro até a soltura no ambiente ocorrem muitas fases. Nos últimos três meses, apenas quatro animais deram entrada para tratamento na capital mineira vítimas de incêndios.  Foram um jabuti, um ouriço-cacheiro (porco-espinho) e dois gambás de orelha branca.
 
Ouriço-cacheiro (o porco-espinho) vítima de um incêndio, em tratamento no Cetas/BH
Ouriço-cacheiro (o porco-espinho) vítima de um incêndio, em tratamento no Cetas/BH (foto: Thiago Lima)

 
"Apesar de chegarem poucos, não quer dizer que o fogo não cause problemas. Pelo contrário, não chegam tantos animais porque muitos morrem. Um animal que veio de incêndio não necessariamente está com queimadura. Às vezes ele só estava fugindo e foi resgatado. Fazemos uns exames e se ele não tem nada, podemos levar para a área de soltura", explica.
 

A reabilitação

 
O processo de recuperação passa pelo tratamento das feridas, quando há, recuperação física e reabilitação. "Se o animal chega queimado, nós tratamos da queimadura e só depois da recuperação física é que fazemos a reabilitação. Ele fica num viveiro, fazendo recuperação física para escalar, correr ou voar, a depender da espécie", diz o veterinário.

"Fazemos alguns artifícios para treiná-lo a voltar para a natureza, como esconder os alimentos para ele trabalhar o olfato, reaprendendo a procurar. Animais adultos já têm mais medo dos seres humanos, mas os filhotes não. Por isso, geralmente, a reabilitação deles demora mais, pois é necessário tirar o vínculo que ele teve na infância, criado durante o tratamento. Isso ocorre porque nós precisamos dar mamadeiras, por exemplo".
 
"Para ir desvinculando, a gente pode usar algumas estratégias como sons altos, para ele associar que a presença de seres humanos pode ser algo ruim. Também precisamos apresentar possíveis predadores para ele saber que não pode aproximar de certos animais", continua.
 
Nessa técnica, pegamos, por exemplo, o cheiro de um predador, colocamos no recinto e quando ele sente, colocamos um som alto para ocorrer associação à algo perigoso. Também podemos colocar animais empalhados, que já morreram, e aplicamos a técnica de associação negativa. Mas muitas vezes, basta um afastamento nosso, sem tanto contato, só com os básicos - como colocar comida e limpar o espaço, eles já conseguem cortar o vínculo com humanos", finaliza o médico veterinário.
 
*Estagiária sob supervisão da subeditora Ellen Cristie. 


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